agosto 16, 2010

Fernando Pessoa 2.0

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Ei! Tu aí… sim, tu!
Quem mais? Sim, quem senão tu,
Homem corvo encurvado
De negro, de asceta disfarçado

- Deves-me um poema, uma mentira, um cigarro,
Um travo amargo da tua Tabacaria.
Deves-me um país, uma margem
Com juros pagos ao dia!

Ah, quem diria? Por aqui contabilista de arcada…
Lamento o desabafo, mas o Tejo
Sem ti já não vale mesmo nada;
É um rio vulgar,
Que como qualquer outro:
Nasce sabe deus onde e
Desemboca no mar.
Quem diria? Ressuscita e vê,
Tira as lunetas e abre os olhos,
Vê!
- Aqui já não há passagem!
Dizem que ali, vês, havia uma ou outra margem.
Mas agora não! O rio até já finge
Que sabe ler. Vê!
Levanta-te daí… sim, tu, quem mais?
Por muito que não queiras,
Do raio dos sinos da tua aldeia
Já não há sinais.
Dos nevoeiros dos simples
Dos cais de mil colunas,
Da brisa onde estou, já não, jamais,
Já não habita por aqui: zarpou!

E da praça escanzelada,
Arco, anjo e coroa para um rei defunto
Na barriga astuta dum bronze obsoleto,
Uma mão cheia de brisa que dizem que restava,
Sumiu-se. Ou seja, o que era então
Agora, nada!
Tão gasta essa tua sombra encurvada e
Quem diria, por aqui…
Aqui neste lugar onde tudo muda tão devagar, que
Sem darmos conta ainda estamos no mesmo lugar.

Ah, quem diria, sombra bendita?
Deves-me um país, uma margem
Com juros pagos ao dia!


s/d, [Abril?] 2010


|há uns tempos, de volta duns livros que teria que devolver, resgatei meia dúzia de folhas, rabiscadas, rascunhadas… alguns meros traços, mas salvei este, que anteriormente partilhei no blog Mínimo Ajuste e como tinha deixado ressalvado, esta forma de original, transladaria para esta esplanada… e em tempo de “arrumações”, alinhando A Criança Inacabada e colocando o que souber e puder em ordem, aqui fica.|

|imagem: imagem da Google Images, a qual não encontrei os devidos créditos|
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agosto 12, 2010

Nuvem Principiante

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Se soubesse como se cantam as canções de amor,
Cantava-as.

Se imaginasse como se escrevem cartas de flores
Redigia-as, mesmo que em cúmplice segredo
E para todos os efeitos, desconhecido. Tudo como se
Fosse imaginado como a mais pequena das partes da matéria.

Olharia, por fim, as estrelas
E numa língua estranha (semelhante à que se escreve em poesia)
Alinharia as palavras segundo a regra das flores
Ou seja, renascia,
Nem que fosse por um curto dia.


Ricardo S.
(1991?)
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Born a Dragon Fly, Tony Curanaj|
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agosto 11, 2010

Tarde Não Nunca

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De acordo com as rotas do Sol
E das mais ínfimas respirações do vento
Do Sul,
Alguém nasce neste momento, alguém

Da cinza da terra da raiz
Da árvore, das águas que a alimentam, nasce
Alguém neste momento,
Interminável, na doce pedra de silêncio
Nem palavras nem sons

Inesgotável sede de compor os céus
Segundo as regras dos sentidos.
(Um sorriso permanece e), do que resta

tarde não nunca



O meu ser anónimo
Desfaz-se no pó tardio da multidão. Nunca
Apenas o silêncio.


Apenas o silêncio nasce casto, ou
Assim parece. Tardia a saudade, tardia
a memória que permanece, tarde,
Assim as pedras da memória,
Como ordem da matéria,
Alguém nasce neste momento alguém, e
Do meu ser anónimo, o que resta

tarde não nunca

Ricardo S.
1992
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Dad "Selfportrait As My Father, Ron Francis|
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agosto 09, 2010

A Identificação das Açucenas

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Teorizar a paixão no verso final
Segundo uma tradução escrita em sangue, espiral.
Abraço a água

E solto os meus lírios roxos purificados em lama
Imitação da vida breve,
As formas estranhas dum livro pousado na cama.
Abraço a água

E engulo os vinhos que se tragam na concluída nuvem
Ensino aos sonhos a calma, os teus ensinamentos e nascente
Fico inquieto nesta alma.
Abraço a água

Eternizados pela mais breve desordem poesia, e perdidos
No único crepúsculo que se observa deste dia
Salto num repente, superfície da exagerada nudez fugidia
Abraço a água
Enquanto fujo de mim.


