outubro 27, 2016

24 Setembro, Manhã




 (bL.Outubro 2016)


Quis tornar ao dia claro, mais breve ainda que à razão dos astros (porque haverão de ser os engenhos do universo de tão rigorosa ordem, tão espontânea e infinita?), acordar vestido, tomar do livro, o teu livro, o doado coração do poeta e avançar, ousar ser mais que rosto ou palavra inteira, aos traços de querer tornar ao dia claro e ler-te ao rosto do astro maior que nos acontece e no dia nos teima condizer, ser.

Quis tornar breve ao provável dia claro, ainda que as formas da noite, o escuro linho, os ponteiros do norte não me deixem ousar o dia, o livro, o ouro dos que se ausentam, acordado na parte menos extensa concisa da vida; no sono que ousa ser folha clara, escura, transparente como as horas


que agora, no sino de cobre se furtam por cinco suaves pancadas, ecos rudes por cima das linhas da terra, como horas inventadas pelo homem para este dia que ainda teima ser noite, escura nuvem de pó e nuvem e “outras coisas que dão matéria para poemas”; quero ser caminho, vestir-me de nudez, e dentro do caminho tomar do livro a tinta escorada no teu poema e dize-lo alto ao dia,


vem,


“A vida continua.

Certas coisas que pareciam mortas

estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.

Ausentes, dominam-nos.

não é para nós que utilizam palavras,

que insistem,

não é para nós!

Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos

fluem em visões, em ondas, como se não no presente.

Ter-se-á o presente extinguido?

A vida continua tão improvavelmente.”*


 
2013
02-365
* de Telegrama sem classificação especial, Viagem Através Duma Nebulosa - António Ramos Rosa

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