À Conversa com...

1. Marcelo Novaes, Julho 2010

[Foi com surpresa, que há pouco mais de um ano (talvez Junho ou Julho) recebi o convite por parte do Marcelo Novaes, para uma pequena “conversa”, a editar no seu Bloco de Notas, ao qual prontamente acedi, pese a hesitação natural nestas ocasiões: foi a primeira “conversa” … e aconteceu!

Também com alguma surpresa e não menos tristeza, há uns dias, o Marcelo comunicou-me que iria encerrar esse blog, onde esta conversa, bem como muitas outras de algumas autores que tanto admiro, pessoas que incondicionalmente estimo e sinto uma empatia extraordinária, (seja pelo seu trabalho, seja pela sua forma de estar!), foram meticulosamente trabalhadas pela excelência de comunicação do Marcelo, pela sua argúcia e pertinência na pergunta, na inteligência de produzir a matéria da conversa e conduzi-la duma forma “tão natural” quanto “desarmante”. Essa “conversa” foi um momento impar, para este, neste curto percurso que mantenho e como tal o guardo; se a reproduzo a seguir e dela não retiro uma virgula que seja, é pela imensa admiração que, para além de qualquer circunstância, nutro e estou certo que nutrirei pelo Marcelo, e pelo que a sua presença representou no meu “doloroso crescimento” na escrita, neste curto percurso que tenho partilhado, o mais que posso, o mais que sei, o mais que tenho, incondicionalmente… e nem faria sentido de outra forma!

Na esperança que esta “conversa” se perpetue um pouco mais no tempo, aqui a deixo, aqui a entrego!

Um grato e imenso abraço, Marcelo!]



Marcelo Novaes: Leonardo, as palavras nos pertencem em regime provisório. Qual é o Território da Palavra?

Um mundo imenso… quase imperceptível, mas imenso! Um território em permanente destruição e reconstrução, um edifício que se constrói e destrói a uma velocidade constante… ou pelo menos assim pode parecer num primeiro olhar. E é nesse olhar, quase primitivo, que a palavra surge: um constante campo de batalha, onde perecem significados, retomam-se as posições e se pretendem delinear a palavra enquanto arquétipo, enquanto modelo a tomar. A palavra, enquanto território comum nasce num determinado tempo para morrer muito adiante, e tarde ou cedo retoma-se como uma ressurreição muito peculiar de sentido: a quem pertence a palavra, enquanto signo, enquanto redução de pensamento a uma constante, quase instrumento de precisão? Ao mundo da literatura? A que mundo?

Não creio que haja uma definição universal para o uso da palavra enquanto instrumento de precisão, alinhado com o pensamento e quando alego que em última instância a palavra não me pertence, senão da forma como a componho ou não, refiro-me sobretudo à relação que deveremos ter com a palavra, como instrumento de trabalho: não a posso possuir, porque efectivamente não me pertence, ao contrário daqueles fanáticos quase insuportáveis que se agarram com unhas e dentes à doença do plágio… sim, é doentia essa relação! Claro que não o defendo, o plágio, até porque parto do princípio que pretendo para com a palavra, uma relação de lealdade, uma espécie de compromisso muito particular… quase mandamento: não copiarás! Como tal não temo a cópia fraudulenta, porque também não a pratico… mas que devemos deixar uma espécie de clausula de salvaguarda, porque até, desde os tempos bíblicos que não se escreve nada de novo ou quase nada, então a relação com a minha, a nossa relação com a palavra será sempre saudável porque tacitamente o nosso território delimita-se a si próprio, sem a sombra obsessiva da “imitação”… afinal estamos só a lidar com palavras e como já fazia notar Horácio, algumas perecem e vão ressuscitar mais adiante, “muitas, agora cheias de prestigio, cairão, se assim o quiser o uso”


Eu chamaria tua poesia de elemental, pelo uso que ela faz dos elementos que constituiriam o ser das coisas, no sentido da procura da proto-matéria ou das matrizes universais do mundo: coisa de pré-socrático [Anaxágoras, Anaximandro, Heráclito, Empédocles...] ou de alquimista. Você se dá conta dessa procura pelos Elementos Primeiros na tua Poesia, isso é intrínseco à toda Poesia, ou é coisa minha mesmo, de mau leitor?

Bom… gostaria de acreditar de não existem nem bons ou maus leitores, assim como não existem maus escritores: existiram e vão continuar a existir indivíduos que não fazem o uso mais correcto da ordem da palavra e outros que o fizeram de forma soberba, mas não conseguiram adiantar grande coisa à história de si próprios, enquanto titulares dos nomes do tempo.

Mais que matéria, ou amálgama estética, a forma como encaro a composição poética deve mais a uma espécie de desambiguação da natureza humana interior e uma outra perceptível que me rodeia… penso que a matéria sensorial imediata não me satisfaz como abordagem ao mundo, como linguagem a explorar. Enquanto veiculo natural da linguagem, a poesia pode atrever-se a procurar uma representação de todas as complexas relações, inesgotáveis presumo, entre o Eu e a Natureza, entre os fenómenos que existindo encontram-se num reflexo continuo, num encontro unificador dentro da palavra. E será alquímico o processo? Não, se por enquanto, para o poeta o mundo não se condensar nas ciências ditas ocultas; o poeta não é visionário, não é profeta, nem tão pouco uma espécie de semideus, mas antes um homem de laboratório, um individuo que procura no escuro uma ponta de claridade, um individuo que no seu laboratório, solitariamente, procura condensar o mundo não numa fórmula, mas numa hipótese. A linguagem matriz do poeta, a procura duma metalinguagem própria, toca muitas vezes nesse principio conciliatório, o mais possível mesmo, nas sensações e percepções múltiplas, no que muitas vezes se apelida de “reconciliação de vida e sentimento”… e esse é o momento matricial da longa viagem da poesia: primeiro, a procura incessante dos materiais de construção, o delinear renovado da matéria do mundo, o olhar distante, vago, subtil ou mesmo complexo e depois, depois da fase de crisálida e consequente renascer para o mundo em borboleta, sem rota nem plano de voo, marcados.

A poesia utiliza mais a génese dos elementos e da matéria como um horizonte a desconstruir, que um ser que tenta metamorfosear-se com o lado descontínuo, desigual da vida. Basicamente, se entendermos o mundo como um conjunto de acidentes que a ciência tenta abarcar e compreender, ao poeta cabe mais o papel de redefinir o olhar sobre o mundo: ao poeta, mais que aproximar da matéria, recebê-la e inscrever uma fórmula para esse próprio fenómeno, cabe-lhe o papel de reflexão: esse o ponto de intersecção com alguns dos loucos bíblicos… a natureza basta, a natureza é aliança e não exílio! A palavra em si, não é tão perecível quanto o individuo que a compõe, mas corre imensos riscos, enquanto elemento… podem parecer preciosismos e lugares comuns de mau gosto, mas ao poeta, desaparecida a figura, o símbolo de pureza do profeta, torna-se numa espécie de último reduto dessa utopia que é o ser humano como parte integrante e não dominante duma natureza sem vontade alguma para se deixar domar, mas que confortavelmente a temos como subjugada à vontade humana. Nesse sentido, a poesia, a escrita que se busca em si, a arte pela arte, transforma-se num elemento admirado mas indesejado: a natureza é sempre um lugar de adorno, complementar, um lugar de alucinados… um pouco como uma religião, uma loja de conveniência: enquanto adorno não é nociva, mas como leitora atenta do mundo, a poesia é um lugar incómodo por não se alimentar de “realidades”, mas de possibilidade. O poeta, aí, desempenha o papel ingrato da escrita: mais que um profeta, é um intruso!


O que é Melancolia, Leonardo, e como o Poeta pode administrá-la, sem sucumbir? [Aliás, chega de poetas suicidas!]. A que você, Leonardo, atribui o naufrágio-suicídio de tantos e tantos poetas, inclusive em Portugal? A menção de Mário de Sá-Carneiro, neste contexto, pode ser emblemática. Fernando Pessoa recitou, no obituário do poeta suicida-suicidado, que Portugal, de fato, não merecia Mário de Sá-Carneiro. Portugal merece seus poetas de hoje? Algum lugar os merece?

Creio que é sempre prematuro comprimir o poeta, o escritor, nos seus atributos. O acto da escrita não liga bem com a noção de efémero que é tão querida ao mundo em que nos movimentamos, essa noção incómoda do tempo que se apresenta ao predador de sonhos que é o poeta, é muito limitada. Creio que o dramatismo que serve de invólucro à maioria das biografias dos artistas, é sempre mais um lugar caprichoso de que se alimentam os biógrafos, que propriamente um retrato lúcido do poeta enquanto individuo, enquanto ser que não vive acima das coisas do mundo, mas nelas e por elas.

Creio que da mesma forma se alimenta permanente e vorazmente a ideia dum Deus possessivo, vingativo e quase paranóico, na cultura ocidental, da mesma forma transparece uma imagem de que o poeta tem que andar com uma arma encostada às têmporas, a tempo inteiro; penso que em matéria de utilização das definições dos próprios sentimentos, o ser humano ainda é muito imberbe e talvez por uma questão de utilidade, interesse … mas aproveita a quem pensar que o poeta não tem sentido de humor, por exemplo? Aproveita a quem, que no quotidiano do poeta tudo “tem que ter uma explicação”, um significado, um pormenor que o diferencia dos comuns mortais; mais que melancolia, atribui-se uma mórbida qualidade ao poeta… o suicídio! Mas talvez que se coloque a questão duma forma errónea… a taxa de suicídio entre as forças policiais, diz-se, é muito superior à dos poetas e alguém se interroga sobre facto? E em comum apenas existe uma certa obsessão pela “ordem”, pela impossibilidade, pela constatação das próprias fraquezas diante dum mundo em permanente desordem, em ténue equilíbrio entre as suas forças. Existem poetas, artistas que “aguentam” essa pressão, outros não. Mas a desgraça não é dístico exclusivo para o artista… infelizmente, essa condição última expressa-se mais abundantemente onde menos se espera.

