Outubro 22, 2011

Razões Pequenas

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Não vejo razão, um motivo que seja
para não plantar no galho da nuvem
na matriz do coração,
um pássaro clandestino, um traço mais além
do que do dia útil sobeja.

Também no exacto astro que hoje se plantou
por toda a parte, pelos nortes determinados
por ínfima razão e raiz, distância
do todo o horizonte anunciado
o que sou em parte passageiro, um mais alguém
do corpo inteiro como se toma por parte de mim

E ainda assim,
não vejo razão, ciência ou decretos
[uma qualquer razão pequena]
para não rascunhar uma pedra, uma ponte, um mar
de invenção, talvez
um clarão vagabundo, um livro na pele, e também
um fogo preso no corpo, o reverso do rio
a toda a vida que seja.

Também na exacta palavra
se escreve
outra palavra, um derradeiro mais alguém
o mais do ar, o astro, o braço e mão
da ave clandestina que me toma por sua parte
e sendo a mais pequena razão de mim
toma-me inscrita fracção, a mais ténue das linhas, intermináveis
os traços da nuvem, a equação do corpo inteiro.

Outubro 22, 2011

[imagem: reprodução (?), Carlo Russo]
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16 comentários, postais, notas ou impressões:

Bípede Falante disse...

Fabuloso poema, Leonardo!!
beijos
BF :)

Solange disse...

há sempre uma razão..
um motivo que seja..
pra que o pássaro sem asas,
tome nosso corpo para voar..

bjs.Sol

marlene edir severino disse...

Passageiros no horizonte somos,
se ínfimas, efêmeras,
não importa,
são razões, inscritas "os traços da nuvem, a equação do corpo inteiro."
Etéreas razões!

Lindo!
[também a imagem...]

Abraço, Leonardo!

Andrea de Godoy Neto disse...

Querido poeta, vim para por minha leitura em dia, mas precisei parar neste primeiro poema...

tão lindo! Mas teus poemas são sempre tão lindos...e intensos, e profundos e têm o dom de tocar com a ponta de uma asa invisível dentro de mim, e me fazer sorrir...
e hoje eu precisava deste sorriso de reconhecimento...eu precisava muito.
Obrigada!

O maior dos meus abraços pra ti, Leonardo, amigo tão querido!

Állyssen disse...

Saudade de ler os galhos de nuvem que encontro por esse oceano de cá...

=)

Neuzza Pinhero disse...

Leonardo

agora posso vir com mais frequência ler os seus versos; já resolvi os problemas técnicos do meu Spirituals.
Que os seus desenhos nunca terminem
e que seus sonhos sigam sempre.
abraço grande e sincero

MIRZE disse...

MARAVILHA!

Ter ou não razão, e saber encontrá-la
na matriz do coração!

Uma viagem, esse poema!

Beijos, poeta!

Mirze

Eleanor disse...

:)

ERA UMA VEZ disse...

"Também na exacta palavra se escreve outra palavra"

Também não vejo razão para ficar em silêncio
quando as tuas palavras me provocam
e uma inquietação intermitente
supera a vontade de ficar quieta no meu canto

Hoje
finalmente
cheira a terra molhada
e no paredão da frente
as folhas da vinha virgem se soltam e amontoam
e as pessoas incrédulas olham de espanto o céu como se não fosse sempre assim
como se o Outono tivesse desistido
simplesmente

não
não vejo razão
é uma vez mais o eterno ciclo da vida
que ficará para além de nós

Paciente
o Verão esperou por ele
num tempo em que pouco já se espera
a razão das coisas desespera
é é tudo tão confuso

ou tão simples
como a chuva que cai
no fim de Outubro
assim
tranquilamente...

Controvento-desinventora disse...

Na voz clandestina há razões que o silêncio desconhece...sem esquecer que os traços de nuvens desenhados pelo vento são mutantes...e inscrevem aos céus os pensamentos e refletem na sombra do chão a profundidade da alma dos poetas.
Adorei o poema!!!!
Bons caminhos...

Lúcia Bezerra de Paiva disse...

Encontrei "a barca dos amantes"
e passei a amá-la...tudo aqui
traduz-se em beleza..

Vou embarcar, mas hei de voltar.
Um abraço
Lúcia

Eliziane disse...

Maravilhoso poema! Adorei!
Eliziane

www.genuinoblogdaeli.blogspot.com

Augusto Dias disse...

Muito bom! Parabéns poeta!

Um abraço!

Elisabeth Candina Laka disse...

Ese último verso!
Fabuloso.

Un abrazo

BRANCAMAR disse...

"...um traço mais além
do que do dia útil sobeja."

e é nesse traço mais além que tudo acontece, como esta maravilhosa poesia.

Beijos

Mar Arável disse...

Tudo se move

também nas palavras