outubro 28, 2016

14 Novembro





I

Ainda que saliente, como uma pedra aparentando movimento

[existem no corpo, desde que há memória dos inventos do corpo, semelhanças às artérias dos desertos, às suas areias transparentes e provisórias onde]

o tempo recolhe-se tempo decorrido; aguarda-se arrumo no corpo (translúcida areia em redoma aparente), aguarda-se transitório o vidro soprado quadrante solar, aguarda-se o acontecer do tempo nos resguardos da ampulheta, o tempo, recolhido seus breves ofícios:

Foste na linha desbotada do mundo, a palavra, uma palavra espalhada no espaço, um ruído cansado num rádio esquecido no louceiro, um rádio a válvulas, uma fenda no tempo, no quadrante solar da palavra, metamorfose - quem te recorda?
     
Foste a casa talhada na terra, na margem do rio, um agitado rio imaginário, uma linha contínua na mão, na linha da vida esculpida como uma quebra no espaço (e ainda era a tarde bravia, era espesso o fumo dos cigarros, os seus restos espalhados pelos cantos, pelo chão, nos cinzeiro do café…) e ainda era o princípio, o princípio do mundo e quem te recorda?

Foste a unha quebrada do vento, sismo vendaval, foste o corpo, o verso inacabado, quem como à criança adormecida no fogo do livro antigo, se fez lume no tempo, e do tempo? – quem te recorda, Poeta?

[desde que há memória dos inventos do corpo, existem semelhanças às artérias do livro, às suas areias transparentes e provisórias onde o poema aparenta o movimento, o corpo inscrito na muro desabado

a que muito chamam de tramas do tempo, poemas, mas não.]


II

Por assim dizer, ao homem diante do verso (e aos Anjos errantes, andrajosos, parentes de vagabundo), às coisas do tempo e aos modos de o conter, pouco ou nada conta; 

ao Poeta e por si só, o tempo não diz grande coisa - quem o lembra?


2013
06-365

3 comentários:

Marcelino disse...

E quem o leu haverá de esquecer suas milimétricas e bem arranjadas palavras?

Graça Pires disse...

Não o esquecerei.
Muito belo, o texto.
Uma boa semana.
Beijos.

LuísM Castanheira disse...

mais pobres ficarão os que a sua poesia desconhecerem ou esquecerem.
haverá sempre uma intemporal permanência, no éter ou na memória,
até que o mundo da vida exista.
belo texto.
um abraço.