Nesse sentido o poeta, o indivíduo que procura em si uma superação pela palavra, e nesse espelho o acto e realização da “arte pela arte”, pode parecer estranho: mas ao escritor será sempre aposto o distintivo de outsider e deve ter a consciência da sua condição. A ordem do mundo não vai mudar só porque um individuo assim o deseja… e aí, o poeta parte em desvantagem: é um ingénuo, é um tolo de alma e coração, e como tal, de fácil predação! O artista, confunde muitas vezes, como um tipo sedento no deserto, a ordem do mundo e os movimentos imperceptíveis que este entende tomar… muitas vezes, o artista complica e complica-se nessa versão do mundo: ao invés de o contemplar, interiorizar para o reflectir, prefere tomar o próprio nas suas costas, como um peso com o qual só se perde tempo e energias, não entendendo a abstracta e fatal estratégia da teia da aranha. O poeta, umas vezes consegue a superação, outras não… o mais das vezes revela-se no papel de vítima de incompreensão, como ser mais vulnerável às coisas do sentido, e como tal, sucumbe mais facilmente: não serve de consolo, mas depois de dois milénios e qualquer coisa, alguém de bom juízo pode afirmar que a Jesus, já tenha sido alguma vez “compreendido”? E quando invoco Jesus, invoco qualquer centelha de divindade… se o entendimento não é imediato, a mensagem perde o relevo! Não é o mundo que desejava ter herdado, nem muito menos o que deixará por herança… mas convenhamos que o poeta, como artista que trabalha e vive noutro terreno, pode constantemente sugerir o mundo, mas não criá-lo ou recriá-lo!

Por outro lado, não serve de álibi, mas ajuda a compreender um pouco o facto da maioria dos poetas e outros artistas que mais iluminaram a cultura portuguesa, tenham conhecido a desgraça em vida e por consequência, as fatais mortes dos mesmos não tenham sido mais que isso mesmo: uma fatalidade! Portugal, mais que merecendo ou não os seus artistas, é um país lixado para o acto criativo. Portugal é acima de qualquer dúvida um país autofágico, e na grandeza, é-o o mais das vezes por acidente: partilho da opinião que Jorge de Sena tinha de que “o facto de Portugal ter produzido um Fernando Pessoa é um feliz acaso europeu que não implica nem garante, de forma alguma, uma literatura portuguesa no século XX”. É difícil encontrar resquícios daquilo que poderíamos chamar de identidade cultural portuguesa e como tal o mundo da arte ressente-se: a arte é quase sempre entendida como algo superficial, sem utilidade imediata e como tal dispensável. Não que entenda nesse complexo um sentido prático dum povo ou cultura, mas antes uma predisposição para eliminar de imediato o que não é compreensível. Portugal, mais que pequeno, é um país que sobrevive da mesquinhez e da inveja, mesmo entre elites… não vive, nem deixa viver! Agora, se merece ou não os seus poetas, é uma questão tão prática como paradoxal… um dos maiores poetas vivos da actualidade, que saiba, nunca foi um nome sugerido sequer, para um prémio maior, quanto mais para o Nobel. Falo de António Ramos Rosa…e lá está: não é um acrobata, ou malabarista ou algo que o valha, paciência! Fica com as homenagens da praxe quando se finar, que é por assim dizer o patamar mais elevado para os nossos artistas! Mas este é apenas um exemplo entre muitos que poderia ser salientado… e daí a apetência, penso, de novos valores, pese o valor da expressão, de partilhar experiências, a um primeiro tempo, por meio digital e só depois partir para outros desafios, ainda que os meios tradicionais já não pressuponham os mesmos prestigio e desafio de outrora e como tal, são pouco estimulantes e redutores. Ninguém, gostaria de pensar, convive bem com a ideia de ser co-autor do crime que é o “mais um livro na estante, que nunca vai ser aberto”. E aí, falo da edição de autor ou da edição em pequenas editoras que esfolam o autor até ao último cêntimo, a troco dum momento muito curto, curtíssimo, de glória.


Qual é o circo que cerca o escritor? E quanto isso lhe cerceia as Letras?

Por enquanto nada, porque não tenho compromissos com o mundo da edição… o meu único veiculo é o mundo digital, a Internet e sinto-me muito bem! Ainda não consegui, depois destes anos todos, encaixar a ideia que um poeta, um escritor só se realiza quando tem um livro editado, é que “acontece”… É muito redutora essa concepção. Não descuido que tarde ou cedo, e espero ter para tal o devido discernimento, o mundo da edição em livro será uma realidade: oxalá! Mas por ora, como escritor em construção, se assim me posso exprimir, sou mais um bicho de mato, um rude escritor desajustado com as “obrigações” a que se deve um escritor. Exemplifico: no JL, um jornal de referência no mundo cultural português desde há muito, constava na última edição, acerca dum encontro de Slam Poetry, que “ ideia é alimentar a construção dum texto colectivo, nascido da colaboração de todos os presentes. Em ambiente descontraído, com comes e bebes à mistura, procura-se dar à luz um novo trabalho escrito, seja ele em prosa ou em verso, que não pertença a um, mas sim a todos”… e até aqui nada de mal se não fosse a omnipresença do “comes e bebes”: Portugal acontece onde há “comes e bebes”… doutra forma, nada feito! E sublinho o trabalho do jornalista que não mostra sequer nenhum pudor em destacar o essencial: “comes e bebes à mistura”! Lança um livro, e o poeta tem que oferecer “uns comes e bebes”; comemora-se uma data e tem que haver “comes e bebes”… até nos funerais, lá estão eles, os omnipresentes “comes e bebes”. E penso que haveria muito a ganhar se nos inclinássemos mais para o essencial, que tornar um evento num limitadíssimo e pouco substancial serviço de restauração… é bom, mas não é tudo! E no meio, o escritor faz as vezes de cobaia que distribui autógrafos e beijinhos em avulso… é um papel pouco dignificante e um pouco de dignidade é como aquela roupa que não passa de moda: fica sempre bem em qualquer circunstância.

O escritor não é mercadoria, como podem muitos editores pretender… e cada um procura tirar os maiores proveitos possíveis por conta do escritor, a quem compete escrever… escrever! O poeta deve escrever e o vendedor de livros vender… e digo-o com alguma propriedade porque já vendi livros porta-a-porta e tenho imenso respeito por essa e todas as profissões e ocupações (bom, há uma ou outra, que admito que o mundo passaria muito bem sem ela!). O “circo” da edição é deprimente o mais das vezes… e na minha pobre opinião, o escritor raramente deveria comportar-se como um futebolista ou como actor de cinema: todos desconfiamos dos produtos em promoção no supermercado, não é verdade? Um escritor em “saldos”, a implorar um prémio aqui ou ali, o escritor com uma estratégia de marketing é quase sempre um espectáculo deprimente… é com agrado que qualquer escritor gostaria de chegar ao milhão de exemplares, mas pergunto-me: qual o preço? Com que embrulho? Quantas polémicas terá que inventar? Chega ao milhão por mérito ou por uma campanha publicitária bem montada por uma multinacional? Acima de tudo, há que fazer opções e não penso que o mundo da edição seja linear… mas a questão do preço a pagar é sempre pertinente.

Não quero dizer que abomine todos os “aparatos” do mundo, mas se assim for, então não sou nem tenho a ambição de transportar o “rótulo” de escritor e já é tarde para o futebol: escrevo por prazer… e quando o fizer por dever, tenha este caro discernimento para se retirar de imediato! Já transporto culpas suficientes para ter suportar as do tempo bem como a do dever “da imagem”!


Você é um hábil retratista de pessoas e cotidianos, não importa que apresentados com tons quase-surrealistas ou oniróides. É a familiaridade com a dor que te faz atento às nano-percepções que os ambientes [humano-pessoal e sócio-geográfico] te oferecem? Talvez um retraimento que lhe acompanhou o desenvolvimento? Como você enxerga a timidez quase arredia dos Simbolistas portugueses [dos quias te vejo herdeiro, em linha de descendência oblíqua]: António Nobre, Camilo Pessanha. O que se passa na cabeça daquele que escreve contando nunca ser lido, senão por alguns amigos. Pessanha mal guardava seus poemas com o devido zelo...

Todos são casos particulares e o mais das vezes de dificil percepção pelo mundo exterior ao da própria escrita. Não me sinto acorrentado num estilo particular, mas se o tivesse que fazer, tal como Pessoa e não vejo aí mal, o de invocar um poeta maior, negaria o simbolismo na minha poesia e se acontece será sempre de forma acidental, o que não me traumatiza, nem envergonha. Mas, o meu caminho na poesia, procura mais o contorno, o reflexo, o jogo de sombra e luz, o estranho jogo da liberdade poética e da luz ténue do jogo entre fantasia e realidade.

