março 30, 2010

Anotações para uma Verdade Apócrifa

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No hay mejor definicion de la poesia que esta: 
“poesia es algo de lo que hacen los poetas”


Juan de Mairena, cit. Por Jorge Fazenda Lourenço


|manipulação de fotografia por 8536720.2010|

março 25, 2010

A Desordem Natural das Coisas . 1

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[de quem se procura na sombra do seu quarto, alguma vez encontrará o seu corpo a compor-se para o mais longo sono: o que não nos pertence]

Camillo de Ory

 
Por “estranho” que pareça, as regras só servem de alguma coisa se houverem excepções; acondicionado às letras de Camillo de Ory, deixo a navegar por este ribeiro, um trabalho de Yves.Lecoq, que eu pessoalmente só consigo definir, hoje, como absolutamente enigmático e amanhã… talvez igualmente enigmático!
Recomendo uma visita, por curta que seja, ao Na Linha das Fronteiras, que é ilustrado por mais trabalhos que o Yves amavelmente autorizou a edição… só por ele, vale a pena dar “um salto à esplanada das letras”… digo eu, vá, não sei!

Colmeal Velho, 25 de Março



|imagem: reprodução de oh my love, you are not wit me, Yves.Lecoq, com autorização do autor|

março 23, 2010

Simples Comunicado


















Grande ou pequena,
Dou a possível recompensa,
Dois euros e um tostão
Ou talvez um pouco mais,
A quem encontre e devolva
Nem que seja danificado,
O meu sorriso.
- Pode parecer absurdo,
Mas é o único que tinha
Por companhia,
E estava bem domesticado.

Polido e acanhado,
Bem amestrado para o mundo,
Sorridente, tanto às virtudes
Como aos sete pecados.
Triste, o mais das vezes
Por não ser tido nem achado,
Nas coisas que se levam a peito,
É esse o meu, se o virem!
Delicado como uma variz
Espetada no ouvido,
Abjurado aprendiz, e vidente
Falsificado, da falsa história
Em fogo artificial.
Fátuo sorriso imprudente,
Podia ser sorriso de toda a gente,
Não lhe desse para a incúria
De se iluminar com ares
De Aletófilo de trazer por casa.
Evidente, pior a cura
Que a doença!
- Pode parecer obscura ciência,
Mas paciência… o estupor
Tinha o maior defeito,
Ou seja, era sincero no afecto,
Quase tornando-se meu anjo dilecto,
De tão insensato!

É um facto e
Pode não ser grande o apelo,
Aliás acho até irrelevante,
Para tantas dores de parto
No cais de desembarque do mundo;
Mas sem o meu sorriso,
Não há partidas, nem chegadas
Nem ciências desastradas!
Talvez uma ou outra
Economia mais fechada
Em forma de dentadura
- Pode nem parecer grande coisa,
Foi ali comprar o tabaquinho
E já volta, ou mesmo
Que se tenha cansado e partido,
Para além do muito longe.
Não é estranho, nem invulgar,
Mas causa grande transtorno
Procurar um sorriso,
Na coluna dos desaparecidos.

Se ajudar nas buscas, sei
De nula importância histórica,
Mas com o meu sorriso estava,
Como direi?... Completo!
Tínhamos até assinado um tratado,
Uma espécie de contrato,
Sem efeito, nem defeito especial,
[Era só um pró-forma, é natural!]
Vulgar tratado de paz,
Coisa de arruaceiros, traçando
Uma linha de fronteira,
Lavrada sentença por trivial mão,
Como se fora a dum irmão de puridade!
Mas agora que se foi,
Maldito sorriso ingrato,
Em acto desesperado, eu apelo,
Já sem grande convicção,
Em simples comunicado,
Duas linhas ou um recado
- Haja alguém que tenha visto, por aí
Um sorriso com aspecto abandonado,
Vestido como um sinistro clandestino,
Mas frágil por mal tratado,
Ignorado e distante, maltrapilho
Arco quebrante,
E darei a possível recompensa:
Uma fortuna em cheque careca,
Um pouco do mar e um chá da Pérsia,
E o mais que é mais sem que se dê conta,
Um pedaço da minha refeição,
E os meus dois barcos incondicionais,
Guiados por minha mão própria
Até aos confins da minha rua.

É coisa pouca?
É o que tenho guardado,
Com afinco
Para uma qualquer contrariedade.

Bizarril, 23 de Março

|imagem: reprodução de Yellow and Gold, Mark Rothko|