março 07, 2011

Nave em Vento (reeditado)

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Há, na tinta onde cada mão se faz traço
Uma das duas águas dum cântico terreno.
Por cada Lua que ilumina, e onde
Por cada astro que a noite cedeu
Em forma de candeia, eu
Encontro um anjo disposto a florir
Um pouco de eternidade
Em cada escora da minha terra plana.

Há, por cada sombra que me sobeja
Um pedaço de corpo que no chão se prendeu,
O mínimo projecto de cinza que se amotina e reclama
O que nenhum vento se dispõe a soprar,
Como se o tempo, abóbada de terço
Em granito, se vertesse água mole
Numa janela, a pedra impossível em dupla fresta,
Arco quebrado virado para todas as latitudes
Que escoram cada corredor da minha terra plana.

Há, por cada palavra uma raiz
Que me resguarda o do que de mim em mim
Revelado no nervo dum espelho baço,
Se revela vago e fútil.
Triste é a palavra inútil, a que se esconde em
Radiografia menor e forma, que o meu céu portátil esconde,
O eu recluso que se alimenta da madeira que sustenta
Cada escora da minha terra plana.

Há, na sombra que me esconde a matriz
Um plano, um rascunho de hemisfério
Que me conduz nessa tempestade menor,
Do tempo a bissectriz.
O mínimo mundo, onde acontecendo,
No compromisso da manhã me esqueço que
Por vezes, já sou o que em projecto teimo,
O que digo e faço:
Um dia em tinta permanente
Onde cada mão se faz traço!


Julho 2010, 3

[breve aparte: este texto que “pela palavra que nos une no traçado do vento”, foi e continuará sempre a pertencer à Tânia regina Contreiras, a quem o entreguei]

|imagem: reprodução do livro Spheres du Monde, em biblOdissey|
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11 comentários:

Sam disse...

o vento me dita estardas
antes fosse aos meus ouvidos
mas rascunha em tempestade
o lamp6ejo das rosas
que sendo dos ventos
choram a tinta lânguida das brisas
que em mim, dita mais que uma direção.

Por onde seguir?
qual estrada de pó
que não seja o pó de estrelas devo me orientar?

Faço a brisa do momento
meu mais fiel navegante
com rabiscos em papel pardal
desenho meu arrebol
mais certo e mais correto
nesso porto ao longe
terra de ninguém.

Abraós, flores e estrelas...

Lily disse...

Quem escreve assim jamais é terra plana. Tu és planícies lotadas de macieiras, vales, montes, abismos, montanhas silenciosas, terra fértil, tu és cheiro eterno de vida.

Um abraço,

Suzana/LILY

Michele P. disse...

Declamei em voz alta, Leonardo.
Impecável!

Um abraço.

Gisa disse...

A cada dia que te leio, mais quero ler-te. Lindo sempre.
Um bj querido amigo

Mirze Souza disse...

"TRISTE É A PALAVRA INÚTIL"

Achei tão lindo isto, Leonardo! Assim como o poema em sua íntegra.

Beijos, poeta!

Mirze

Ana Kalil disse...

Somos terra plana, onde o traço do dia, da vida se desenha, crinado montanhas, sol, chuvas, tempestades...
O compasso do tempo, compassa nossa existênica...

Muito belo...!

Beijos

Gisela Rosa disse...

"Um dia em tinta permanente
onde cada mão se faz traço!"


Belíssimo Leonardo meu amigo.
Um abraço imenso, vou levar para o meu mural do facebook. Adoro a imagem, também.

Wania disse...

Leo

Cartografia poética de uma Nave em Vento...



Lindas palavras, linda fotografia!
Bj terno, meu amigo

Zélia Guardiano disse...

" Um dia em tinta permanente
Onde cada mão se faz traço!"
Que maravilha de imagem, meu querido Leonardo!
Maravilha, também, a confirmação da entrega dos versos à Tânia Regina, incontestavelmente merecedora de tão magnífico regalo.
Lindíssimo post, amigo!
Enorme abraço!

Adriana Godoy disse...

Leonardo, sua poesia surpreende sempre...Um encantamento sem fim. Beijo

Luciane Morais disse...

Bela poesia* Parabéns!

Abraços,
Lu