E acontece que por muito elogiosas que me sejam feitas determinadas comparações ou heranças, não as posso tomar com propriedade e por inteiro, por não me sentir merecedor de uma tal “chama” que me é estranha, seja por desconhecimento, por agnose deste ou daqueloutro autor que me possa ser atribuída determinado momento estético. Prefiro sustentar a hipótese do “acidente temporal”, porque pelo lado da minha pobre formação académica, grande parte do percurso natural do leitor, foi-me vedado; voluntariamente ou por imposição de prioridades, note-se.

Durante muito tempo, e se bem que escreva desde muito cedo na maturidade, não tomei a sério a possibilidade de divulgar por meio algum, a minha escrita. Por vezes, creio que por preconceito, por vezes insatisfação, licita ou não: acredito que Sena, e mais uma vez, não anda longe de realçar a autenticidade dum conjunto importante de factores, um estado determinante quando afirma que “por um complexo mórbido de modéstia (… em que longe de amadurecer, o poeta se refugia no espanto doloroso de ser uma pessoa como as outras que faz, todavia, coisas que outras pessoas não fazem – e isto sucederá tanto mais quanto limitado for o mundo espiritual do poeta e mais elevado o grau da sua refinada sensibilidade), então o poeta, se raramente se encontra com a poesia, mais raramente se encontrar+a com ela. (…) Aqueles, porém, que ultrapassam tais dificuldades (e o carinho dum circulo de amigos, o reconhecimento das elites, um status social seguro em que a actividade poética não seja uma doença vergonhosa, contribuem, muitas vezes decisivamente para que a maturidade autêntica sobrevenha) transformam o seu próprio mundo interior e verbal numa experiência que aprenderam a impor às suas intuições poéticas.”… E daí, que pense frequentemente na irrelevância que tiveram as “correntes” no meu percurso, porque não existiram… de todo. Muito mais moldado pela circunstância que pelo tempo, a existir “algo” na minha escrita será um acidente: dentro do meio que me envolveu praticamente toda a vida de escrita, esta andou pelas tempestades que Sen a salienta, a propósito das condicionantes da prática da escrita. Esta esmoreceu durante uma boa parte do meu percurso e ainda estaria, por certo, arredada se não fosse o mundo digital, um meio agradável para quem está afastado dos “circuitos” e de uma forma ou de outra, não expõe essa “doença vergonhosa” da escrita, por um mínimo de pudor ou por motivos de “sobrevivência”, um importante veiculo a quem se pensa já como “um caso perdido”.•

Daí, que por conta própria e “sábia ignorância”, debaixo duma condição de “suficiente grau pureza” pelo lado da insipiência, esta parte do percurso literário me seja muito favorável: por muitas que sejam as comparações ou heranças a alegar, não me sinto vinculado a uma “corrente” ou estilo. A palavra acontece, por foi acontecendo e não se perdeu.


No teu caso: as gavetas estão abarrotadas de coisas-poemas por rever? Você gosta de rever-se?

Não, de todo. É-me desagradável mesmo a revisão de textos antigos. A minha escrita, se se pudesse reduzir a uma imagem, seria a de um comboio que adquirindo um determinado ritmo, uma determinada velocidade, que não lhe agrada voltar atrás, à última estação por se ter esquecido dum passageiro atrasado… não por falta de respeito ao passageiro, mas por necessidade de prosseguir, ainda que desconheça em absoluto a estação última, o destino…

A revisão dum texto hoje, já não me é tão dolorosa quanto o era, mas a minha insatisfação continua por cá… incómoda, mas continua. Não tanto a de textos poéticos, mas mais a de textos mais densos… e se for o caso de haver curiosidade, diria que não é saudável ter um manuscrito de um romance, terminado há mais de dois anos, por rever… ainda que seja também obra heterónima, mas não de Leonardo B., lá está, em dois arquivadores, à espera sabe Deus de quê: talvez que me passe a preguiça! - O mesmo acontece com toda a obra poética que vai de 1983 a 1996 e que acondicionei num blog que está encerrado, por ora, a aguardar a compilação dos momentos que penso mais relevantes e que foi, por assim dizer, a minha porta de entrada no mundo dos blogs: não sabia o que fazer às gavetas e arquivadores que se espalhavam, sem qualquer ordem, e decidi que à medida que ia destruindo o papel, o texto “saltava” para a Última Estação de Ricardo S., o nome do blog… e acrescento a isto um Conto Infantil, que só duas ou três pessoas conhecem, e aguarda um caminho também… talvez um destes dias!

Não há muito para contemplar, naquilo que escrevo: aprecio muito, andar, ir sempre em frente… aliás aborrece-me sobremaneira rever um texto, ainda que a leitura de outrem seja um autêntico prazer… mas o mundo gira e amanhã ou um destes dias, talvez que seja tudo diferente!


Arte para você é "Cerimônia", no sentido Ritual-Litúrgico do termo? Diga-me as ambiências que propiciam maior altitude a Leonardo B., por sobre este nosso chão tão raso.

Não há segredos ou fórmulas mágicas, mas no meu caso, ajuda-me muito uma compreensão da minha intuição, das necessidades do lado mais orgânico, o reconhecimento do momento: é um processo longo, mas não muito árduo. O amadurecimento, se posso alegar semelhante estado, trouxe-me algo positivo para o acontecimento da escrita… importam-me mais os momentos, os apelos da palavra, a urgência, que um “modus operandi”! Com o tempo, esses tiques passam. Tal como o Za Zen, a poesia acontece em qualquer parte, porque tem que acontecer: se o ambiente for sereno, tanto melhor… mas não necessito de conventos para a escrita! Já me basta o peso dos ossos e da restante massa do corpo!

Não tenho uma forma específica de trabalhar e penso que não vou ter nunca: pode parecer ridículo, mas o romance que falei atrás, o único completo que está por rever, “aconteceu” duma forma muito particular e diria até dolorosa… para que não me incomodassem a tempo inteiro, que “estava” muito tempo atrás dum monitor e coisas do género, eu e a minha esposa engendrámos um esquema que se não foi perfeito, foi pelo menos engenhoso… passei quatro meses “doente”, ou para lá caminhava: Durante esse tempo, não tive horários, mas por norma escrevia das nove da manhã até às três, quatro, cinco da manhã seguinte, sentado na cama, sem escrivaninha, rodeado duma montanha de livros e papéis espalhados por todo o lado. Foi muito enriquecedora, a experiência, mas não creio que a volte a tomar… escrever em demasia, faz mal às costas!


Há cantores-poetas extremamente arredios e/ ou que mascaram a timidez, eventualmente, até a absoluta excentricidade. Ou olham pra baixo, ou mastigam as palavras, ou berram como se quisessem fugir. Penso em Tom Waits e em Bob Dylan, em meio a dezenas de exemplos [Michael Jackson se enquadraria neste grupo, sendo "a máscara no rosto e a transformação de si para fugir de si, tentando nem ser mais este híbrido", só o efeito colateral complicador no seu caso; em seus clips, veem-se até metamorfoses animais!]. O que vc acha desses poetas da música? Podemos ficar só em Tom Waits e em Bob Dylan, já que os exemplos são inúmeros.

Talvez mais paradigmático seja o caso de Leonard Cohen, quanto mais não fosse pelo facto de ter escolhido como seu Nome-Dharma, Jikan, enquanto permaneceu no Mount Baldy Zen Center como monge, sendo que Jikan, parece-me, significa “o que se dedica ao silêncio”.

A insatisfação conhecida de Cohen em relação ao seu trabalho, a sua permanente luta interior, aproxima bastante o poeta desse mundo em que mais que essências ou conteúdos, são mais importantes os reflexos que se apresentam como uma possibilidade de despersonalização, ao mesmo tempo que prossegue um caminho aparentemente seguro, aparentemente desconhecido, mas que em todo o caso se reflecte e origina obras de arte que se superam, muito para lá da concepção original. A história da música está pontuada aqui e ali com este tipo de compositores que se superam, muito para lá do imaginado por si próprios: no entanto, creio que todos eles têm um ponto em comum: a extraordinária capacidade para a insatisfação, a desilusão perante as “exigências” irrelevantes à própria obra… como se a busca estivesse muito para além das aparências…


A morte é a cura da vida, ou há uma cura anterior a esta "assim-chamada-última"?

Há uma tentação enorme, por parte do escritor, de explicar a morte fenómeno, a morte na sua dupla referência, ou contraponto, o inverso da vida, mas eu prefiro a abordagem das cinzas, do retorno do corpo ao seu estado integral na natureza… ou não fosse um principio de vida, uma matriz para a vida: “das cinzas às cinzas”!

O poeta serve-se das alegorias da morte, do obitus, com excessiva leveza, com uma obsessão quase doentia ao modo de Brueghel no Triunfo da Morte, mas o que se explica quando não há nada a explicar, senão aceitar… ou melhor, tomar o reflexo e daí tentar uma compreensão unívoca, mas uma percepção diversa, assim como a temos para as coisas da vida: por vivermos, por nos sentirmos imbuídos de vida, saberemos explicar melhor a dita? Então o que fazer da concepção da morte, quando não a conseguimos abordar senão no interior da imaginação. A mors não é fim, mas antes uma passagem de tempo, um acidente no lapso de tempo, um passamento, ou assim o quero acreditar… já o obitus, carecendo de certidão, acontece porque assim o decidimos.


