outubro 26, 2016

23 Setembro



“Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.


Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.”

de Um Caminho de Palavras, António Ramos Rosa

  

Lá fora, como um ténue corpo luminoso, como uma luz difusa que aguarda o silêncio nocturno dos caminhos, “este homem que pensou com uma pedra na mão” tacteia a árvore, a margem, o corpo em meia ferida, na intacta ferida da palavra, o vocábulo raspado pelo tempo

e vai; o Poeta apenas saiu, deixou as portas, as janelas, o peito aberto ao mundo, foi por aí… ao mundo, ao que dele resta, ao que dele nos resta… e ao dia como alguém que apenas escutou um “grão de silêncio”, em silêncio e o tomou entre as mãos, o dia sagrado, o dia não mais adiado.

Lá fora há sombras e chagas, mas não acredito nas notícias dos jornais: o Poeta apenas saiu, e para os que ficam, foi por aí “com uma pedra na mão” para transformá-la em vida. Nada de mais, para “este homem que parou / no meio da sua vida / e se sentiu mais leve / que a sua própria sombra”

e foi; o Poeta apenas saiu, foi por aí…

2013

01-365

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