março 11, 2011

Acorda o Universo, Abre a Tabacaria

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Aos que procuram, porque…

«Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.»

 de Tabacaria, Álvaro de Campos, 1928


A Tabacaria, Fernando, foi encerrada
por quem me diz
que sabe,
o como,
o quando,
o quanto vou ser feliz,
ou seja,
o quanto que sei já não está certo,
o quanto que quero já não me diz
respeito,
e tanto dá se já não sou longe
nem tão pouco perto, e se desperto
sou um tanto que já não me diz respeito;
fecharam a Tabacaria, Fernando,
dizem, e assim seja!

Pouco importa se definho,
ou se até sorrio com desdém,
há muito que sou feliz por decreto
e à parte disso
ainda não foi descoberto
o que trago cá dentro como
um eu, eu forçado, quase refém:
- Isso é arqueologia,
é manobra de diversão, um aviso
uma ordem de despejo
[há até quem diga que é mania
ou a mais pura falta de juízo]
para tudo o que fui, vasculhei e descobri,
mas que pela letra da lei não sou
nem tenho direito, eu
a ser aquele quem já fui.

Aqui já não sou, Fernando:
- Fecharam-nos a Tabacaria!

À parte disso,
confesso,
já tive, noutros tempos, os restos dos
sonhos, dos astros, e até do mundo,
de mim
um tosco todo,
e para ser mais preciso, agora
só queria reaprender um sorriso,
um começo.
Não tenho paciência para o alfarrábio
que tenho que decorar,
antes de aprender, sequer
como haverei todos os dias
de saber como por um pé no chão.
Do pouco que entendo,
do pouco que respiro,
do pouco que me contenta,
tenho um nó que não desata:
- Peço lume, um isqueiro
logo me dizem que fumar mata,
peço sol,
logo me predizem mais uma doença,
peço sossego, logo me chamam para uma mudança
[eu sei, confesso: o progresso devia ser a minha crença!]
mas esse que não sou, não tenho, nem reclamo
esse em que nem sou tido ou achado,
entre o vazio e o pleno, a cada instante mais
encolhido e precário, entre o tanto que não adivinho,
nem quero,
sinto-me cada dia mais pequeno.
[eu sei, confesso: sem ambição de tudo ter, sou um incapaz!]
E este, aquele, aqueloutro, estes quantos poucos
já só reclamam um pouco da velha tabacaria,
um livro por desfolhar,
um medo que há-de vir,
uma vontade gritar ou apenas rir,
só por rir,
e até mais ver, apenas existir,
o tanto que pouco que quanto
que seja:
- A tristeza de haver em mim um refém
já me sobeja.


Do pouco que sei, do que serei,
se sou eu que estou onde não estarei,
se estou errado,
ou é o astro que nasce noutro lado,
tanto faz, é plano finito:
- Quero de volta o dia inteiro, Fernando,
enfraquecemos aos poucos de tanto nevoeiro.
Ás cansadas, nos desgastamos
no pensar que um passo parado
também é ir andando,
e que no ar que respiro e mais me convém
há um plano concreto,
alquímico, preciso, mas secreto,
e que bem vistas as cláusulas,
o deve e o haver que me tem por destino,
essas contas de ser gente, na soma
não me servem para nada.
O que me importa, Fernando,
É que a tua Tabacaria foi encerrada
por quem me diz,
que sabe,
o onde,
o quanto,
o quando vou ser feliz,
ou seja,
que aquilo que nem sei
nem sonho, é a grande proporção
do que mais me convém.

Enquanto isso,
o quanto que sei, quero de volta;
É incerto, eu sei.
Mas o quanto que quero
ou mesmo o contrário,
é nada,
e pertence-me por inteiro,
é a minha pouca parte do dia, e
por mim, para mim
quero-a de volta.

Acende o cigarro, Fernando,
Fecharam a Tabacaria!
Acorda a manhã inteira, acorda o Universo:
- Quero-o de volta!


Março 2011, 12



[breve aparte: as palavras em itálico, são tomadas ao próprio Tabacaria, que não é necessária qualquer recomendação… já o lemos ou vivemos, pelo menos uma vez na vida.]

|imagem: reprodução de (?), Anthony Scullion|
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março 09, 2011

E o livro atravessou discretamente...

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"Quem imaginaria
a viagem, a viagem oculta que discretamente
o livro
o livro reescrito dentro do livro, atravessa
adentro, nas palavras..."

(...este texto, E atravessa o livro discretamente, continua n'O Gato da Odete, onde inicio hoje a minha participação...)

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março 07, 2011

Nave em Vento (reeditado)

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Há, na tinta onde cada mão se faz traço
Uma das duas águas dum cântico terreno.
Por cada Lua que ilumina, e onde
Por cada astro que a noite cedeu
Em forma de candeia, eu
Encontro um anjo disposto a florir
Um pouco de eternidade
Em cada escora da minha terra plana.

Há, por cada sombra que me sobeja
Um pedaço de corpo que no chão se prendeu,
O mínimo projecto de cinza que se amotina e reclama
O que nenhum vento se dispõe a soprar,
Como se o tempo, abóbada de terço
Em granito, se vertesse água mole
Numa janela, a pedra impossível em dupla fresta,
Arco quebrado virado para todas as latitudes
Que escoram cada corredor da minha terra plana.

Há, por cada palavra uma raiz
Que me resguarda o do que de mim em mim
Revelado no nervo dum espelho baço,
Se revela vago e fútil.
Triste é a palavra inútil, a que se esconde em
Radiografia menor e forma, que o meu céu portátil esconde,
O eu recluso que se alimenta da madeira que sustenta
Cada escora da minha terra plana.

Há, na sombra que me esconde a matriz
Um plano, um rascunho de hemisfério
Que me conduz nessa tempestade menor,
Do tempo a bissectriz.
O mínimo mundo, onde acontecendo,
No compromisso da manhã me esqueço que
Por vezes, já sou o que em projecto teimo,
O que digo e faço:
Um dia em tinta permanente
Onde cada mão se faz traço!


Julho 2010, 3

[breve aparte: este texto que “pela palavra que nos une no traçado do vento”, foi e continuará sempre a pertencer à Tânia regina Contreiras, a quem o entreguei]

|imagem: reprodução do livro Spheres du Monde, em biblOdissey|
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