Você lê autores místicos? Ouve músicas sacras? O fado ainda é uma liturgia da memória e pesares salmodiados em Portugal, ou este debruçar-se sobre as ausências [pelo menos de forma tão assumida...] já está fora de uso? A Argentina ainda precisa do Tango [a saudade passionalizada, mais irritadiça que melancólica], e nós do Samba [a melancolia transfigurada em "pisos e levezas", ou catapultada ao rir para seguir em frente; os "pagodes românticos" ainda suspiram pelo leito ou beijos da amada...]. Portugal ainda precisa do Fado?

Portugal precisa do Fado porque não tem muito mais aonde se agarrar. É um pouco como o futebol: vai vendendo, mesmo que seja gato por lebre. Não sou especialista, nem gosto muito de opinar sobre a questão do Fado, enquanto tal, mas a ideia que passa para o exterior, da curiosidade étnica ou estética, acerca do género musical é muito díspar… encontramos de tudo: puristas que negam o novo fado ou os novos fadistas, o que vai dar no mesmo, optimistas natos que sobrevalorizam a qualidade de qualquer objecto que se mova e brilhe, e ainda os expectantes que não gostam de ver convertidos “valores” em modas: a morte é súbita, quando se chega a esse estatuto. As modas são efémeras em demasia e pelo caminho levam excelentes intérpretes que se deixaram deslumbrar pela facilidade “do êxito”… e como é difícil o ponto de equilíbrio! Agora, e se Arquimedes já sabia desta história toda? Claro que sabia!

Quanto aos meus gostos, ou audições, já o meu ecletismo me atraiçoa, o mais das vezes… mas gosto que assim o seja: não aprecio os seres monótonos que se agarram a um estilo de música, a um estilo de escrita, a um estilo de arte… é muito limitado, o ser e estar linear, muito certinho que senão cai! Mas o facto de não apreciar a monotonia, não quer dizer que não a respeite… muito antes pelo contrário: ainda que seja parvoíce fingir que não sabemos que o eclético desdenha o ser monótono e vice-versa; ou melhor, desdenhamos todo aquele que difere de nós, nem que seja por uma questão de princípios.

Mas, da música sacra ou autores místicos? Recebo-os na minha casa interior com um prazer inexprimível… hajam oportunidades: ainda que faça sempre a advertência de que a minha inexperiência, ou ouvido “desafinado” possa não corresponder ao resultado esperado… mas tenta-se sempre de novo!


Quais as liberdades que o uso de um heterônimo confere? É algo facilitador ou "híbrido-problematizador"? Por que Pessoa precisou de quatro? Aqui entre nós, Mário de Andrade se sabia mais de trezentos, e não se despudorava em usar sempre o mesmo-outro Mário de Andrade. Isso é fruto da timidez, ou possibilita a "evocação" de avatares ocultos? Seria algo como um "rito de conjuração"?

Não é uma questão fácil de abordar, mas também não é difícil… a questão dos heterónimos, que utilizo, por um determinado principio surgem do nada e vão maturando e passam um crivo invisível, uma espécie de processo inverso de desambiguação. Não se trata de capricho ou pretensiosismo, mas antes e apenas uma opção, como a de quem arruma os livros numa estante: uns ordenam, outros não, outros ainda não querem estantes e maioria nem sabe como os arrumar… nesse sentido, há uma ordem possível: tentativa e erro!

Ao contrário do que se possa pensar, o heterónimo permite uma liberdade de movimentos que por vezes não se alcança com um nome próprio… é apenas uma questão de escolha, um nome: Leonardo B. não é excepção. O que me permite, acima de tudo, é uma movimentação sem grandes pressões, sobretudo no meio que me rodeia, o que pode parecer ambicioso, e é de facto: disfarçar as grandezas e as misérias dum poeta, numa aldeia pequena como a minha não é fácil, pois que ninguém, ou poucos, sabem quem é Leonardo B.! Pois que qualquer das formas, se olhassem com mais atenção ficariam exactamente no mesmo ponto: ninguém, ou poucos, sabem quem sou, e no entanto falam comigo, condenam-me as horas que passo atrás dum computador, pretendem “adivinhar” o que motiva a minha ausência… ou seja, talvez não seja mais que um jogo, um espelho onde me escondo e tento comprovar com a ciência que me é permitida, resolver o enigma maior do ser humano: o que está por detrás da aparência?

No meu caso, não há muito a esconder, não há rito, não há matéria para vasculhar. Um nome, como tudo na vida, é acidente… a forma como o abordamos é que esconde muitas propostas: a minha, como se fosse uma divisa, é precisamente Disce Ultra Aparentium Videre, aprende a ver para além das aparências, condição maior para a poesia…

Se o consigo ou não? Isso já é outra história…


Obrigado, Leonardo.


[entrevista editada no Bloco de Notas, de Marcelo Novaes, 2 de Julho, 2010 - imagem de Leonardo B.]



2. Adriana Bandeira, Maio 2011

Adriana Bandeira - Leonardo...é comum lermos um poema, um texto, uma frase e, de certa forma imaginarmos o autor como aquele que sempre soube o que ia dizer. Neste aspecto é imaginário indigesto consumirmos a palavra como já pronta, plantada no seu autor, desde antes. Poderia nos falar um pouco de teu processo dentro disto? Porque escolheste escrever?

Leonardo B. - Seria dramático se assim fosse, Adriana, a “palavra pré-confeccionada”, o objecto de arte já impresso, pré-fabricado em cada um de nós, como uma fatalidade, um destino ao qual não nos podemos furtar, pelo menos àqueles que ainda gostam de encontrar o mesmo rosto todos os dias ao espelho, pela manhã, com mais ruga, menos ruga. Prefiro pensar, refazer diariamente a minha relação com a palavra, e pretende-la como uma união de facto, como um “casamento secreto”, em que cada um sabe das suas obrigações e deveres, dentro de portas, mas entre si e diante do mundo, entrega-se incondicionalmente, sem fronteiras ou regras bem delimitadas, e naturalmente, sem julgamentos desnecessários, nem ambições frustradas por antecipação… eu e a palavra, damo-nos bem, mantemos a relação saudável e sem máscaras, sem contrato assinado no cartório, sem a necessidade de manter a “fachada”, o cadastro limpo e imaculado, ainda que de quando em vez haja lugar para uns pequenos delitos, umas pequenas traições, nada de mais… Por outro lado, seria indigesto, e pego na tua expressão, se a palavra já estivesse “cá dentro”, devassando o meu espaço, como dona e senhora da minha vontade e vice-versa; a palavra tem mais que fazer, para obedecer a um estereótipo, que ainda que seja muito confortável, não funciona, é redutor; em determinados momentos, abrem-se excepções na nossa relação, mas sempre com o cuidado dos amantes… deixo-a ir e voltar, quando deseja e bem entende, e penso que me exige, mais ou menos o mesmo, por muito que nos custem algumas separações forçadas…

Porque escolheste escrever?

Ora aí está “a pergunta”: Adriana, terão as coisas mais simples uma resposta convincente, imaculadamente decente? Porque é que as nossas paixões são comparáveis, por baixo, aos tornados que arrasam tudo à passagem, montanhas e monumentos milenares, incluídos? Porquê, ao idiota que se aventura no mar para ir descobrir um mundo qualquer, que nem nos mapas existe, disposto aos caprichos das tempestades, e nem sabendo muito bem o que vai fazer às Índias, às Américas ou ao Japão? Porquê ao homem que insiste em pisar o solo lunar, sem que faça a menor ideia que aqui no quintal ainda existem milhões de perguntas por responder e questionar, uma família que o reclama para o jantar que arrefece, mas não... o tipo teima ir mais além, na escuridão da sua ignorância, sem se aperceber que nem há uma questão a responder… nada de nada. Não faço a menor ideia porque escrevo, nem sei bem onde arranjei este “contrato” com a escrita. Sei que foi há muito tempo, já tivemos bons e maus momentos, e nem sei se foi a escrita que me escolheu ou contrário… nem faz diferença. O mesmo já me aconteceu com as tintas, com a pintura, um caso furtivo, diria, em que “as coisas não funcionaram” e tivemos a coragem de concordar mutuamente que cada um ia à sua vida, sem causar mais danos ao mundo… o que não quer dizer que não nos encontremos de novo, eu e a pintura e voltemos a ter um caso, não… acredito que está sempre tudo em aberto e com os anos fui aprendendo a entender que uma das expressões mais abjectas que utilizamos todos os dias é um “nunca mais”. Da mesma forma, que a minha relação com a escrita é desapegada, e como tal, senão mais frutífera, pelo menos mais sincera, com a pintura acontece o mesmo… talvez um dia nos encontremos por aí de novo, e nunca se sabe… Enquanto houver incondicionalidade e sinceridade à “flor da pele”, tudo fica em aberto e vai ficar, até porque é aí que tudo começa e acaba, na sinceridade ou na falta dela.

Não é raro que tua poesia inspire uma denúncia sobre a morte. Quando chego a isso costumo apontar a verdade pontuada a cada parada, no ritmo da escrita mesmo; costumo dizer que o poema nasceu em carne viva. Concordas comigo? O que achas desta analogia?

