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Onde guardarei essa asa cadente transcrita da nuvem,
sincelo de palavra que me acomoda, apenas…
não sei!
Uma represa estreita e comprimida de papel
é pouco, e
se até uma nesga de sombra precisa de espaço, luz
e vento, o pouco do escrito espantado,
o grifo da letra que se me ajeita
faz-se grito rouco, cavo e conciso em voo liberto, e
se é pouco, não sei!
Dos meus mil corpos
da letra,
todos entrego, e
na minha exposta roda do mundo
negra rosa dos ventos, caligrafada
nos mil telhados da nuvem,
em sobressalto, invento
[não nego!]
uma letra pela qual irei
até ao fim do céu, ao rascunho do sono,
ao atormentado cabo onde se amarram os ventos,
ao provisório nome que trouxe valido,
aos meus mil corpos,
todos meus, de ninguém,
Onde guardarei essa asa cadente, tão infinitamente,
diminuta e óbvia,
tão pouca e provisória, incompleta…
não sei!
Uma mão concreta que me esconde e
espanta e espalha nas cinzas, no vento que
não me reduz, nem me rejeita,
é apenas uma palavra, mas
é tanto!
E sem a noção do ponteiro vento,
por certo, o necessário enxerto do céu adentro,
em que página abriremos essa palavra,
sem índice, nem bússola maior?
Em que ponto exacto, da nuvem a asa cadente
meridiano ilusório, um grau, um segundo,
um tosco apontamento que seja,
transcrita letra da nuvem, se porém, nunca por minha?
No oco cabo, o nunca do vento,
na minha roda dos expostos?
Palavra, não sei!
Dezembro 21, 2010
[breve aparte: este texto foi e continuará a ser gratamente dedicado a Carine Delgado, pela dádiva da sua incondicional amizade.]
|imagem: reprodução de (?), André Petterson|
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8 comentários, postais, notas ou impressões:
As vezes as palavras são determinantes, outras ilusórias.
Já na imagem a vertigem que nos toma e o poema que nos liberta do cotidiano
abraços
O tamanho da asa não conta para a alma que sabe voar!
Belissimo jogo de palavras que sempre me tocam profundamente!
Leonardo, gosto de o ver por aqui e de sentir que a poesia dentro de si teima em querer ser escrita!
Um Abraço
palavras que encantam e ao mesmo tempo comovem..
bjs.Sol
Leonardo, um grande tema em um belo poema, casamento perfeito. Parabéns.
Paulo Bettanin
Leonardo!
Você é incrível, poeta! Pelo que li e por tudo que me comoveu, repito: É incrível sua sensibilidade!
Beijos
Mirze
Tão bonito isso, Leonardo. Um alento pra esse tempo que tem me sido muito difícil. Os outros poemas, um delírio e um deleite. Obrigada. Beijo
Ler teus poemas, sempre com imagens admiráveis e com uma fluência perfeita, sempre me impactam. Há uma geografia própria em tuas palavras, onde viaja o prazer de se ler.
Grande abraço, poeta!
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