abril 25, 2010

.











ficava meses e meses
sem escrever palavra.

Então estralava

dedos em bálsamo
estralava, estralava
meus ossos de libélula.

Asas de nébula
abertas
eu ululava
ululava

|texto de Neuzza Pinheiro, com autorização da autora; imagem L.B. em CPT|



abril 21, 2010

.














pedra
princípio
poema
precipício
pena
pauta
pássaro
ponte
pérola

pedra/água/fogo
ovário que fecunda o tempo


|texto de Maré, transcrito com autorização da autora; imagem de L.B., com CPT|

abril 10, 2010

Presságio


















“Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlantica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.”

In A Ultima Nau, Mensagem, Fernando Pessoa



Aí, nesse sitio
Onde a terra teima em não acabar,
Onde as asas sobrevoam águas sacudidas,
Mas não por um qualquer mendicante capricho,
Poderia o mar recomeçar, e
Se pudesse acontecer,
Acontecia a tela que mão humana
Não soube como em tinta, revoltar.
Aí, onde começou o sonho
De mendigo aventureiro,
E o que se cumpriu
Foi a ordem do desiludido.

Aí, se ainda num pedaço de continente,
Houvesse uma praia, vago o lume da onda,
Uma fina brisa gelada em forma de fogueira,
E o mar inclinado, descaminho abrupto
De antigo globo terrestre,
Cru mistério, o todo acontecia
- Esquece, estranho eu, disfarçado de profeta;
Há muito que acabou o teu poema acidental,
Não passa aqui o teu rio,
Não é daqui, aquele teu Império,
Quinto ou Sexto, semelhante, quase igual!

Foi esquivo o teu dia definitivo,
Estranha a derrota do viajante, disfarçado de
Argonauta, onde se perde o primeiro dos
Esquiços, de remendados sete mares
Manifestos passos perdidos.
Atlântica a mortalha
Mensagem,
Presságio artificial
Anunciação,
Esculpiu-se o sonho,
Mas a tua gente, não!
Contrafeita a saudade, único testemunho
Mas do labirinto
Só uma vaga ideia,
Duma vaga em mar aberto,
Uma vaga mentira foi o que restou,
Do casulo das histórias, e pior
De todas
As que tínhamos por certo.

E não há cápsula do tempo que nos valha,
Para toda esta tralha velha;
- Dos livros de história, só constam
Os preparativos e as festas da vitória…
A quem, os restos de concreto?
De que vale um mapa secreto?
A quem, estes cacos e bibelots antigos?
Talvez a ninguém,
Mas já a memória me falha.
Estou longe, onde estive perto!

Colmeal Velho, 10 de Abril


|imagem: reprodução de Plaza After the Rain, Paul Cornoyer|


abril 07, 2010

Compromissos...

.
"Se a palavra que vais dizer não é mais bela do que o silêncio,
não a digas!"

Provérbio Sufi

A Barca pelo Sérgio e pelo Milton

.

De tempos em tempos, antes que se tome por bagagem mais teres e haveres, devem-se deixar para trás as boas partes que ela nos trouxe e desfrutámos… e depois, vamos em frente!
Há muito que deveria ter colocado o texto poético que inspirou o nome deste espaço, palavra de letras, sobretudo para os que desconhecem essa obra maior de dois músicos de ambos os lados do atlântico, que num só texto, melodia e mundo, “fabricaram” o que tomo por concepção da poesia: e se por estas bandas se fala pouco de “amor”, é só para que mais intensamente se viva!… e como este texto, A Barca dos Amantes, é para este humilde, nada mais ou nada menos que uma metáfora das grandes, que nos remete para o autêntico significado da poesia… metamorfose perfeita entre palavra e palavra de vida!

Obrigado, pelo muito que dizem e dirão, Caros Sérgio e Milton

Colmeal Velho, 7 de Abril


A Barca dos Amantes

Ah, quanto eu queria navegar
P'ra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria conseguir
Trazer a Barca à madrugada
E desfraldar o pano branco
Na que for terra mais amada

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no céu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
P'ra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu vi me fez vogar
De rumos meus, a cais errantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no seu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia

(Sérgio Godinho/Milton Nascimento)

|imagem: Leonardo B.trabalha no CPT, com imagens Google|