Não é fácil concordar ou discordar, porque é algo que nos escapa, enquanto pessoas simples que estão a dar forma a algo, na constante procura do resíduo, do que sobeja da vida, para o enformar e dar-lhe vida, animar. E aí há uma tentação enorme de nos comparamos a “criadores”, mas nada disso, essa perspectiva é muito presunçosa, ainda que haja quem a tome em forma de remédio, às colheradas, todos os dias, mas isso não é o que mais me importa… isso é água-benta que cada um toma a que quer. Na minha perspectiva, o escritor, o artista enquanto ser que vai embirrando com o mundo, inconformado, esgravata, quando muito, um pormenor, um acidente feliz no seu dia, uma palavra que alguém se esqueceu de semear e vai por aí, sem rumo, mas com a teimosia indispensável de quem se pensa poder “alterar” o inalterável… e por vezes os sintomas muito semelhantes ao “acto da vida”, ao acto dum parto: uma luta intensa num lapso de tempo, um resgate para a vida do que se sabe ser um combate desigual, medem-se as forças entre o que temos por vida e morte, a ansiedade extenuante do combate e no final… aí estamos: prostrados, exangues, como se se tratasse do nosso último momento, a última parte dum ritual, o fim, e afinal não, ainda “estamos vivos”, o poema está são e salvo, pela nossa parte. O que lhe acontecerá depois, já nos ultrapassa…

Tenho muitas vezes presente, e de forma bastante vivida, o dia em que assisti ao parto do meu primeiro filho e que inevitavelmente revolveu-me, mexeu na minha estrutura interior, na forma como se condensa a minha relação com o mundo… tudo naquele, nesse momento é tão frágil, tão breve, tão desigual e ao mesmo tempo tão claro, tão evidente, que só nos pode apequenar, a nós homens que “assistimos” a essa luta com a convicção que estamos dentro e com a mesma tenacidade, com a mesma audácia que a mulher que “entrega à vida o que lhe pertence”… mas não; estamos, ainda que de corpo e alma, e o pouco que nos compete é estar ali, a observar, a ajudar nas coisas práticas do parto… mas, da sala, enquanto homem num mundo estranho que é a maternidade, trouxe, para além das muitas emoções que não cabem na nossa conversa, nem as saberia materializar, o que soube reter, o que me foi permitido reter da grande metáfora da vida, do nascimento duma criança, filho meu, e que desfaço e refaço muitas vezes, enquanto escrevo, enquanto me entrego de novo ao mundo, enquanto ser frágil que fui e que sou, em constante dor, que não é nem de parto, nem de chegada… é outra coisa qualquer, uma outra forma de analogia e semelhança de vida, uma constante busca duma outra dimensão da vida; aí concordo, salvas as distâncias, que sinto o poema carne viva, ou melhor, um pequeno sopro que não sabe muito bem da sua dimensão, mas que existe e está lá, a ganhar nos lapsos do tempo, a força, a coragem, o despojo que nos falta no quotidiano, banal e comum. E é consolador, muito consolador, o sentimento de que algo que em nós morre, e que vai morrer necessariamente, poderá ressuscitar “no outro”, ganhar uma nova forma, uma outra dimensão, uma essência independente, algo que nos escapa, mas consola, apesar de tudo. Talvez que daí, o meu quase desapego ao poema, para me entregar incondicionalmente à palavra, e neste particular, à poesia… mas daí a “ser poeta”, vai uma grande distância.

A barca dos amantes...ali tem um título curioso que preciso saber: o que é “ A criança inacabada”?

Nada de enigmático, nada de mais… para o caso de ser relevante, Adriana, comecei a rascunhar aquilo que vulgarmente chamamos poemas, bastante cedo… talvez com treze, catorze anos, coisas pequenas, que hoje poderia facilmente negar, mas na altura deram um jeito terrível para manter uma “certa aura”, que em plena juventude, o maior e mais imediato proveito que trazem são umas quantas conquistas femininas e um “causar impressão” nos professores de Português e consequentemente, uma ou outra nota um pouco melhorada, e até aí, tudo bem… e o depois? O depois é o pior: quando chega o inevitável sentimento de que somos o novo Pessoa, ou algo que o valha, é que vem o Inferno.

Escrevi regularmente até aos meus vinte e cinco anos, mais coisa, menos coisa, até que, e mais uma vez de mútuo acordo, eu e a poesia separamo-nos durante um período suficiente, ainda que longo, mas proveitoso para ambos. A esse período anterior, esse meu primeiro contacto com a poesia, em que assinei como Ricardo S., fui guardando por anos e anos, aos tombos, nas gavetas improvisadas, o que sobrava do papel que não foi rasgado ou esquecido nas mudanças de casa. Do que consegui reunir desse período, nasceu o blog A Última Estação, que está provisoriamente encerrado, por diversos motivos: ainda salvei cerca de trezentos textos, que ainda espero compilar decentemente, retirar do formato digital o melhor possível, e reunir uns quantos de forma a encerrar em definitivo esse capítulo: a haver livro, chamar-se-á “A Criança Inacabada”, o que já esteve muito perto da edição, mas não considerei oportuna, e nos moldes que me foi sugerida, não seria proveitosa para ninguém… então, lá estão, ainda por se verterem em tinta no papel, quando assim o entender por melhor momento. Pelo menos desapareceram as pastas arquivadoras e os originais, que fiz questão de destruir à medida que ia colocando cada texto no Última Estação… menos bagagem por transportar!

Ao ler teus poemas algo rasura, marca que eles apenas são um resto. Explico: é como se apenas uma parte ali estivesse. Assim também parecem ser tuas frases quando comentas no Indecentes Palavras. Seria um poema, sempre, inacabado?

Pode parecer uma analogia ridícula, mas vejo-me e não raramente, como uma espécie de médico legista, de palavras e sentimentos, de resíduos emocionais, de detritos pouco interessantes, e não raras vezes levo-os para dentro da escrita, autopsio-os com a minúcia possível, mas perco-me muitas vezes no detalhe insólito e desinteressante, com o que está por dentro… não tenho urgência do diagnóstico e isso faz de mim um péssimo sobrevivente, no mundo. Ainda assim, tenho muitas vezes presente os versos de Poe, “all that we see or seem, is but a dream within a dream”, que para o bem ou para o mal, trago-os para a minha percepção que tenho da palavra, da palavra que sobra da palavra e se refaz numa outra… numa incompletude, numa imperfeição da percepção da palavra, que pode ser constantemente alterada, de todas as vezes que ainda não a sentimos esgotada, aprisionada nos dicionários, e assim “ela” o permita.
O poema, como território de exploração emocional, existe enquanto persistir essa noção de efémero, de frágil, de incompleto dentro de si… e raramente, senão nunca, como objecto final, obra finalizada, matéria de facto para ser estudada: a ser assim, vejo-o como mau sinal… já nos fizeram o funeral há muito tempo e as medalhinhas comemorativas já foram distribuídas com profusão. É essa a sina da poesia, que haveremos de fazer?... (risos)

O que são, como lugares subjetivos, os espaços de escrita e de leitura? O sujeito que lê seria o mesmo que escreve?

Frequentemente coincidem, assim creio, Adriana, ainda que haja um fosso a separar ambos, um fosso enorme que podemos apelidar de “exposição”, o suporte papel, por norma, a ponte inevitável entre um e outro, entre ambas as margens.

A dificuldade de comunicar, de esvaziar esse espaço subjectivo, tem sido atenuada com a descoberta, com “democratização” da escrita e da leitura nos meios digitais, o que naturalmente é visto como um perigo, um alarmante caos nos pretensos meios eruditos, mas isso não é questão onde me detenha por muito tempo, até porque as regras do jogo mudaram e vão continuar a mudar a um ritmo vertiginoso… preocupa-me mais a questão do “até quando?”. E o mais é óbvio, “desse lugar”: onde se ganha espaço de relação entre escritor/leitor, no mais das vezes perde-se o poder, o que de mágico tem própria escrita, o do seu amadurecimento enquanto relação no espaço e no tempo do indivíduo, o poder de crescimento no horizonte do individuo… e nos meios digitais, tudo é tão breve e fugaz: “coleccionam-se” amigos, pretensos admiradores, luta-se arduamente pelo número de comentários em cada post, com ligeireza “aceitamos compromissos”, não se criam “tempos” para ponderar o essencial nessa relação, tão frágil que são os espaços partilhados da escrita, entre quem lê e quem escreve… mas no fundo da questão, é tudo uma questão de reciclagem: o mesmo passa-se no meio quotidiano da edição, e da “promoção” da imagem do escritor e mais raramente do livro, e no mais das vezes de modo bem mais deprimente… a diferença está na remuneração ou na falta dela, na exposição mediática que tanto se odeia da mesma forma que se procura com uma devoção quase irracional… e ele há tantas formas de se querer fazer passar por vitima dos paparazzi… (risos)

Li uma entrevista que deste há algum tempo atrás. Ali descreves o momento em que passaste dias escrevendo...e que acabaste por herdar uma grande dor nas costas(eheheehheheh). Pois bem...ser tomado pela letra, ser invadido pelo desejo de marcar, de registrar...escrever. Como descreves isso?

