outubro 04, 2016

2 (cadernos do outubro)





















“Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são”

Alexandre O’neill


A esta casa em silêncio, ao que sobra deste espinho-pedra no horizonte, à ausência, ao esquadro de madrugada repentina, ao corpo quase nada, 


acrescento, diurnamente acrescento 


pedras-de-afiar as nascentes, que calmas e vorazes brotam do corpo, da parede, das velas que me alumiam o voo, do livro que adormece na mesa, no corpo, no quase nada que acontece


na forma da cauda de cometa, na nuvem que ajeito com as mãos, com dois braços, com o linho tranquilo do corpo, na veia-rio que acolhe o sopro o ar a margem onde navega de mim o quase nada que acontece, acrescento   


a casa.


Desta casa azul em silêncio, imenso azul fraga em silêncio, colho o resíduo húmido da palavra, o coalho, o bolor duma palavra (ínfima ou imensa, azul apenas) antes que a manhã aconteça, e então aguardo; no coração-em-cinza da terra, na manhã clara, ainda repousa o restolho, a aguadilha azul da palavra adormecida, a pedra solta e solitária, inquieta, um corpo quase nada    

onde adormeço e sobrevivo; é a minha pouca casa.



À casa, azul de silêncio, acrescenta-se todos os dias essa pedra inquieta, aparentemente solar; repentina e silenciosamente solar,

como um frágil grito.



[Outubro.2016, 04]

1 comentário:

LuísM Castanheira disse...

as janel_elas abertas...
e a casa habitada.