Janeiro 05, 2012

Não abras em vão o livro do mundo (reeditado)

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E se ao abrires o livro
o poema não existir mais,
desaparecida a tinta, a mão
que lhe bateu por coração,
e no corpo dormente,
o ritmo do sangue demais?

E se ao abrires o livro
o poema não existir mais?

E se ao abrires a janela,
ou na sua falta,
a porta da casa, e
te deres conta que o poeta
partiu?

Bem sabes que com ele
vão mares inteiros, os céus naufragados,
vão as margens dos rios, os pilares das pontes,
e os ventos do mundo. Vão as casas
que eram estrelas antes do amanhecer
e vão as letras insignificantes, o tempo
que acontece, vai o tempo inventado
por aqueles que nasceram com asas,

e bem sabes
que com o poeta partem, também
todas as partes do horizonte que já não são além
e com ele os ruídos da manhã, inacabados
como a cama de cinzas que sobram das brasas.


Sem poeta não há escuridão ou amanhecer
nem tão pouco as linhas da mão, da vida,
nem horizontes, o depois, o antes e
nem a letra ou confim, a vela soprada
por aqueles que nasceram com asas.
Parte o homem e com ele o poema
sobram quando muito as ruínas da casa
que já não é mar, onda ou cais
desaparecida a tinta, a mão
que lhe bateu por coração, aconteceu
partiu, disse
“não mais”!

E se ao abrires a janela,
o livro ao mundo, astro corpo de poeta,
lá fora, dentro da manhã
que já não acontece,
o poema não existir mais?


Maio 5, 2011

[breve aparte: a esta reedição, de duplo significado, explicarei mais adiante, aos meus que trago cá dentro, mais detalhadamente...]

[imagem: reprodução de (?), Joel Tjintjelaar]
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13 comentários, postais, notas ou impressões:

manuel marques disse...

Abraço 2012 cheio de paz .

Batom e poesias disse...

E se existir vida além da poesia, não a quero...

Belíssimo, meu querido poeta.
Abrindo as porta do novo ano em grande estilo.

Abços

Rossana

Bípede Falante disse...

Se abrir e não encontrar, perderei o chão, a voz, as palavras, mas não a vontade, que ela há de revelar-se na esquina de alguma soberba poesia, na esquina de um raro talento como o seu.
beijoss :)

Celso Mendes disse...

"A Verdadeira viagem não está em sair à procura de novas paisagens, mas em possuir novos olhos." (Marcel Proust)
O poeta possui esses olhos. Sem os olhos do poeta, as viagens seriam limitadas e perderiam sua beleza.

Admirável poema, meu caro.

Grande abraço.

Tania regina Contreiras disse...

Léo, poeta não vai, não parte, não some, não se ausenta...Não depois de já ter existido, não depois de já ter escrito, porque as páginas brancas da ausência são bastante diferentes das páginas virgens, que nunca foram tingidas pelos versos. Um nosso conhecido ator, já falecido, referia-se a uma nossa grande intérprete, já falecida (a Elis Regina) dizendo: "Ela continua cantando tão bem". E na ausência do poeta, continuará ele escrevendo tão bem; e na ausência da poesia que esmaeceu até tornar branco o papel, digo o mesmo: "O poema sendo o sentido!"... Que bom voc~e aqui de novo!

beijos,

Joelma B. disse...

Olhar de poeta é janela que, uma vez aberta e apreciada, não se fecha nunca, Leonardo...

Beijinho com admiração!

Luciana Santa Rita disse...

Lindo post! Uma poesia é um novo livro, um novo começo e uma novo olhar.

Artes e escritas disse...

Aguardo a edição. FELIZ NOITE DE REIS! Um abraço, Yayá.

marlene edir severino disse...

Fica o poema, uma vez escrito, gravado,
o poeta,
tatuado
peito adentro,

desnecessárias tinta ou papel!

Afetuoso abraço, poeta!

MIRZE disse...

Leonardo!

Para isso existem poetas. Para apontar os caminhos da beleza e às vezes, nem tanto desses mares.

O horizonte sempre espera por você e todos os poetas.

Lindo!

Beijos

Mirze

Sílc disse...

lEONARDO lindo Pássaro seus poemas lindos são todo encanto. Abra a porta dos fundos para que vá o que desejas que parta, mas deixe a porta da entrada aberta para que possamos abrir o livro e sempre encontrar seus poemas meu Poeta L.B.
Com carinho,
Sílvia
A Gaivota
A gaivota voava por cima de mim.
Voava em rodopio
Sem rumo certo
À deriva.
Não sei porque o fazia.
Se procurava alguém
Se me divertia
Ou simplesmente me provocava.
Ela
A gaivota, voava
Eu,
Amarrada estava
Ao chão da tua vida!
Queria voar como ela
Em rodopio
Sem rumo certo
À deriva.
E poder desatar
O laço que me prende
A esta vida
E com o anunciar da Primavera
Regressaria
Com rumo certo
Ao meu chão
À nossa vida!
A gaivota voava, voava, voava
Sem rumo certo
À deriva.
Maria José Areal in À Deriva

Antonio Rubilar B. Valente disse...

De tudo o que vejo e leio nessa minha viagem virtual de internet, entrando e saindo de sites,blogs, espaços e mais espaços(alguns "vazios" que nem se pode denominar de espaço)eis que encontrei UM que que me cativou e me tomou o precioso tempo.Devemos sempre ser assim na WEB...Transmitir algo de prazeroso e que nos faça refletir.Afinal,VIVER ainda é o melhor "donwload" que a nossa essência pode fazer.Um abraço amigo do BRASIL DA PENA,
Rubi Valente.

Neuzza Pinhero disse...

querido Leonardo

o seu, é um poema-plasma, limpa as veias e faz do coração
um testamento
um abraço grande e forte