julho 31, 2010

Este dia, bem como a sua majorante

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Este dia, bem como a sua majorante
Acaba na linha do mar, no meu horizonte,
Na recordação da lua em quarto crescente.

Eu e o meu coração anarquista, neste dia,
(supostamente feito de ar), dançam na chama decadente
Que se acendeu faz muito, na minh’alma errante.

A frenética ansiedade, que tudo possui
O mais, não saber o que vagamente transmite
(interroga)
De que é feito o ar, o nocturno onde flutuavas’

Quebrada a esperança, a tua palavra que tudo dilui,
(diz-se que o sol é uma sombra e a chama, o zénite!)
O que é o agora,
Se o antes era aqui mesmo
Onde estavas?


Ricardo S.
30 de Abril/ 03 de Maio (1992?)
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Thirty Moon (Months), Lam Tung-pang|
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julho 29, 2010

Uma Pedra em Desordem, Quase

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à minha “petite margueritte”


este corpo poeta e tudo
construído na fragilidade diurna do papel
arquivado enquanto castidade e folha das árvore
consumido pela eternidade, rupestre figura do tempo,
por ora
pede descanso, sonho e sono

esta alma que segue cega pela poesia das cores
não vive – inútil leviandade querer
a mais vaga das pequenas pétalas do mar
a menos possível fragmento de vento segundo o tempo

este corpo
não pede nem ouros nem tábuas de prata
não pede nem campos nem eras ou searas
de universos. não!
nada mais peço, por ora.
só preciso de ar , em grão átomo
e do sorriso que em mim guardei
enquanto inacabada criança.


Ricardo S.
Abril 1993
[composição para A Criança Inacabada]


|imagem: reprodução de The Blue Scarf, Edward Minoff|
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julho 28, 2010

Um Silêncio Tatuado Dentro

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Só no silêncio se movem todas as coisas, finitas e infinitas.
Só assim os desígnios do meu corpo revelam o Ocaso e o Nascente,
A Terra firme e a Areia, as Nascentes, o Oceano mais profundo.

Disperso é a medida de que se faz o meu olhar único
Que só no mais profundo sulco terreno se dilui e brilha.
Dispersas as Árvores levemente tatuadas de sombras intemporais,
Sombras crescentes dos Dias, filhas recentes do longe demais,

No longe onde se equilibra a mais vazia distância,
O descobrir na minha, a tua mão de dedos desiguais.

Porém, se a Luz e a Névoa não são pertença do meu corpo dormente
É como se nada existisse. Nem Fogo, nem esta Cruz, nem o Mundo.

E se ao vazar da maré na praia mais distante, o meu ainda coração fizer sentido,
Esse limite da minha voz jacente, encontrará no silêncio o seu início e fim

Então dormitará quase perdida,
o que sobra de toda a minha memória insuficiente.


Ricardo S.
s/d [1995?]
[composição para A Criança Inacabada]


|imagem: reprodução de My Father Never got a Driving Licence II, Asa Stjerna|
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julho 26, 2010

Murmúrio Luz

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Curiosa a escrita do Sol
Onda de fogo, sombra de estrelas
Murmúrio enquanto luz
Esta a presença inscrita entre Deus e os homens.

Límpido o rumor aéreo
Enquanto luz que brilha na essência intacta
Dos tempos, dos seus princípios serena a solidez
Da pedra que permanece no ventre terreno.
Feliz o ar que morre na raiz,
Calmo o calor que a alimenta.
Dizem ser este o plano do meu Deus
Que não está ferido nem cansado.


Ricardo S.
s/d [1995?]
[composição para A Criança Inacabada]

[imagem: reprodução de Untitled (sparrow), Gerard Prent]
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julho 23, 2010

Pássaro Quase

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Parto do princípio que a neve verde das serras envenena os corações
E a chuva horizontal dos ribeiros coloca na terra uma haste.

Desfeitos os equívocos dos dias e das nuvens
Corta-se das folhas das árvores o produto da esperança
O todo
Como se o temor fosse feito de papel e argila.

Húmidos os cabelos de terra,
Dedos de rosmaninho e alecrim
E ventre fecundo da pedra.

Se o teu beijo for o sinal, o poema começa assim


Ricardo S.
Quarteira, 12 de Junho de 1992

|imagem: reprodução de Tryptich, 1966, Mark Rothko|


[Por estranho que possa parecer, aos poucos, irei editar nos próximos tempos na Barca dos Amantes, os textos definitivos que pretendo compilar de entre todos os que assinei como Ricardo S. e foram editados na Última Estação, entretanto encerrada com este intuito. Ainda sem uma definição da forma como pretendo apresentar este projecto de compilação, aos poucos e entremeados com os textos que regulares que vão sendo editados na Barca. Para já só poderei adiantar que o conjunto terá como titulo definitivo para o projecto, A Criança Inacabada.

