dezembro 17, 2016

"Seiva", o segundo volume de textos...





Desde esta semana, já se encontra "por aí", o “Seiva”, oitenta e dois textos (242 págs.), escritos entre Novembro de 2010 e Janeiro de 2012 (com a excepção de um texto datado de Agosto de 2012), com notas de introdução de Leonora Rosado e Suzana Guimarães, e capa de Iva Jauss, "having part of you".

Apenas está disponível por venda directa (dada a pequena tiragem - 100 exemplares - não está prevista a venda em qualquer livraria), pelo que para qualquer encomenda (12,50€ c/ portes incluídos para Portugal) ou informação estarei disponível (como sempre!) no e-mail: breveleonardolivro@gmail.com

Com gratidão,
Imensa!!!

outubro 28, 2016

14 Novembro





I

Ainda que saliente, como uma pedra aparentando movimento

[existem no corpo, desde que há memória dos inventos do corpo, semelhanças às artérias dos desertos, às suas areias transparentes e provisórias onde]

o tempo recolhe-se tempo decorrido; aguarda-se arrumo no corpo (translúcida areia em redoma aparente), aguarda-se transitório o vidro soprado quadrante solar, aguarda-se o acontecer do tempo nos resguardos da ampulheta, o tempo, recolhido seus breves ofícios:

Foste na linha desbotada do mundo, a palavra, uma palavra espalhada no espaço, um ruído cansado num rádio esquecido no louceiro, um rádio a válvulas, uma fenda no tempo, no quadrante solar da palavra, metamorfose - quem te recorda?
     
Foste a casa talhada na terra, na margem do rio, um agitado rio imaginário, uma linha contínua na mão, na linha da vida esculpida como uma quebra no espaço (e ainda era a tarde bravia, era espesso o fumo dos cigarros, os seus restos espalhados pelos cantos, pelo chão, nos cinzeiro do café…) e ainda era o princípio, o princípio do mundo e quem te recorda?

Foste a unha quebrada do vento, sismo vendaval, foste o corpo, o verso inacabado, quem como à criança adormecida no fogo do livro antigo, se fez lume no tempo, e do tempo? – quem te recorda, Poeta?

[desde que há memória dos inventos do corpo, existem semelhanças às artérias do livro, às suas areias transparentes e provisórias onde o poema aparenta o movimento, o corpo inscrito na muro desabado

a que muito chamam de tramas do tempo, poemas, mas não.]


II

Por assim dizer, ao homem diante do verso (e aos Anjos errantes, andrajosos, parentes de vagabundo), às coisas do tempo e aos modos de o conter, pouco ou nada conta; 

ao Poeta e por si só, o tempo não diz grande coisa - quem o lembra?


2013
06-365

28 Outubro





aos poucos, convergem na palavra, intactos 

os primeiros ruídos da luz, os vagos tremores da terra arada na manhã anterior, 

palavras inquietas, intactas 

como rosa neblina, como líquido murmúrio das águas placentas que acordam nas fragas, poema ou seiva desta manhã que se recolhe

por primeira.

aos poucos, convergem na palavra, gritos

dos que hoje não puderam acordar; alguns, adormecidos que ficaram dentro das ondas – outros, espalhados nas cinzas que crescem na mão do homem,

inquietos, intactos

como desertos ou sílabas ancoradas na primeira nuvem da manhã, como rascunhos de lágrima-poema, a artéria deste momento que provisório

acontece, devagar.

2016
05-365

11 Outubro



 


No teu livro nasciam ruas claras (quantas cidades inteiras dum astro apenas?), corpos diurnos de pedras cujo nome não se diz

nem se sabe,  e no entanto

nos versos, nelas, nas cidades do corpo, nas pequenas fracções de luz,

no detalhe da tinta do verso, no pó que regressará ao pó do corpo, na cinza da manhã clara que nos deixaste construída na árvore, na raiz da palavra, tudo intacto permanece: apesar da noite e dia

na linha das fronteiras, permanece o teu poema.  


2013
04-365

outubro 27, 2016

25 Setembro




do silêncio nasciam poemas; estranhas ciências, essas de ser palavra inteira 

provisória, única morada.


2013
03-365

24 Setembro, Manhã




 (bL.Outubro 2016)


Quis tornar ao dia claro, mais breve ainda que à razão dos astros (porque haverão de ser os engenhos do universo de tão rigorosa ordem, tão espontânea e infinita?), acordar vestido, tomar do livro, o teu livro, o doado coração do poeta e avançar, ousar ser mais que rosto ou palavra inteira, aos traços de querer tornar ao dia claro e ler-te ao rosto do astro maior que nos acontece e no dia nos teima condizer, ser.