O Fernando Pessoa chamaria êxtase místico, eu prefiro chamar “necessidade a quanto obrigas.”(risos)

O texto que então escrevi, ainda está intacto, sem revisão, com setecentas páginas por acontecerem livro, talvez um dia, ou talvez não… é, penso eu, um rascunho de romance histórico que “tinha que acontecer”, naquele momento, naquele período. A grande herança que trouxe, de então, dos quatros meses de reclusão voluntária, essa grande dor de costas, é algo que ainda a esta distância dói, não nas costas, na região lombar propriamente dita, mas no acto de então “ter tido que me esconder” para escrever, a coberto de alguns cúmplices, o que é tão abjecto e quase surreal, que entendo que devo assumir… triste, mas verdadeiro. Num meio onde o individuo que pretende escrever é visto como um parasita e com a agravante de que se não há rendimentos palpáveis, então a “doença é grave”, está feita uma parte do quadro: “escondi-me”, “adoeci subitamente”, refugiei-me dos olhares penetrantes de quem encara “estas coisas da escrita” como uma perda de tempo, própria para vadios . E se calhar até têm razão, os meus queridos detentores de todas as verdades, até porque o mundo é pequeno demais para que eu o consiga entender e quando se chega à parte onde se encontra o umbigo, o do outro, nunca o nosso, é uma complicação… e então, houve a necessidade, a “urgência da escrita”, para finalizar o mais rapidamente possível o que tinha entre mãos. Claro que preferia ter redigido noutras condições, com outra disponibilidade e envolvimento com o pequeno mundo que me rodeia, mas não se pode ter tudo… tive um apoio inesgotável por parte do meu filho e da minha esposa, que abdicaram de mim durante demasiado tempo e me ajudaram incondicionalmente no processo, os únicos a quem devo um gratidão eterna e inominável pela compreensão que me dedicaram, e foi o que sobrou… o resto, seria “dourar a pílula”, que talvez por tão amarga, ainda não a tenha conseguido retomar original do texto para o rever e dar um rumo … mas tudo, tem um tempo e cada um deles não mais curto que o outro, mas antes do mesmo espaço, da mesma dimensão.

Um psicanalista francês, Jacques Lacan, diz que o estilo é o homem. Também aponta que “ o estilo é aquele a quem me dirijo” ou seja, sempre minha fala, meu registro diz respeito a um endereçamento. Sem endereço...não teremos fala, escritura, gesto, texto. O que pensas disto?

Antes de mais e com o devido respeito, o tipo tem um sentido de humor que invejo, por certo… e ainda bem que assim é: são poucas as pessoas mais deprimentes que as pessoas ligadas à “área do ser humano” e artes, que as que se isentam do sentido de humor… são um estorvo bem intencionado, mas não deixam de ser um estorvo.

E efectivamente, mesmo não conhecendo Lacan (mea culpa, mas não chegamos a todo lado), conheço-me um pouco mais que nada e algo do mundo que me rodeia para tirar partido dessa reflexão, tão acutilante: parto, sim, parto do principio que o individuo é barro moldado pelo ambiente que lhe rodeia, quer o oprima enquanto ser humano, quer o liberte pela comunhão de interesses, objectivos, afectos… e no entanto, por muito que se queira evitar a ideia perigosa de que o homem não têm fronteiras geográficas a delimitar, enquanto artista, a ideia subjacente, está lá: enquanto “poeta”, eu não sou de lado nenhum, de ninguém, mas isto enquanto poeta ou pintor… assim que “baixo à terra”, como ser humano não me consigo escapar a essa teia invisível que é a circunstância, o território emocional a que estou circunscrito… e se por questão de comodidade, se por uma questão de conveniência, se por uma questão de sobrevivência, o endereço, o laço que nos entende e solta é o mesmo que nos prende, e habituamo-nos facilmente a essa “ordem das coisas”, tão contestada quanto imutável no tempo.

Encontramos essa evidência em qualquer parte, bem delimitada… até na poesia, Adriana... até com o Sá Carneiro, quando pensava, escrevia e deixou ao mundo que “Eu não sou eu nem sou outro/ sou qualquer coisa de intermédio”, que passe a heresia aos puristas, tem tantas leituras quantas um grande verso pode ter. Não sei quantas polaridades tem o artista, mas apostaria que ultrapassam as duas possíveis; ao artista que se diz livre, pleno de voo, pleno e sem amarras, é já “outra coisa”, mas não a mão humana; Ao artista que procura no mais além, no outro, no outro lugar o seu ponto de referência e orientação, é já “outra coisa”, também, mas não ele próprio… então, o ser ambíguo pode nem ser uma fatalidade, mas pelo menos dá uma grande ajuda, e isso nem é motivo de preocupação, até porque não falamos de outra coisa desde que o homem aprendeu a comunicar… o nosso lugar no mundo é uma fixação, um interrogação a full-time que se digere muito bem, até porque a resposta anda por aí, mas ninguém a viu, não há tempo… temos mais que fazer. (risos)

Contudo, claro que preferia andar por aí no mundo a espalhar os versos de Jorge de Sena, “Nenhum mundo é meu. Todos estão em mim desde que existo.”, mas isto é poesia, é a esfera do possível enquanto poesia, mas tão somente poesia… o poeta tem uma tremenda habilitação para fazer revelações, mas tem pouca queda para revoluções na explicação do ser humano… bem que tenta a aproximação, mas é sempre terreno minado.
Quanto ao Lacan, vou colocar nas minhas leituras obrigatórias, disso não duvido… (risos)


A pontuação é sempre...do leitor. Digo isso porque embora existam os pontos (exclamação, interrogação, vírgulas e etc) de quem escreve, o sujeito que lê o faz naquilo que pode associar suas próprias pausas. A poesia facilita o reconhecimento do texto que vai ser outro sempre, a cada vez que lido vai depender da respiração do leitor. Tens esta percepção ou achas que quem fala é somente o escritor?

A pontuação, como qualquer outra convenção, reparte os seus méritos entre o capricho e a necessidade… a que sobra é a parte que nos faz falta. (risos)

Ainda no inicio, nos meus primeiros tempos na poesia, levei um “sermão” dum tipo mal-humorado, acerca da pontuação dum texto que tinha enviado para a redacção do DNJovem, que então era um suplemento dum jornal de grande distribuição, e que por mais voltas que eu desse, não encontrava justificação para tamanha reprimenda: ainda pensei em argumentar, ponto por ponto, que não, que tinha respeitado as regras todas da casa, ou então alegar em minha defesa que o José Saramago, muito antes do Nobel, também tinha uma relação difícil e incontornável com a pontuação, mas não… não enviei mais nenhum trabalho e com isso, nem eles, nem tão pouco eu, ficámos a perder grande coisa.

Na poesia, a pontuação é um luxo que não vemos assim tão abundantemente espalhada noutras áreas da escrita; creio que há um respeito muito grande pela fluência da palavra, pela sua dimensão enquanto um todo chamado verso, pelo intenso jogo de “tentativa e erro” e consequente correcção, que não vejo em muito géneros. Por vezes faz-se muita batota, mas essa só está ao alcance dos que andam há muito pelas ruas da cidade, da cidade da poesia… quem mora nos “subúrbios” tem que ter muito mais cuidado, andar com as contas da pontuação bem alinhadas e em dia, até porque a concorrência é feroz e não perde uma oportunidade para fechar a “casa do poeta” assim que lhe apanhe uma falta.

Quanto ao leitor? Ao leitor cabe sempre a última palavra, o último acento, mesmo que não faça o menor sentido, mesmo que o “rosto” do poema fique desfigurado, por falta duma figura de estilo que nem os prontuários se haviam lembrado, por uma falta de fôlego que por vezes se confunde mais com falta de ar, por uma virgula tão absurda quanto desnecessária… mas fazem parte do jogo, essas regras e não há como esquivar; pena é que a “cadeira” do leitor seja diferente da do escritor e não é em vão que a nossa percepção depende sempre muito do lugar que nos encontramos no mundo

Mas enquanto poeta ou escritor, ou algo que me valha, espero sempre um pouco de paciência, até porque o Prontuário Ortográfico não é um objecto assim tão divertido quanto isso… e se ainda viesse bem ilustrado e elucidativo como alguns livros que todos bem conhecemos, do género do Kama Sutra, ainda vá que não vá… (risos)

Poderias apontar tuas grandes referências para escrever?

Adriana… agora, sim… sou apanhado de surpresa, e tenho duas hipóteses: a primeira e a segunda! A primeira faz-me inclinar para “confessar” a minha admiração por Milosz, por Rimbaud ou Maiakóvski, por Pessoa ou por Whitman, por Malcolm Lowry ou Emily Dickinson, e a lista podia ir até ao céu. A segunda é que conhecendo um pouco de alguns excelentes poetas, bons escritores, extraordinários músicos e pintores, não me sinto especialmente inclinado para apontar um nome, uma “escola”, uma influência. Recolho, como penso que muitos de nós, com uma agradável sensação qualquer poesia que me faça sentir tolo, declama-la só por declamar, na minha privacidade, mas nenhuma referência forte, nenhuma herança em particular pretendo tomar dos que tenho por meus mestres: escuto-os, trago-os e sigo o meu caminho, aquele que procuro, aquele a que Emerson se referia como o Caminho em Si, nada mais…

Por outro lado, é quase inevitável a música, a omnipresente música… aquela com que escrevo, aquela com que leio, aquela que tem que estar sempre por perto, isso sim, confesso… e mesmo assim, não tenho uma referência, um género que me faça sentir perto da minha zona de conforto… apontar nomes é difícil, mas “estou em casa” quando escuto algo da Virgínia Astley, dos Durutti Column, do Jan Garbarek ou do Gismonti, sinto-me bem com a Björk quando não necessito de tanta concentração, trago da estante os poucos Chet Baker que tenho quando estou de bem com o mundo… e ficava dias inteiros aqui, a discorrer sobre cada um deles.

Mas se há dois ou três nomes que me colocam em sentido… é aí que pretendes chegar? Certo! Na poesia, o Ramos Rosa e o Al Berto, na literatura contemporânea o Murakami e o Rushdie e o grande livro da minha vida, não hesito, é “O que Diz Molero”, do Dinis Machado… e há mais alguns por perto, mas não digo….

