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Para Lara Amaral, antes e agora, sempre presente
«Havemos de ser outros amanhã
Ou daqui a momentos ou já agora
E dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
Em que noutras horas chegámos a nascer…»
Alice Vieira
E como dizer que dos tantos desenhos que inventámos para o mundo
os poucos,
tão poucos foram os que começaram como plano da casa
se a casa é a linha do corpo, a semente da asa
que não se soube quebrar? E como dizer que
sobre os traçados da casa brejada de que se fez pele e rebento de poema,
do voo e sobejo do tempo que não nos tomou,
do quase nada,
esse nada, a pedra do vento que nos sobrou,
soubemos que tão simples,
assim tão simples
renasceu o que por debaixo da pele
e dentro da mão, tantas vezes,
se refez num pouco de tecido,
na corrente do ar, que na manhã já palavra
se refez tela em branco por remendar,
e quebradiço, do verso da cor do dia, no linho do corpo
do mosto da pele se fez céu
[e como dizer
que o mais,
o mais foram remendos do mundo na mais frágil tela em branco?]
E que urgentes, sendo outros
agora,
o perpétuo antes, o instante movimento
onde tantas vezes a luz
foi silêncio em desalinho;
Inquieto o silêncio, o sopro desigual,
em nós
o nó do mundo que já foi passo, chão, barro
e já se fez carne por um pouco de tosco traço,
que antes, no vento derramado
cá dentro
se recolheu na dobra do pão e por debaixo da pele
se respirou
e se fez céu
[e como dizer
que nenhuma das palavras que te nasceram, verso ventre dentro do corpo,
nenhuma foi em vão?]
E como dizer que dos tantos contornos que inventámos para o mundo
os poucos, nos mais simples que aconteceram
no que por debaixo da linha do coração,
na declinada dobra de linho no corpo
no mosto,
na pele que se fez céu,
a tela que agora é casa vazia, o verso imenso da asa, é onde
o céu todo se adormeceu?
Novembro 7, 2011
[imagem: reprodução de Cape Cod(?), Maureen Gallace]
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13 comentários, postais, notas ou impressões:
Querido, agora, nesse momento, sem palavras. E longe de não ter o que dizer, depois de te ler, esse quase silêncio é de reverência. Absurdo, assombroso de lindo. Saqudades da Larinha. Poetas não podiam desaparecer assim. Onde quer que ela esteja...queria que voltasse.
Abraços, Leonardo. E reverências.
Belíssimo... tanto, que a alma emudeceu!
Beijinho com admiração, Leonardo!
"O corpo é um dos nomes da alma,
Abraço.
Leonardo!
Nosso poeta que nos ensina a tecer a vida sobre uma tela em branco, sobre uma asa quebrada,esse nada, a pedra do vento que nos sobrou,
Fico em silêncio penetrando no poema e pensando....
É esse que vou reler antes de dormir, para reter o poema em mim, como uma bênção!
Forte abraço, poeta!
Mirze
Leonardo,
Fiquei esperando por este dia, o de hoje, em que eu leria alguma coisa tua para a Lara.
Penso nela, preocupo-me, mas, desta vez, eu nada escrevi a ela. Porém, pensava em você, como se você fosse o canal.
Enfim, minha espera terminou. Você escreveu para ela. Sinto-me arrepiada de feliz pelo mistério do amor e do dom.
"[e como dizer
que o mais,
o mais foram remendos do mundo na mais frágil tela em branco?]"
"[e como dizer
que nenhuma das palavras que te nasceram, verso ventre dentro do corpo,
nenhuma foi em vão?]"
Um abraço,
Suzana/LILY
E eu aqui, humildemente, no tempo diário que dedico para ler os blogs que acompanho, deparo-me com meu nomezinho bem ali, recebendo a dedicatória deste poema tão, tão lindo!
Meu doce amigo, a sua poesia é bem assim, essa linha que desenha por si só tantos contornos sublimes neste mundo poético. É sempre uma linha alada, leve, pronta para qualquer sopro desse poeta grandioso e tão querido que é vc. Seus desenhos nos encantam e nos fazem ver o mundo por diversas perspectivas.
Muito obrigada por ter me dado a alegria que me deste agora. É com um sorriso que te digo, e digo para os outros amigos que aqui lerem, que estou quieta, ajeitando minhas coisas por aqui, mas sempre presente lendo vcs, nunca me esqueço dos poetas blogueiros que tanto me ensinaram.
Beijos e abracimenso! =)
Leonardo,
convenço-me de que todas as coisas no mundo convergem...há dias já, penso incessantemente na Lara, comecei um email para ela ainda ontem, por saudade, por vontade de saber o que lhe vai na alma... hoje passo aqui e deparo-me com teus versos, imensos, alados...
do teu poema fico com a sensação, o frio na barriga e o arrepio na pele que tanto me fazem sentir de volta à casa, no mais, é silêncio... o mais respeitoso silêncio de admiração diante da tua grandeza e da Larinha, tão queridos que me são os dois!
um abraço com imenso afeto!
somos todos tela em branco e vamos colorindo de acordo com nosso ritmo...
Há tempos me perguntava onde andava Lara...
E tinha que ser o barqueiro com sua encantadora, sensível poesia pra "desencantar" a poeta.
Muito lindo tudo isso!
Fico emocionada aqui.
Beijos aos dois!
Leonardo,
Te li como a um corpo febril. Tua saudade, teu plantio, tua força na poesia. Um poeta tem seus momentos, precisa preencher-se com o tempo para transbordar. Assim os céus precisam das nuvens brancas para que os poetas possam transformá-las em papel, ou tela, como bem dizes. Lara há de voltar e acordar o sol. Lindo, lindo (,) seu português.
Leonardo
Uma grande viagem eu fiz na sua poesia. Vou ficar assíduo.
Abs
Ah quanto tempo não venho aqui, mas continua tudo lindo e maravilhoso!
Beijo, beijo!
She
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