Janeiro 09, 2012

Conheci Rios Inacabados

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“I've known rivers:
I've known rivers ancient as the world and older than the
flow of human blood in human veins”

The Negro Speaks of Rivers, Langston Hughes


Mais de mil foram os rios
que do meu corpo
se fizeram velhas veias, vivo sangue que em mais de mim
noutros tantos mares foram acontecendo,
tecidas
como um pouco mais de margem,
branca pedra terrena, da corrente
desbotada,
do troço de coração da cor
do barro velho,
enegrecidos sulcos da minha mão, e mais de mil foram


as horas inacabadas,
as cartas dos tantos astros improváveis,
um país acrescentado
às cidades mal iluminadas, às casas
que me habitaram,
aos mares que me adivinharam onde nascer.
E mais que um dia, mais que mil
foram as travessias,
as todas as partes do rio
que me souberam começar
e todavia, começando
também em mim acabam.


Agosto 2011, 26

[texto inspirado no trabalho de Daniel Casares Roman, e anteriormente editado no Um horizonte nunca é definitivo, como #15]

[imagem: reprodução de Seascape (?), Pat Steir]
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11 comentários, postais, notas ou impressões:

Eliana Mora [El] disse...

...não à toa és quem és, o poeta, a pessoa. Por certo "N" milhões de outras coisas boas - e nem tanto - nos acontecem.
E tu as soubeste (d)escrever tão bem...

Carinho, sempre.
Da El

Marcelino disse...

Tantos rios cruzam nossas vidas e a literatura. Veja-se a relação visceral do elemento rio na obra de João Guimarães Rosa ("Grande Sertão: veredas") e, mais ainda, na poética de João Cbaral de Melo Neto.

manuel marques disse...

Entrei na barca e naveguei ao sabor da corrente neste rio de águas cristalinas.

Abraço.

Mar Arável disse...

... entretanto ...

é sempre bom construir pontes
para manter intactas as águas

Abraço

MIRZE disse...

"Os rios que me souberam começar, e começando, também em mim acabam"

Linda construção poética!

Beijos

Mirze

Solange disse...

o amor é um ir e vir constante, que desagua no mesmo lugar..

bjs.Sol

Tania regina Contreiras disse...

às casas
que me habitaram,
aos mares que me adivinharam onde nascer.

Léo: tão bom te ler!

Beijos,

Marli Pizzi disse...

Belíssimo poema!!

De fato somos todos rios inacabados.

Ana Lucia Franco disse...

Lindíssimo, poeta, esse olhar, esse sentir tão vasto, muito além do mero "eu". Passei para te desejar um excelente ano novo e me deparo com um poema maravilhoso. Grande Leo!

bjs.

Maria Oliveira disse...

Oi,vim conhecer seu Blog,amei e já estou super seguindo,parabêns por seu cantinho e muito sucesso aqui!

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Neuzza Pinhero disse...

viver é tão impreciso, Leonardo
os rios se desorientam
o mar se vai pra tão longe,
às vezes...
é bom que vc esteja entre nós.