Outubro 30, 2011

Remendo Quase

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«O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho.»

Jorge Luis Borges


Era um remendo na voz, uma sombra de nuvem
a sobra das poeiras, das cinzas que arderam em nós,
era um remendo, um traço no tempo, era o meu rosto.

Soube ser a asa tranquila, a que trouxe do corpo em escombros
do entulho que guardei por carne, cristal que não soube arder
era um dia, era nada: recordo agora, era nada

e no entanto, dentro do olhar que me guarda no que se perdeu
na placenta do dia que não ardeu, no dia que manhã se desfez
foram destinos os que ignoro, foram tantos breviários por acender
e tomo do tempo, o teu olhar, olhar que cai no mundo, o meu.


Maio 2011, 6

[texto inspirado e “lido” no trabalho de imagem Pierre Gonnord e anteriormente editado no horizonte nunca é definitivo, #12]

|imagem: reprodução de (?), Dorion Scott|
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12 comentários, postais, notas ou impressões:

Poétesse disse...

Somos todos feitos aos remendos, é a vida que nos desfaz à medida que vai passando por nós!

Sempre que venho aqui, sinto a serenidade a acolher-me de braços abertos!

Celso Mendes disse...

alguém só é o que é pela costura do que se viveu e pelos remendos do que quis se viver.

teu olhar poético adentra o espelho, meu caro.

grande abraço, Leonardo.

Rogério Pereira disse...

Um voto meu
te deixo
poeta
Regressa à asa tranquila
que já soubeste ser

MIRZE disse...

Bravíssimo, Leonardo!

Poeira ou asa você é perfeito em tudo que escreve.

Não há remendo em alguém que diz:
"na placenta do dia que não ardeu, no dia que manhã se desfez"

Isto me tocou!

Belíssimo poema!

Beijos

Mirze

manuel marques disse...

Lidas as linhas com que coseu este poema.

Abraço.

Analuz disse...

Teu remendo é asa...

Belíssimo!

Beijinho com admiração!

Bípede Falante disse...

E agora fiquei a pensar se não são as nuvens as costureiras do céu??
beijosss

Adriana Karnal disse...

Leonardo,
o tomo do tempo...essa composição de sons do "t" explodem no poeTa.
tudo, o tempo todo.

Tania regina Contreiras disse...

São muitos ecos que a tua poesia me traz, Leonardo. Fico a pensar, agora, que fui cristal que não soube arder, fico a pensar tantas coisas quando te leio...
Beijos,

Sílc disse...

Bem te ler sempre. Teu remendo sempre a voar. Obrigada meu lindo Pássaro!
Com carinho,
Sílvia

Tucha disse...

As belas imagens inspiraram uma poesia de trieteza e encantamento.

Lou Vilela disse...

Fez-me lembrar um poema, Leo:

"Corta, perfura, remenda...
Da emoção, nasce o poema
No caos, morre o poeta."
(fragmento de Imortal)

Um abraço,
Lou