Outubro 26, 2011

Do vento que se diz imperfeito

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O poema que nunca poderá ser escrito
Não está em lado nenhum mas à tua frente

António Ramos Rosa


Pudesse explicar o sedimento, a forma do vento
e não seria num poema, não

não existem manuais para construção dos pássaros
que voam, mas existem
instruções para conservar a sombra do homem
como um sopro no coração, e por coração
a forma bem revestida
a carcaça ferrugenta na forma dum outro pássaro, talvez
o conciso novelo de arame farpado
que não arde pelo fogo, nem se espalha
na palavra que o vento ateia, mas existe

o sedimento e dobra e forma no vento que não é
engenho voador; é invento ténue, é todo
o claro silêncio que escuta, as quantas pedras da palavra
mas num poema, não

existe o absoluto, a dúvida, a ciência
que explica com a máxima precisão
as incertas dimensões do tempo,
o transbordo dos precários rios que trago na mão
o remendo dos cieiros alojados no vento norte, o ventre
que traz a asa, a raiz do corpo que aos poucos apodrece
no pouco embrulho, o pouco escrito na pele adentro
no mapa do mundo meu caminho que não soube migrar
nem sabe, mas existe

porque escrito no primeiro dos livros, a palavra, a explicação
o que se diz desta mão, o quanto do vento se fez imperfeito
existe
mas num poema, não.

Outubro 26, 2011-10-26

[imagem: reprodução de (?), Carlo Russo]
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12 comentários, postais, notas ou impressões:

Analuka disse...

Ótimo poema sobre o poetar!... Abraços alados!

MIRZE disse...

Leonardo!

Você é fera! "Não existe manual para construção de pássaros"

LINDO, Isto!

Aprendi muito sobre o vento, meu grande amigo.

Beijos, poeta!

Mirze

Tania regina Contreiras disse...

Sempre me encontro aqui com os quatro elementos, e com o quinto (o coração do poeta...). É mergulho, é voo, é queimação, é marcar a terra com passos fundos - te ler, Leonardo!
è sempre, é sempre e para sempre PARABÉNS, poeta amigo!
Beijos,

Elisabeth Candina Laka disse...

Muchas veces, el poema existió mucho antes de escribirlo. Otras, sin embargo, nace al mismo tiempo que las palabras, es posterior a la palabra escrita.

Es caprichoso, muy caprichoso, el poema.

El poema y su forma.

dade amorim disse...

Na verdade, querido amigo, muito poucas coisas podem ser explicadas nesta vida.
Mas teu poema é uma beleza de forma e palavras certas.

Abraço grande.

Adriana Karnal disse...

Tenho a mania de esmiuçar poemas, catar significados na subversao da poesia...ora,ora, se o vento é imperfeito, o poema também o é. e nesse encontro entre um e outro só sopra-se beleza. Leonardo, vc existe?.

ERA UMA VEZ disse...

"Não num poema não"

Nem o vento
nem a vaga
nem a torrente
nem a voz surda do mar
nem o céu de lua cheia
nem o gesto de perdão
nem o choro de quem nasce
(mais essa visão)
nem o olhar de quem parte
nem o poder da sedução


nem a saudade de tantos...

nem a tua mão
nem o teu milionésimo beijo

...cabem num poema não...

marlene edir severino disse...

A forma que sedimenta cada um dos elementos que podem compor um poema, está no tempo presente, e se "não existem manuais para construção dos pássaros
que voam," no teu poema está bem
presente: alcei voo daqui!

Afetuoso abraço, Leonardo!

Marlene

AC disse...

No poema esboçam-se portas de acesso à palavra primitiva. Em vão.

Abraço

Gisa disse...

O coração pulsa nas tuas letras.
Um grande bj querido barqueiro

Solange disse...

temos a mania de que pra tudo tem que ter explicação..

bjs.Sol

OceanoAzul.Sonhos disse...

Entre o vento e as palavras que escrevem o poema, transbordam sentimentos. Muito bom!

Abraço Leonardo
oa.s