O que te faz ...escrever?

Com as devidas distâncias e diferenças, acredito que é o mesmo que move o Cristão, o Muçulmano, o Judeu, o Hindu a recorrer às suas Igrejas, aos seus Credos; uns chamam-lhe Fé, outros podem-lhe chamar insondável magnetismo, mas basicamente, o que nos move e nos une são as semelhanças: as idênticas buscas, as idênticas dúvidas, a idênticas recompensas que em principio nunca virão ou não chegarão a tempo, mas confortam-nos, preenchem-nos, dão sentido a um caminho, apontam perspectivas, alinham horizontes… todos vagos, frágeis ou meras ilusões, mas movem-nos, fazem do nosso corpo inútil algo de válido para o mundo, ainda que de forma efémera, sempre efémera… e tudo isso raramente tem uma explicação racional, não é verdade?


Amante ... a palavra amante diz respeito a estar em busca do amor. Para além de ser objeto amado, o amante está ciente que sua busca é constante. Para quem lida com as palavras isso é mais do que uma verdade...é o ponto de partida. Não findam as faltas e nem as palavras. Pensaste nisso ao escolher o nome do blog?

Quando iniciei o blog, a Barca, não tinha a menor ideia do que poderia decorrer, nem me “assaltaram” os dilemas do nome a dar, essas coisas pequenas; Intuía apenas que queria regressar à escrita, ao texto poético, ainda que as bússolas não fossem muito claras no sentido a tomar. Então, em sinal de homenagem a uma canção que nem será necessária a explicação da importância que tem em mim, ficou e foi ficando como A Barca dos Amantes e até hoje ainda não tive problemas com o titulo que nem sei se está registado, e que a posteriori descobri que se tratava também dum romance de António Barreto, do qual não fazia a menor ideia… mas regressando ao titulo, o lado mais simbólico, ao escolher o nome do blog, esteve sempre relacionado com a própria definição de poesia, que encontrei sempre, desde o primeiro instante, nos versos da canção do Milton Nascimento e do Sérgio Godinho. Foi um pouco por intuição e sem pensar que o blog pudesse ser associado “a mais um blog de poemas de amor”… já aconteceu, mas paciência. O curioso é a própria Barca dos Amantes, não ter até hoje tido uma alusão que fosse à expressão, à palavra “amor”, um pequeno poema que fosse… e não é por preconceito ou defeito, mas deixo os poemas de amor a quem os sabe fazer, e rendo-me perante um “bom poema” de amor… mas esse não é o meu caminho: acredito que uns nasceram para cantar o amor, outros para vivê-lo, outros para o tornarem possível, outros para o arquitectarem, mas por agora, nem um poema de amor, até hoje… mas quando acontecer, haverá festa!

Contudo, essa busca constante, esse amor incondicional, esse lado mais vivido do que temos por amor, “cantar o amor”, é um terreno que pode estar minado pelo preconceito, por uma linguagem emocional muito defeituosa que por norma é a que nos cabe, pelo que não conseguimos trazer do melhor que temos, do espelho que vemos pela manhã; não é fácil fazer um “poema de amor” e se o fazemos, a interpretação que se lhe dá está muito próximo do “confrangedor” e cheia de futilidades, lugares comuns e outras barbaridades, e então… prefiro experimentar a minha incondicionalidade à palavra, ao mundo, escreve-la como “carta de amor”. Mas adianto, que a haver um primeiro livro, retirado da Barca dos Amantes, um enxerto sereno que possa vir, terá um nome completamente diferente, que já anda há muito cá dentro e já deixei sinais, meros sinais…

Ficaríamos honrados se nos contasses um pouco do teu dia a dia, do que te inspira a escrever, das coisas que gostas de fazer...

Não é uma pergunta fácil sobretudo quando estamos numa fase de transição, num desejo de passar a outra fase da vida, em que é imperativo tomar opções, marcar roturas, solidificar o que muitas das vezes nem nos apercebemos no quotidiano.

E ao contrário do que sentia Octávio Paz, que para ele “a poesia e o pensamento são um sistema de vaso comunicantes. A fonte de ambos é a minha vida: escrevo acerca do que vivi e vivo.”, a minha forma de estar no mundo e na vida, pouco ou nada se reflectem na poesia que escrevo, nas pequenas coisas da vida que me fascinam. A minha forma de estar na escrita, gostaria de argumentar, vive mais do “reflexo”, contemplação e desejo, que propriamente do quotidiano, que o mais das vezes é enfadonho e banal, e ainda mais para uma pessoa vulgar, como é o meu caso, fútil, o mais das vezes.

A grande parte da “experiência” que trago em mim, que ainda sobrevive no tempo, é o que resta do tempo em que vivi no Algarve, perto do mar, demasiado perto dum mar contemplativo e sereno, como é o Mediterrâneo, completamente diferente daquele em que “quase nasci” dentro, o Atlântico, selvagem e triste, perto de Lisboa. Aí, boa parte do que trago e exploro ainda hoje, nasceu por completo, aí , durante o período que morei no Algarve, onde as memórias não se conservam como “vastas feridas”, citando Chico Buarque, mas apenas memórias, tão somente, e ainda as vou reescrevendo, como se o sereno Mediterrâneo estivesse por perto, esse aí…

Actualmente vivo numa pequena aldeia, no interior do país, onde tudo aparenta ter um prazo definido, um pequeno paraíso em ruínas quase. É no pequeno quintal, por detrás da minha casa, que quase todos os poemas da Barca nascem, ainda que não utilize a expressão “inspiração”, ou pelo menos duma forma directa: o horizonte que me rodeia é calmo, mas duma calma tensa, os caminhos parecem abandonados, a sensação de “pertença”, a serena pertença de quem ama e dá o peito pelo lugar onde deveria pertencer, desvanece-se dia após dia e costumo dizer e já não é em tom de brincadeira, que um dia o carteiro vai deixar de passar por aqui… é a sensação que tenho do país que habito..

Então, é ausência de fronteiras, mapas ou bandeiras, que se materializam lentamente e sem pressas, na terra da escrita, na poesia, nesse fértil terreno das letras, esse o meu próprio país, ao qual me entrego por não me reclamar tudo, o todo de mim… dou o que posso, o que sei, o que sinto, e se mais não posso, não posso…


Publicações...? Como é a política de publicação de literatura ou poesia, aí em Portugal?

Nessa questão hesito um pouco, até porque as opiniões não são consensuais quanto ao assunto e fala-se muito em torno desse “problema” mas diz-se muito pouco ou quase nada; é fácil ter uma opinião acerca de tudo e mais alguma coisa, mas como não me seduz a “tudologia”, prefiro manter alguma distância ao opinar sobre o assunto.

As queixas são frequentes, aqui como em qualquer país… e não deve ser muito diferente em Portugal ou no Brasil, como na Nova Zelândia ou no Canadá: todos reclamam e ninguém tem razão, como na casa onde não há pão.

Eu, pessoalmente, como não tenho contacto com o mundo da edição, também não tenho por onde reclamar, e muito antes pelo contrário: o suporte virtual tem-me ajudado imenso a percorrer o caminho mais longo, aquele que semeia e contempla, o deserto inevitável do escritor… a proximidade, a empatia e arrisco, a amizade que encontro no mundo dos blogs não tem paralelo, quero acreditar, no mundo da edição, em que os critérios são relativos e um pouco “nebulosos”… mas só entra nesse mundo quem quer, não é verdade?

Neste momento, não penso na edição seja do que for, e o “momento económico e social” não acredito como propicio, e as pessoas, aqui e em geral, têm mais em que pensar que em livros de poesia: os tempos são difíceis para editar, porque também estão difíceis para o leitor que gostaria de comprar um livro, e então, há que parar um pouco e pensar… mas, todavia, não implica o encerrar portas, de forma nenhuma: não perco de vista um sonho antigo, renovado todos os dias, o de ter a minha própria pequena editora e trazer desse lado do Atlântico e naturalmente deste lado também, pessoas, poetas incríveis, trabalhos de alguns que me estão muito próximos, duma forma ou de outra, com uma qualidade tão absolutamente desperdiçada que, passe a expressão, dá dó de tanto desperdício… e daí ter adiado e adiado a hipótese de editar o pouco que tenho reunido, do trabalho que tenho desenvolvido, porque quem sabe, se o desejo se concretizar, não dê trabalho, também, ao Leonardo… (risos)


A solidão...Gosto de dizer que nunca estamos sós. Estamos, sempre em dois, no mínimo: eu e eu mesma ( ehehe).Porém, reparo que quando se trata da escrita há o mínimo do mínimo...como se, de fato, em algum momento fosse Um. Isso é complicado e quase impossível já que o traço único é letra e sendo escrita, pensada ou falada já é duas ou mais. Mas, repara que existe sim, uma solidão no ato de escrever. Concordas? Como descreverias isso?

