maio 16, 2010

Da Vida, Meu Frágil Exílio Perpétuo (reeditado)

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Estaba en la penumbra y tú me has hecho
luz. No era más que un árbol sin abril,
abrojo en campo estéril, y tu nombre,
Amor, me ha dado el agua y las acequias,
ha vestido de arriates mi destierro.

Acequias, de Francisco José Martínez Morán



Tão frágeis os contornos do mundo
Tão suave a neblina que o encerra –
Hábeis as mãos que o souberam
Contornar,
Do magma intemporal moldar
Um sopro, um sono, somente um
Pedaço de ínfimo enigma.

Tão breve o corpo que se anima,
Actor incerto no teatro das rotações do mundo,
Pele, espírito, osso
Movidos pelo sopro descontinuo
De quem
Das suas sete terras e seus sete mares
Tomou o barro frágil da eternidade
E qual palavra em movimento perpétuo

[tão frágil a intemporalidade que]
Tomou da forma
Finita, e ínfima
A eternidade da minha, tua
Presença
Inscrita no tempo –
Breve o cálice de vida;
Tomai e bebei!

Tão discreto o momento
Que respirando do mundo os seus contornos,
Aspiramos dos tempos que mais longe
Longínquos, uma ínfima parcela –
Se escondem.

Vivamos discretamente este molde
Contorno, o sopro de vida
Sul e norte de todas as fragilidades
Que se conserva na hábil mão
Que tanto nos guia, que tanto nos desorienta
Na nossa fragilidade
Do elemento. Único
E tão pouco perpétuo.

Tão provisório, o momento meu.


Castelo Rodrigo, 30 de Outubro de 2009


|enquanto olhava para as pedras, que ladeiam as estradas, esses estéreis caminhos de vida, pensava na sua força… a pedra tão imóvel, tão eterna! - Se a nossa vida é propriedade do eterno, então os momentos “que respiramos”, são apenas uma intima fracção… que assim seja!|


|imagem: reprodução de O Tempo Passa, Manabu Mabe|

maio 14, 2010

Oficinas de Escrita... e não só!


Por mais que um motivo, e por mais que se poderiam encontrar, não só a escrita, como a gestão de todas as dezenas ou mil coisas aparte das edições em blog, absorvem de tal modo, que muitos dos que experimentam, por vezes chegado um certo cansaço, abandonam…
Não é esse o caso; necessitando mais que uma paragem, um certo distanciamento da pressão inevitável e o discernimento em certos “assuntos” alheios à escrita, conto nos próximos tempos, dedicar-me, antes que esse “cansaço” surja, dedicar-me em definitivo a um projecto antigo, que aliás era o inicial, quando me aventurei neste mundo dos blogs: transportar o conceito de fanzine, tal como o conheci, para o mundo digital: Já tem nome, já está disponível para as primeiras impressões e já pode rolar à vontade, ainda que seja só um inicio… onde vai, o que fará, o que apresentará? - Ao longo dos próximos tempos, irei anunciando, ainda que não vá desistir de todos os outros blogs, sobretudo da poesia da Barca dos Amantes e da prosa do Na Linha das Fonteiras, já que e cada um à sua maneira, conseguiu encontrar a sua identidade… o método é que necessita de mudança, e não a essência!…

Assim, a minha morada mais constante nos próximos tempos será na Oficina.Casulo, que espera contar com uma empatia ainda maior, de todos os que vêem seguindo este curto percurso; e para que se solidifique ainda mais, a lavoro!

Um imenso abraço, incondicional

Bizarril, 14 de Maio

maio 13, 2010

Antes de Naufragares, Aproveita Para Nadar Calmamente













A alegria não ri como a amargura não chora – mas já falei tanto.
Agora definitivamente.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra

So easy to fall down
So easy to be crushed
As you fight to stand at all
In this never ending rush