Ricardo S.
Abril, 1991
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Sanctuary 2, Kim Cogan|
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Azul, Navegar o Azul

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Tu no meu céu que arde em flor
Tu um riso incógnito igual ao meu, e
Nós, como grito rouco, erva daninha
Em céu azul,

Azul só o teu silêncio
Azul o ar e a palavra
Azul só o meu céu branco
Teu.

Tu o meu mar de riso puro, indelicado
Tu a estrela que conto devagar, no dia de que se fazem
As noites, as palavras cadentes sem fim
Os alegres silêncios que existem em mim

Azul só o teu riso e sorriso, sem
A azul tristeza em mim, sem
O azul reino que navego, em
Desalinho, o comando e ordeno,
Desajeitado o céu
Pelo mais pálido e azul silêncio
Teu.


Ricardo S.
1993
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de [?], Michael Borremans|

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agosto 07, 2010

Do Tempo

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O tempo
Que separa o tempo

Um plano que a mão me falha
Uma letra quase fuga, pequeno o sinal.
Há quem diga que a luz
Navega
O tempo. O plano
O absoluto, um calmo deserto
Uma gota de silêncio de árvore
Na terra, o tempo
Separa-me do que não penso
Digo ou escuto. A tua voz
Uma fuga serena. Uma ciência
Sem nome
Que acalma o meu sangue
Segundo.

Que separa do tempo
O coração de coisa nenhuma
Da minha voz
Navegável
E sem nome.

Ricardo S.
Silves, 1994
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Maleri (?), Poul Anker Bech|
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agosto 06, 2010

Abertura Para Um Poema Terminável

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Caminho em silêncio entre o silêncio que escuto.
Mudo, entre as paisagens das cores que passam
Ou navegam, simplesmente. E

Anunciado o vazio,
Soletro o Universo num chão diferente
Enquanto a Lua em quarto minguante
Atormenta as últimas palavras. As últimas árvores
Serão executadas antes que a estrela matinal faça
A sua primeira aparição.

Anunciado o Universo
Caminho em silêncio entre
O silêncio que escuto e abraço, perfeito
Caminho feito composto
Pela minha espontânea presença.

Ricardo S.
[Quarteira, 1991]
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Edward Minoff (?)|
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agosto 04, 2010

(Parte da) Alma

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I

Alma,
Possível a consequência deste novo amanhecer, se

Colocar as minhas mãos na terra,
O sereno partilhar liquido, do feitio do céu
Como num mergulhar vago e sentido,
Flutuar na raiz.

Enxutas as nascentes serenas, estas brancas angústias
Do que trago na alma, desde o inicio de todos
Os meus mundos
Na alma, parte ínfima da manhã cinzenta dos fins do Maio,
Feito agora, fio transparente das árvores selvagens.

E se me for permitido
Quebro o rumo do infinito
Só porque te quero abraçar, de manhã alma e

II

Quebro o rumo do infinito só porque te quero abraçar
Apago no quadro de xisto as palavras que traduzem
Por sinais invisíveis, invertidos

Sob olhar atento dos deuses (essas figuras insanas)
Redijo uma carta quase aberta às estrelas e ao sol
Em diversas línguas,
Como se os sentidos fossem a pedra que nos alimenta,
Manhã alma.

E com convicção, os meus dedos cobertos de silvas
E sulcos arados nas más terras
Subo aos montes para recompor as ordens
Dos dias ditos beijos dizíveis
E na ordem das tábuas de que se diz o mundo
Apago a palavra e sinto, a manhã
A alma.

Ricardo S.
s/d [1995?]
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Mikulas Medek (?)|
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