Pode não ser consensual, mas pela minha própria experiência, e pela forma como encaro o “acto de escrita”, existe um momento em que a solidão na escrita é um imperativo: a escrita, em si, é um acto solitário, a palavra “exige-nos” muito para nos devolver tanto ou um pouco mais… mas não rejeito, de forma nenhuma, uma outra forma de “acontecer a palavra”… essa é a minha forma, mas não a considero universal e linear. Desconfio da forma rígida e metódica de escrever, do indivíduo que convoca a assembleia da palavra para uma reunião das tantas às tantas, e fica o problema resolvido; procuro um mínimo de ordem, mas de uma ordem equilibrada entre a exigência e o caos. Tenho uma relação com a palavra, e nessa relação não posso ser o único a ditar as regras da casa… “a inspiração” não tem horário ou calendário, e a percepção que tenho do “meu tempo com a palavra” é semelhante ao de qualquer outra relação… por vezes não estou disponível, inteiro, e noutras é a palavra que “me nega”, não vem, mas tudo isso faz parte do equilíbrio da relação… nem sempre há uma disponibilidade de parte a parte…

Mas voltando ao essencial da questão, à dicotomia escrita/solidão, não creio que haja consensualidade, até porque estamos a falar de significados em constante mutação, assim como os seus intérpretes, nós mesmos, que nos encontramo em permanente tentação de interpretar conforme o “conforto” que as interpretações, nossas ou alheias, nos trazem: dou um exemplo, Adriana… durante quanto tempo fez e ainda faz parte do imaginário social que o poeta é um tipo que escreve com a caneta na mão e com uma arma na outra, pronta a disparar? Não é aí que começa o “mito do poeta”, o suicida em potência, o grande estereótipo do Grande Poeta? Não é aí que começa, no fatalismo, na autodestruição, o mito do Grande Músico? Não será essa nossa relação com os estereótipos, com a solidão do acto de escrita, com o poeta suicida, com o pintor que corta orelhas, um tanto ou quanto precipitada, embora cómoda? Não será pedir demais, ao artista, que se atire para debaixo do comboio em andamento, como se fosse condição essencial para validar aquilo que exprime enquanto ser vivo, não como mais uma “natureza morta”? Não será pedir demais aos que para serem apenas artistas, simples artistas, poetas, pintores, músicos, que não é condição para “entrar no céu”, a obrigatoriedade de ser grande, a urgência de ser bom, excelente, o maior e por aí a fora?... Não será doentia essa necessidade de ser o melhor, ter um talento desmesurado para ser validado o ser que é tão-somente e apenas… humano? Não é suficiente o dom, o dom da partilha, o dom da entrega, o dom de receber o próprio dom sem que se vá a correr ao editor mais próximo a pensar que vamos vender milhões, ser o próximo Pessoa, ser famoso? E para sê-lo, a que preço?
A solidão como acto saudável e quando utilizado na proporção certa é, creio, o ponto de equilíbrio entre o eu e o outro, o próprio ponto de contacto… como o silêncio, esse grande maestro da grande orquestra da palavra, em toda a sua extensão. A solidão, vejo-a como um “acto de tempo” necessário, um quase dever para com a escrita, mas nunca uma obsessão doentia, uma obrigatoriedade que devora e limita. Mais preocupante é, isso sim, a “solidão imposta” pela ausência dos que pensamos que nos rodeiam e contudo… estamos sós, como tão bem imprimia Drummond no seu A Bruxa, que “Nesta cidade do Rio/de dois milhões de habitantes/ estou sozinho no quarto/estou sozinho na América./Estarei mesmo sozinho?”… essa solidão é terrível e para o bem ou para o mal, vai sendo compensada com as redes sociais, com o mundo virtual que se vai tornando a única família do solitário… e isso sim, é preocupante: o solitário raramente quer estar só… o solitário, o mais das vezes foi abandonado pela presença, ainda que seja “brutalmente” reclamado pelos que o rodeiam, mas o valor da relação é cada vez mais residual, pois que exige apenas “o corpo presente”… e o ser humano não foi programado para ser “solitário”, não acredito… basta olhar de perto para o “solitário” que passa horas e horas, em frente ao computador, a comunicar… “a comunicar”, e esse é o alimento do ser humano…

Barco e porto...Ser o que carrega e estar onde recebe. Há algo nisso que faz pensar no encontro como possibilidade. Estando no mar, avistamos, sonhamos com a terra. Estando na terra, a imensidão do mar. No trajeto portamos algo, uma esperança que
nos faz. Também o desejo para além do que alguma espécie de destino já diz o que é. Pensei nas grandes navegações, naquilo que não sabiam e que lhes causava desejo de saber. Arrumar o barco, todos os dias, para percorrer um caminho, uma palavra, um destino. Incerto como todos são. Os destinos...são dos portos ou dos barcos?

Essa resposta gostaria de descobrir, ou melhor, sendo uma dupla questão até se responde por si, se não nos tentarem os lugares–comuns: há uma ideia generalizada que o Português é um refém da saudade, dos “bons velhos tempos”, do “antigamente é que era”… não é em vão essa conotação, embora seja redutora, porque não há um Português, mas dez milhões de Portugueses, todos diferentes e por vezes… todos iguais. Por outro lado, é denominador comum a vontade, o à vontade com que esse mesmo Português lida com as tecnologias, como a ideia do “lá à frente”, estar sempre “à frente”, com a obsessão da novidade, do “progresso pelo progresso”… o que “é novo é que é bom”. O António Variações cantava muito bem esse estado de espírito que “nos move”, no Estou Além, “Sempre esta sensação/Que estou a perder/Tenho pressa de sair/ Quero sentir ao chegar/Vontade de partir/P'ra outro lugar/Vou continuar a procurar/ o meu mundo, o meu lugar/ Porque até aqui eu só/ Estou bem/ Aonde não estou/ Porque eu só estou bem/ Aonde eu não vou.”… e esta ambiguidade, esta forma de estar condiciona-nos e faz de nós grandes poetas de naturezas mortas e artistas em constante busca. E então do tempo, nem se fala… temos um livro e não temos “tempo” para o ler, mas já estamos a planear comprar mais um ou dois; temos um computador e já estamos de volta das novidades nos catálogos, dum novo, de nova geração, com mais memória e uma montanha de aplicações que nunca se irão utilizar, mas são “boas”; temos um filme para ver, mas estamos já a pensar nuns quantos que são novidade… e podíamos ir por aí fora, nessa quase devoção à novidade, à nova tecnologia, ao novo amigo no facebook, ao novo, novo, novo, tão extenuante que não deixa tempo para apreciar o que vamos adquirindo, as experiências que “vamos vivendo” mas raramente pensando, os amigos que “vamos fazendo” mas raramente lhes dedicamos o “nosso tempo”, aos livros que “vamos comprando” e o mais das vezes “estão lá na estante”… e assim vamos ficando reféns do passado, com “saudades do futuro”, sem poiso certo mas confiantes no destino, no fado, esse jogo de sorte e de azar… são lugares-comuns, e são os que temos, que aceitamos resignadamente, confiando que alguém faça o “nosso trabalho”… andamos há oitocentos anos nisto e não é agora que vai mudar, assim, sem mais nem menos, tão abruptamente.

Fomos educados a olhar com demasiada frequência, para o “outro”, para o “outro lado”, para o “impossível”, a procurar no “vizinho” os nossos próprios defeitos, e daí a propensão para nos tornamos peritos em assuntos menores e mesquinhos, sem utilidade aparente… mas para além desse gene que herdei, que herdámos como Portugueses comuns, ainda acredito que somos porto e barco, mar e ilha, um território imenso onde nos podemos encontrar, partilhando o que se encontra, procurando; acredito numa geração que vislumbro e que saberá como desfrutar o que faz, o que lê, o que pinta, o que sente, uma geração que procure em si a primeira questão e resposta, que procure em si o valor sentido, o peso da sua própria linguagem emocional projectada para o mundo, mas passando por si própria, antes de tudo… é motivante apreender no horizonte esse “corte”, essa ruptura com a “ausência necessária”, essa não inscrição por questões de sobrevivência, e nesse particular, o escritor, o artista poderá ter uma palavra a “inscrever” se não se remeter ao papel de bibelot, mero adorno estético e desnecessário… não é fácil, mas quem disse que o poderia ser?

Gostarias de deixar registrada mais alguma coisa?

Naturalmente, que gostaria… ficaríamos aqui dias a olhar para esse mar, falando, trocando de emoções, trocando de palavras, trocando, dando e recebendo. Mas já o sol se põe, e a maré está de mudança e interpretemos isso como um sinal…

Recupero, umas palavras que ficaram noutras marés e tão bem aqui cabem: “Todo o furacão de emoções que me tem avassalado nos últimos tempos, e um reconhecimento que “desconfiaria” noutras circunstâncias, ainda que soubesse como caminhar sobre as águas sem me molhar, tem sido uma das provas mais gratificantes da minha vida, mas com a ressalva que não “quero ser engolido” por sombras ou ilusões; sei que os dons devem ser partilhados e os méritos só podem ser reconhecidos por outrém, mas da mesma forma que tudo o que partilho por prazer, da mesma forma posso partir, quando essa força, esse prazer, esse “dom”e me faltar… escritor é para escrever, como ao artista de teatro pertence o palco.” E assim sendo, ao trabalho, A Lavoro!

E deixo, agora, sempre, um Abraço que faça corar de vergonha os tamanhos desse mar que nos separa, Adriana, um Abracimenso!

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Leonardo, sinto-me emocionada por ter estado contigo nesta pequena entrevista. Sinto-me assim por senti-lo tão próximo, embora estejamos longe de doer; pela tua palavra que me traz todas as águas, como concha que compartilhas connosco. Neste eco me fazes escrever mais, numa confusão de espaços em que quero ser porto e barco, para te receber ou te portar. São para sempre bem vindas tuas indecentes palavras, pela verdade dos amantes além mar.

Beijo com todas as letras

Adriana bandeira