Anne Clark, Alarm Call


Escuta.
Encosta o teu ouvido neste pedaço de terra húmida que te trago dum país distante, neste grão de terra, neste pedaço de alma como se fora a gota menos saliente da tua. Recolhe o teu espírito neste pedaço de barro do barros como se fora o grão que construiu o mundo, a amostra que Deus tomou entre as mãos, sabendo que daí tornaria possível construir esta terra de sangues e dores em seis dias, do barro ao espírito, das cinzas à alma, da terra.
Encosta suavemente nas minhas mãos os teus olhos, repara, escuta como gemem as dores dos vivos, os murmúrios serenos de quem desceu à terra para aí depositar o seu sangue, o seu corpo dorido dos dias agora repousando na imensidão do silêncio. Dos passos que se ouvem pisando a terra que não nos pertence, as lágrimas que descem suavemente como recados de clemência, perdão a quem pariu o mundo, não sem muito se arrepender.
Escuta este lugar onde as palavras não têm sombras, o tempo não separa nem significa nada, onde o tempo não planeja, não se move, não se entrega, onde o tempo não significa nada. É apenas um grão de terra, uma gota de água, uma réstia de ar, um castelo de memórias, uma montanha que se separou do tempo, uma gruta funda como o mundo onde se guardam os arquivos que teimam permanecer prisioneiros do passado, aqui e ali um sorriso, guardados nas toscas tábuas onde se guardam o que restará do teu corpo, do meu, engavetados nesta terra húmida que pertence a um país distante, a um plano sem ponto de fuga, a uma ardósia que o manto verde do musgo tapará a seu tempo, quando o tempo se separar do tempo e estes nossos corações, de coisa nenhuma.
Verte nas minhas mãos as lágrimas que um dia te faltarão, verte nos meus dedos os teus cabelos que se apagarão nas memórias, salva o que puderes enquanto esta terra não te rouba as linhas das tuas, das minhas mãos. Entrega o teu sorriso, a tua alma, todos os dias, deposita-o nos meus olhos, deposita-a em cada passo que dás, entrega-o à memória dos que te amam, entrega-a a quem não te soube amar, todos os dias. E esconde, olha para o interior deste pedaço de terra, escuta como bate em uníssono o coração de todos quantos a ocupam, em sinal de convite, a aprender a marcar o ritmo dos seus ao nosso que um dia, talvez ontem talvez amanhã, fará da nossa sua companhia; escuta-os, sente como batem, como suavemente apelam aos tremores das nossas terras, como são serenos semelhantes às águas que correm nas cascatas, em espírito, como nos apelam, como nos chamam sem pressas, como nos apelam suavemente de que antes de naufragarmos, aproveitemos para nadar calmamente, sem receio das correntes, longe da terra firme, escutando o céu, enquanto deslizamos o corpo na água sem fim, enquanto mergulhamos de olhos bem abertos nessa terra liquida, nesse ar que só afunda os que o temem, nesta terra que trago nas mãos e a depositarei num país ainda mais distante que a distância que parecemos conhecer.


Escuta.
Limpa as lágrimas que não te deixam ver as palavras, esconde nas mãos de quem te soube amar, o suor que escorre das tuas.
Recorda as travessias de quem parou o tempo, recorda os sorrisos que transgrediram as orações sufocantes de quem chora os seus mortos, recorda os sorrisos que levaremos nos lábios no nosso último suspiro, como se fora vingança intima do choro e o grito que nos traz ao mundo, ao primeiro ar depois de tantas luas nas águas, nessa placenta que nos trouxe ao mundo e nos leva de volta, dessa terra que nos haverá de resguardar, que um dia será violada por caminhos, estradas e vias rápidas, que atormentarão o sangue da nossa terra, do barro que nos moldará, das videiras que serão enxertadas de vez, como de vez será enxertada a palavra do filho desse criador, talvez desorientado, talvez rogando por nós, filhos das cinzas que se espalharão pelo ar, prisioneiros da carne que transporta o nosso corpo ansioso, revoltado, desorientado com o tempo, desorientado pelo tempo que nada significa, que nada transpõem, que nada devolve.

Responde-me.
Seremos perdoados pelo bem e pelo mal, que omitimos ou pura e simplesmente esquecemos numa qualquer confissão, numa qualquer esquina dos dias, num qualquer lugar que supúnhamos vazio? Seremos viajantes serenos dum tempo que recusa o coração da terra, que chora os seus mortos para logo mais os esquecer? Seremos donos da nossa carne, dos nossos nervos, das nossas linhas e traços na pele, dos nossos sinais furtados, como símbolos, como traços da vida e da morte, que nos reclama pacientemente? Responde-me, responderás ao final de todos os juízos, se tanto nos angustiam os presentes?

Atormenta-me.
Segue os meus passos, ilumina a minha luminosa escuridão, aproveita para nadar calmamente, cerra os olhos, coloca-os nas minhas mãos vazias, nas minhas mãos que trazem e levam no tempo a terra que revolveremos à procura dum sinal, dum carreiro que nos leve ao interior da terra, dos regatos interiores que arrefecem a lava dos mundos de cada vez que um corpo se sepulta. Escuta os meus lábios, olha as minhas mãos em concha aguardando uma hóstia invisível, escuta-os, não temo a morte, amo a vida, pois enquanto não naufraga o meu corpo, aproveito para nadar calmamente no tempo que nada significa.
No tempo que nada escuta, por quanto o escutaremos como as marcas que trazem os nossos passos na terra desse país distante, agora definitivamente?

Castelo Rodrigo, 22 de Março de 2004


|imagem: reprodução de Ex-voto dédié à sainte Rita de Cascia, 1961, Yves Klein|

maio 08, 2010

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Há muito que tinha dado como “perdido”, este texto, que com alegria o reencontrei num improvável ficheiro, e se não o devolvo à luz do dia, pelo menos reclamo um sorriso da minha memória, já distante, por me encontrar de novo, comigo!
O texto poético, de 1993, deixo-o no Diálogos Poéticos… por acontecer, tão somente por acontecer!

Abraçimenso, Ianê!

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