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O poema que nunca poderá ser escrito
Não está em lado nenhum mas à tua frente
António Ramos Rosa
Pudesse explicar o sedimento, a forma do vento
e não seria num poema, não
não existem manuais para construção dos pássaros
que voam, mas existem
instruções para conservar a sombra do homem
como um sopro no coração, e por coração
a forma bem revestida
a carcaça ferrugenta na forma dum outro pássaro, talvez
o conciso novelo de arame farpado
que não arde pelo fogo, nem se espalha
na palavra que o vento ateia, mas existe
o sedimento e dobra e forma no vento que não é
engenho voador; é invento ténue, é todo
o claro silêncio que escuta, as quantas pedras da palavra
mas num poema, não
existe o absoluto, a dúvida, a ciência
que explica com a máxima precisão
as incertas dimensões do tempo,
o transbordo dos precários rios que trago na mão
o remendo dos cieiros alojados no vento norte, o ventre
que traz a asa, a raiz do corpo que aos poucos apodrece
no pouco embrulho, o pouco escrito na pele adentro
no mapa do mundo meu caminho que não soube migrar
nem sabe, mas existe
porque escrito no primeiro dos livros, a palavra, a explicação
o que se diz desta mão, o quanto do vento se fez imperfeito
existe
mas num poema, não.
Outubro 26, 2011-10-26
[imagem: reprodução de (?), Carlo Russo]
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12 comentários, postais, notas ou impressões:
Ótimo poema sobre o poetar!... Abraços alados!
Leonardo!
Você é fera! "Não existe manual para construção de pássaros"
LINDO, Isto!
Aprendi muito sobre o vento, meu grande amigo.
Beijos, poeta!
Mirze
Sempre me encontro aqui com os quatro elementos, e com o quinto (o coração do poeta...). É mergulho, é voo, é queimação, é marcar a terra com passos fundos - te ler, Leonardo!
è sempre, é sempre e para sempre PARABÉNS, poeta amigo!
Beijos,
Muchas veces, el poema existió mucho antes de escribirlo. Otras, sin embargo, nace al mismo tiempo que las palabras, es posterior a la palabra escrita.
Es caprichoso, muy caprichoso, el poema.
El poema y su forma.
Na verdade, querido amigo, muito poucas coisas podem ser explicadas nesta vida.
Mas teu poema é uma beleza de forma e palavras certas.
Abraço grande.
Tenho a mania de esmiuçar poemas, catar significados na subversao da poesia...ora,ora, se o vento é imperfeito, o poema também o é. e nesse encontro entre um e outro só sopra-se beleza. Leonardo, vc existe?.
"Não num poema não"
Nem o vento
nem a vaga
nem a torrente
nem a voz surda do mar
nem o céu de lua cheia
nem o gesto de perdão
nem o choro de quem nasce
(mais essa visão)
nem o olhar de quem parte
nem o poder da sedução
nem a saudade de tantos...
nem a tua mão
nem o teu milionésimo beijo
...cabem num poema não...
A forma que sedimenta cada um dos elementos que podem compor um poema, está no tempo presente, e se "não existem manuais para construção dos pássaros
que voam," no teu poema está bem
presente: alcei voo daqui!
Afetuoso abraço, Leonardo!
Marlene
No poema esboçam-se portas de acesso à palavra primitiva. Em vão.
Abraço
O coração pulsa nas tuas letras.
Um grande bj querido barqueiro
temos a mania de que pra tudo tem que ter explicação..
bjs.Sol
Entre o vento e as palavras que escrevem o poema, transbordam sentimentos. Muito bom!
Abraço Leonardo
oa.s
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