Assim, não seja de estranhar que o Ricardo S. partilhe a Barca de quando em vez, até porque afinal são ambos um e o mesmo, apenas distantes no tempo… e as impressões, ou postais, muito em especial nestas edições serão sempre bem vindas, até porque a partilha na organização deste conjunto, é algo que gostaria de tornar possível]


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julho 20, 2010

A Sombra de Santa-Rita Pintor (reeditado)

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Basta! Basta um cansaço
E o livro do mundo
Escrito na pedra.
Encerrem-se nas primeiras chuvas de Outono e
Basta um cansaço; nunca o sono!

Os rascunhos na pedra,
Dos traços e planos de Deus,
Escritos nas nascentes, mão corajosa
De todas as correntes,
Só existem, [como só existe mundo que se veja]
Porque os quero ver. Eu
Velho, dos velhos hóspedes, quase pintor
De todas as obras Dele, as inacabadas!

Nos meus olhos vãos, o tudo se completa
E basta um cansaço,
Um pé incompleto, uma mão sem braço,
E chamam-me asceta!
Ao velho hóspede que habita em mim, ao seu dono
Arado, picareta,
Basta um cansaço; nunca o sono!

Dos rascunhos guardados,
Dos traços e danos meus,
Queimem-se na chama e da vida danosa,
Dos amores ausentes, que no meu chão
Nos pés que o pisaram,
Dias acabaram, tudo se consumiu.

Não adivinho que Orfeus embaraço,
Mas bastaria um cansaço,
Para que o meu corpo imundo
Escrito sem dono,
Tivesse um sono eterno? Não! Isso é coisa
Para os que adormeceram no Inferno.
A mim, como aos meus,
Contabilistas propagandistas escritores,
Bastam-me uma chama, quando por quando apagada,
Uma brasa que aquece este meu quase nada,
Este dormitar de olho aberto,
Uma haste na vida, uma corda sem dono,
Mas nada de sono! Basta um cansaço.

Indómito?
Porque o diria com arrogância
Que é nos meus olhos que a Criação
Se completa? Um cansaço basta!
Porque se dirá que é ganância
O deve e o haver,
E que o mundo só existe
Porque o quero ver, a Ele
E à sua obra inacabada?
É blasfémia, uma seta? Um cansaço basta,
Ao sono, nada! Nada,
Ao velho hóspede que abrigo em mim,
Ao doido incerto a quem se diz haver fim,
Ao dia encoberto pela mão que se esconde;
Que seja! Nada!
O meu corpo é a minha última morada,
Do qual o ar e o fogo, e até a terra se afasta,
Em todo o regato fresco de nuvem que se torna baço.
Não por mim, mas aos Deuses embaraço!

Mário, olha esta cabeça sem corpo sem nada…
E longe de mim de dizer o que não faço,
Mas nunca um chão,
Nunca um livro de pedra, fétido abandono,
Nunca um eterno sono: por mim
Um cansaço basta!

Bizarril, 2 de Dezembro 2009

|imagem: reprodução de Bodiaki, Jan Stanislawsli|

julho 18, 2010

[este texto, há dias editado no Inscrições, de Dade Amorim, junto com um outro texto meu, de imediato senti-o como diálogo e parte que não podia deixar de se apresentar, aqui, em forma de homenagem à visão do mundo e da casa, ao projecto e construção do poeta. Aguardei uns dias, efectivamente, de forma a criar uma unidade, aparentemente invisível, mas intencional conforme à minha última abordagem às Variações Vilhelm… Da Casa, e agora Habitare. Até sempre, permita o coração, Amiga Minha e Irmã de Letras]




















habitare

e tantas coisas
roçando nossas vidas sob o desgaste do teto que reflete
a luz da manhã no jardim

há quanto tempo nos protegemos de sol e chuva e dos ventos do estio
por trás das mesmas janelas de cortinas claras
que nos defendem da rua
a resguardar a sala cor de sépia

há tanto contornamos a curva das escadas
sabendo cores e penumbras e paisagens do quarto mais acima
e conversamos sobre coisas sem lugar ou utilidade
que vez ou outra esquecemos como corpos mortos numa prateleira
até que se tornem de novo uma pequena surpresa e toquem nossos lábios
com uma espécie branda de sorriso

e o que são os anos para nós
que a cada dia lemos os jornais na rede da varanda
e ainda reconhecemos os lugares das coisas
que há muito se extinguiram?


Dade Amorim
Rio de Janeiro