Quis tornar breve ao provável dia claro, ainda que as formas da noite, o escuro linho, os ponteiros do norte não me deixem ousar o dia, o livro, o ouro dos que se ausentam, acordado na parte menos extensa concisa da vida; no sono que ousa ser folha clara, escura, transparente como as horas


que agora, no sino de cobre se furtam por cinco suaves pancadas, ecos rudes por cima das linhas da terra, como horas inventadas pelo homem para este dia que ainda teima ser noite, escura nuvem de pó e nuvem e “outras coisas que dão matéria para poemas”; quero ser caminho, vestir-me de nudez, e dentro do caminho tomar do livro a tinta escorada no teu poema e dize-lo alto ao dia,


vem,


“A vida continua.

Certas coisas que pareciam mortas

estão agora vivas ou, pelo menos, mexem-se.

Ausentes, dominam-nos.

não é para nós que utilizam palavras,

que insistem,

não é para nós!

Estes grandes ornamentos, estes sábios discursos

fluem em visões, em ondas, como se não no presente.

Ter-se-á o presente extinguido?

A vida continua tão improvavelmente.”*


 
2013
02-365
* de Telegrama sem classificação especial, Viagem Através Duma Nebulosa - António Ramos Rosa

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outubro 26, 2016

23 Setembro



“Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho.


Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.”

de Um Caminho de Palavras, António Ramos Rosa

  

Lá fora, como um ténue corpo luminoso, como uma luz difusa que aguarda o silêncio nocturno dos caminhos, “este homem que pensou com uma pedra na mão” tacteia a árvore, a margem, o corpo em meia ferida, na intacta ferida da palavra, o vocábulo raspado pelo tempo

e vai; o Poeta apenas saiu, deixou as portas, as janelas, o peito aberto ao mundo, foi por aí… ao mundo, ao que dele resta, ao que dele nos resta… e ao dia como alguém que apenas escutou um “grão de silêncio”, em silêncio e o tomou entre as mãos, o dia sagrado, o dia não mais adiado.

Lá fora há sombras e chagas, mas não acredito nas notícias dos jornais: o Poeta apenas saiu, e para os que ficam, foi por aí “com uma pedra na mão” para transformá-la em vida. Nada de mais, para “este homem que parou / no meio da sua vida / e se sentiu mais leve / que a sua própria sombra”

e foi; o Poeta apenas saiu, foi por aí…

2013

01-365

outubro 21, 2016

Seiva...


Com quem, senão com os "meus", partilhar essa novidade: o meu/vosso segundo volume de textos poéticos, "Seiva", está em fase final de preparação e em meados de Novembro verá "luz de livro", tinta e aroma de papel, poema.




São oitenta e dois poemas, escritos entre Novembro de 2010 e Janeiro de 2012 (com a excepção de um texto datado de Agosto de 2012). Com notas de introdução de Leonora Rosado e Suzana Guimarães, este volume tem como capa o trabalho "having part of you" de Iva Jauss, um "poema" que me apaixonei desde o primeiro momento e dá um sentido maior a este conjunto, a esta grande família que é o "Seiva"; nela estão dedicados textos a parte dos "meus" que me acompanharam nesse período e são imensos...

Com que gratidão, imensa, 
da imensidão que a palavra não sabe expressar!

*nota: a capa é o último esboço, quase trabalho final.

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outubro 18, 2016

do corpo, da palavra


[Essa a luz, a estrela que se incendeia no dia por horas e horas; essa a luz que se faz poema erguido do chão, que nos refaz; essa a centelha de poema

é-me essencial,

o cada átomo (grão de poeira de universo que me leva e traz e me detém ao caminhar), o cada verso, o primeiro sinal da manhã que não me enjeita ao mundo: da palavra que se faz de mim, do cada sinal (antes fosse a estrela uma fogueira no espaço!), da palavra que se deposita no rio ainda fraco caudal, e que me desmonta, peça a peça

do corpo, da palavra

que me lavra terra inóspita e no entanto me refaz, é-me essencial.

Há um pouco de estrela, há um lugar no espaço,
não foi ainda aqui que me perdi...]


Outubro 2016, 07

pequenos nadas [1] – variação sobre comentário 24.05.2012, a “dessa dor de te saber assim”, de Adriana Godoy

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