Novembro 16, 2011

Se por engenho esses ventos, sete ventos

.













Se dessa pedra rubra
se desse objecto sem jeito
se nesse relógio que não se atrasa nem se adianta
como se bordado ao de leve no peito, fosse uma âncora
que por tanto gorgulho tão desfeito que se te fez de razão
e se mostra, e se regula
mostrador e um ponteiro, peso morto
mais leve que o ar, então

esse engenho, essa pedra de grão, não te serve:
deita-a fora, deixa-a parar
renova-a
ou deixa-a caminhar,
ou tão simplesmente, faz da asa uma margem.
Pinta no frio o que sabes do sopro do ar
limpa do fogo o que não te soube arder
e anda, pára, arranca a raiz
[afinal, é desconcertante saber
que o coração também é um pais]
e recolhe dessa cinza esmorecida
onde antes houve fogo, pedra à chuva
um pouco do mar, de verso, de céu refeito
e procura no peito
o vento engenho de aprendiz,
a desajeitada ciência que foi voz, foi um chão
foi uma carta, um sinal, um espinho contrafeito
e dele
na forma do peito, guarda
o que resta, a pedra rubra, sete os ventos
que nos fizeram por igual, e num só se nos condiz
numa só fenda de céu por lapidar,

essa pedra, cântico cor de fogo, vivo engenho
moldado à força,
do pouco da forma onde nos luz alma e não cuidamos entender,
a parte
que dessa pedra rubra se fez ausência, e

mais além, mais perto, em ti
onde me detenho e respiro,
ruína da casa, asa muda quase batendo, que
se dessa pedra, viva carne que se parte
sai envolta em caminho, vai no vento que se faz espaço
raio de sol em desalinho,
então que parta, então que venha
demore o tempo que entender, mas

não se apague cá dentro a linha e traço
o que me resta astro, passo sozinho
pedra rubra por aprender, e então
parto sem querer, mas sendo, ao caminho

vou,
senão definho.


Novembro 16, 2011

[imagem: reprodução de (?), Roi James]
.

9 comentários, postais, notas ou impressões:

manuel marques disse...

Bons ventos me empurraram para aqui.

Abraço.

Poétesse disse...

Não é de margens que estas asas precisam, é de voar alto, alto!

A sua poesia é como a castanha assada... saltita na boca!

Para quando um livro?

MIRZE disse...

Que belo poema, Leonardo!

Sete ventos, sete véus, uma nau e um só caminho - o coração lateja à espera.

Beijos, poeta!

Mirze

marlene edir severino disse...

Nos tantos ventos
a serem desvendados
guarda,
num rasgo de céu
o lume,
risco, traço, tantos versos:
descoberta a cada novo caminhar.

Confesso, ainda estou relendo cada verso e descobrindo sempre um "vento novo" a cada vez...
Lindo!

Abraço afetuoso, Leonardo!

Marlene

William Lial disse...

Leonardo, sempre muito bom com o arranjo e a escolha das palavras.

Um abraço!

Mar Arável disse...

Na vida e na morte

tudo se move

Adriana Karnal disse...

Leonardo,
estou escapando da clausura da qual me impus, mas vim rapidamente ter um momento de poesia.São sempre lindos os caminhos dos quais ora vais, ora vens. Concordo com a poetésse, não estás na hora do livro?

nydia bonetti disse...

O vento... faz a pedra pensar que tem asas. Teus poemas são caminhos. Abraço grande, Léo!

lidia-la escriba-www.deloquenosehabla.blogspot.com disse...

VAYA AMIGO...PRECIOSO BLOG!!!!Y BELLA POESÍA!
UN ABRAZO
LIDIA-LA ESCRIBA



BLOG ACTUALIZADO