construção de A Criança Inacabada


Quando iniciei, através do blog A Última Estação de Ricardo S., a edição dos textos, que iam acumulando entre gavetas, arquivadores, entre livros, o primeiro texto de explicação do dito, assim constava:

“A única curiosidade deste blog, aparentemente, é que todos os textos, tudo aquilo que aqui for explorado já terminou, mesmo antes de ter começado. Toda a tripulação de Ricardo S., já terminou a sua caminhada há alguns anos e sem motivo de maior, regressa, para que se encerre definitivamente o pano… Durante uma boa dezena de anos, fui alinhando palavras o melhor que sentia, o melhor que podia, fosse em forma de “poemas” ou aproximações aos ditos, que raramente conheceram a luz do dia ou a escuridão invisível da noite; alguns amigos, aqueles que foram conhecendo o que nunca chegou à superfície, sempre me incitaram a tentar outras “sortes”, alinhá-los, procurar uma editora e partir por aí… mas não, pelos mais diversos motivos, não! Nunca pensei que as “minhas palavras desalinhadas” tivessem a qualidade suficiente para desesperar nos escritórios duma editora obscura, ou pelo menos a seguir honestamente o meu coração, não senti nunca esse apelo, ou se o senti, não o quis seguir.
Toda esta “história” terminou há muito tempo, o suficiente para me sentir distante e começar, de forma aleatória a pegar nos meus arquivadores, tomar um rascunho, um “poema”, e dar-lhe uma nova cor se necessário, para que pelo menos possa fazer sentido essa “obrigação” que devo aos que comigo perderam tempo, paciência e não me conseguiram demover da opinião que a qualidade destes textos era insuficiente; poderia optar pela edição de autor e oferecer aos amigos, mas os trocos estão escassos e a “vaidade” que essa forma de editar, abatendo inutilmente arvores por dá cá aquela palha, ou melhor dá cá aquela pasta de papel, não me seduz…
Assim, e mesmo assim, apontarei notas sempre que possível, situar os textos no tempo e no espaço, mas sempre com a devida distância, como se estivesse perante um corpo que aguarda o velório há muito e assim pode conhecer um funeral digno. Ricardo S. teve o seu tempo, mesmo que não tenha conhecido a luz; agora é tarde? Não, tarde não, nunca… Ainda que este trabalho, este projecto já tenha um fim marcado, não será tomado com menor cuidado. Quando as pastas arquivadoras estiverem limpas e todos os originais queimados, então acabou! Fica a sensação de dever cumprido para quem me apoiou durante esses difíceis anos, fica a sensação que não é por humana vaidade que pego neste pedaço de tralha e mando-o, literalmente, para o espaço… é com sentido de dever, até, que o faço; não faz sentido este caminho, mas não é por isso que o deverei ocultar, pois que tenho o dever de partilhar com que achar “nestes” alguma utilidade…

Curiosamente, as letras de Ricardo S. terminaram, esgotaram-se, mais ou menos na altura em que vi pela primeira vez “O Clube dos Poetas Mortos”; escusado será dizer da influência que teve em mim o dito filme, pelas mais variadas razões e em particular o despertar em mim, que muito para além da humildade, o ofício de poeta não é para quem pode ou para quem quer; pertence a um clube de eleitos onde o meu nome não se inscreve. Ainda assim, insisto, nada disto me pertence agora, todo o seu sentido foi apagado; tudo isto terminou, ainda antes de ter começado este blog…

Só espero que este fim, como todos os outros, seja um fim decente; sem pretensões, sem ilusões, sem vãs glórias a aguardar-me, não, tudo isto terminou e então deixemos a vida prosseguir o seu rumo…

Adeus Ricardo S., que não é mais que uma sombra, agora; adeus sombras, pois chegámos à última estação, onde o outro ser se deve apear…

15 de Março de 2009”

A partir destas, pretendo apenas partilhar as motivações, pequenas notas que me levam a arrumar todo esse “amontoado”, a que apelidei, por ora, A Criança Inacabada.

04.08.2010