Outubro 13, 2011

Este e Lado Nenhum

.














Era o corpo um astro à deriva, urgente
e por um momento,
tão constante e firme, adormeceram-me
os mares que saberão no tempo reescrever a raiz e
a margem, as chuvas de imitação
da rasura que trago
por pedra, sombra e casa:
e pela primeira vez,
esta noite
o rio fez-se silêncio.

Era o corpo, vago ponto cardeal
a sobra declinada da semente,
[há tanto do tanto tempo]
e da linha, da ruga em pele, da fogueira
e cinzas que me nasceu por corpo,
fez-se tempo, o verso refez-se tecido

e no silêncio
por temporal plural de mim
resto intacto, por sobejo de ruído
suspenso na luz, no barro, na berma espaço,
esta noite quase me grava e risca,
corpo adentro, pedra urgente
a memória do momento,
a parte da palavra onde o tempo se fez ausência:
e pela primeira vez
este tão breve, tão firme
e constante, o indecifrável firmamento
por uma vez mais, por palavra
recolhe a margem, o lugar
onde o rio, com precisão
[e momentos antes]
se fez silêncio,
onde a precisa nascente rosa da terra
com urgência, haverá de acordar.


Outubro 13, 2011

|imagem: reprodução de (?), S. Harshavardhana|
.

20 comentários, postais, notas ou impressões:

manuel marques disse...

Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do rio,onde tudo é perfeito...

Abraço.

Anónimo disse...

E se o risco fundou a palavra e vertendo água decifrou o rio....queria a inscrição da voz tardia que deu nome ao que se fez.
(adriana bandeira)
beijo grande, barqueiro!

MIRZE disse...

LEONARDO!

É pleonasmo dizer "belíssimo" tantas e tantas vezes.

Mas não tem uma só linha que não seja.



"onde a precisa nascente rosa da terra
com urgência, haverá de acordar."



Parabéns, poeta!

Beijos

Mirze

ERA UMA VEZ disse...

Visito pela primeira vez
este lugar estranho desconhecido
Chego pé ante pé
Bico do pé
como se adivinhasse
vidros no chão
ou serão estilhaços
de cristal


ou então talvez palavras que sobraram
de poemas misteriosos
por serem demasiado claras

Sinto o cheiro dos amantes
e a maresia das barcas
Vou sair de manso como entrei
repensar regressos
ajeitar meus versos

quem sabe, voltarei...

Letícia Mariano. ღ disse...

Silêncio, memória, momentos...
Estava com saudades daqui!

Abraço!

Augusto Dias disse...

Belíssimo!

Parabéns!

Um abraço!!!

lupuscanissignatus disse...

líquido

fulgor


[o luar
que se desprende
deste caudal]



*abraço*

Elisabeth Candina Laka disse...

Precioso.
Un abrazo

Mar Arável disse...

Todos os anos as flores despontam

Abraço

dade amorim disse...

Grandes promessas para o acordar desse silêncio.

Beijos amigos ao poeta.

Juliana Matos. disse...

Somos corpos em silêncio
que buscam navegar por esse mar vida!
Lindas palavras
Juliana

Luna Sanchez disse...

Apetece-me um mergulho.

;)

juan bello disse...

Onde o río se fai silencio

pequeno pedazo da pel de alguén que perde os ollos nas paredes da ausencia

onde o río deixa de ser río e se volve unha imaxe borrosa dun rostro antigo

(escríboche en galego, porque supoño que entenderás mellor)

abrazo

Juan

tina disse...

beleza

Sam disse...

neste, mora lado nenhum
em desejo algum
de ser alguma vertente
algum perfil alado
de correntezas
de um extremo ao outro,
de tantas as margens que sou
acabo sendo menuma, apenas
o meio do rio
que navega sem destigo algum.

Beijo na alma, querido :)

Anónimo disse...

rios de silêncio, rosas acordadas, que seja!
grande avraço, querido Leonardo
aos poucos vou retornando

neuza pinheiro

guru martins disse...

...e ela acordará
urgentemente...

aql abç

camino roque disse...

lástima de mi falta de idiomas. sé que me pierdo y el traductor creo que también se pierde.

pero se hizo el silencio...

JOAQUIN DOLDAN disse...

felicidades

Controvento-desinventora disse...

Fico a "terceira margem do rio" e roseanamente observo na flor do texto...essa rosa que acredito: nunca tenha dormido.

fui no fluxo do texto...

bj