Fevereiro 02, 2012

Fosse Fogo Semente

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Por mais que se tente,
por muitas gotas pálidas
[quase salgadas]
que se guardem dentro da mão,
por muito que nos ciprestes envelheçam as cidades,
as cidades em silêncio, estas
que acontecem invisíveis,
presas vento de quem fez verbo o infinito,
e no muito mais que um sumido grito,
fosse o fogo a semente
das muitas explicações que se tentem,
lamento, mas

os livros de poesia não ardem
enquanto um de nós trouxer entre as mãos
as mãos
que por incenso, a tinta, os livros

queimam,
tão brandamente, a caligrafia na pedra
no corpo, na linha, na linha da fronteira,
ruga ou raiz, as mãos
nascem lama, fogo cruzado, céu braseiro
um lume que se apaga antes do tempo, como
corpo adentro escancarada a ferida, corpo branco
fosse página
e pouco mais.

Por muito pouca seja a semente,
os muitos fogos em ruínas, ruídos e braseiros
inquietos corpos espontâneos, e tanto
por mais que se tente, lamento:

por mais silêncios que se inventem,
os livros de poesia não ardem
enquanto um de nós estiver vivo.


Fevereiro 2, 2012

[breve aparte: o último verso deste texto, acolhe-se num outro de José Luís Peixoto, «enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco», do livro A Criança em Ruínas.]

[imagem: reprodução de (?), Michael Van Ofen]
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16 comentários, postais, notas ou impressões:

Tatiane Trajano disse...

É algo como ser reconhecido depois da morte...
Milhões de poetas assim!

Adriana Karnal disse...

Leonardo,
teu poema é um lamento. triste saber que nao é possível o encontro na poesia enquanto ainda há vida.conheces muito bem a beleza das palavras, escolhe-as nesse texto que é quase uma ode a morte.

Tania regina Contreiras disse...

Verdade. Que dói admitir para quem encontra o Poeta vivo e a poesia em chamas.

Beijos, querido!

elisa...lichazul disse...

la Poesía no envejece, ni caduca, no menos muere
es la clave de la eterna juventud
nosotros bebemos de los versos
podemos alimentarnos de cada poema
y a la vez ser eternos si logramos escribirla;)

Precioso sentir LEO, intenso poema
Felicitaciones

besitos y luz

marlene edir severino disse...

...Mas corpos arderam
palavras ficaram
gravadas com tinta, papel,
no corpo tatuadas
nalgum lugar, num determinado
embriagado instante!

Abraço "imenso" daqui, Leonardo!

Samara Bassi disse...

Amigos, o meu blog "A Pequena Notável .poesia do cotidiano." foi alterado para o endereço abaixo:

http://samarabassi.blogspot.com/

Peço que atualizem e agradeço.
Meu abraço,
Sam

cirandeira disse...

Não sei, mas penso que a Poesia
permanecerá incólume na pira do
fogo eterno preservada e carregada
pelo Homem através dos tempos,
enquanto ele existir, enquanto
houver Poetas!

um grande abraço

Sônia Brandão disse...

Os livros não arderão enquanto arder em nós a chama da poesia.

bj

Samara Bassi disse...

Por mais
que fossem incensos
um punhado de águas marinhas
por mais que fossem sementes
aquele faiscar brotando de vida
do ventre da terra
meus tempos seriam ventos e bússola sem norte
incendiando a flor
em cores fumegantes
e esfumaçadas nos vãos
e rochedos d'água.

Adoro tua poesia, leo.
meu carinho,
Sam

Hercília Fernandes disse...

Belo poema, Leonardo.
O lamento, os limites da poesia, o embate travado entre o eu-poético e o eu-mundo, tudo isso comoveu-me.
Mais ainda a expressão sincera do sentimento.

Afeto,
H.F.

MIRZE disse...

Belo e comovente.

Espero que ardam silêncios de poetas vivos. Manoel de Barros ainda está vivo. Quem sabe o seu livro queimará esse silêncio que paira no ar?

Mais que belo!

Beijos

Mirze

Joana Espain disse...

Gostei muito! Abraço

dade amorim disse...

Lindo, tocante e comovedor, Leo.

Beijo.

Eduarda disse...

hoje dois poetas admiráveis: tu e José Luis Peixoto, pois a poesia por mais fogo nunca arderá.

bj

Soninha disse...

que maravailha de texto}!!

urbanascidades disse...

Leonardo, convido a ti e a teus leitores para conhecerem e participarem com suas produções literárias do Urbanasvariedades, o modo long play do Urbanascidades, blog cultural de produção coletiva. Visite urbanasvariedades.blogspot.com. e solte o verbo.
Um abraço,
Paulo Bettanin.