julho 20, 2010

A Sombra de Santa-Rita Pintor (reeditado)

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Basta! Basta um cansaço
E o livro do mundo
Escrito na pedra.
Encerrem-se nas primeiras chuvas de Outono e
Basta um cansaço; nunca o sono!

Os rascunhos na pedra,
Dos traços e planos de Deus,
Escritos nas nascentes, mão corajosa
De todas as correntes,
Só existem, [como só existe mundo que se veja]
Porque os quero ver. Eu
Velho, dos velhos hóspedes, quase pintor
De todas as obras Dele, as inacabadas!

Nos meus olhos vãos, o tudo se completa
E basta um cansaço,
Um pé incompleto, uma mão sem braço,
E chamam-me asceta!
Ao velho hóspede que habita em mim, ao seu dono
Arado, picareta,
Basta um cansaço; nunca o sono!

Dos rascunhos guardados,
Dos traços e danos meus,
Queimem-se na chama e da vida danosa,
Dos amores ausentes, que no meu chão
Nos pés que o pisaram,
Dias acabaram, tudo se consumiu.

Não adivinho que Orfeus embaraço,
Mas bastaria um cansaço,
Para que o meu corpo imundo
Escrito sem dono,
Tivesse um sono eterno? Não! Isso é coisa
Para os que adormeceram no Inferno.
A mim, como aos meus,
Contabilistas propagandistas escritores,
Bastam-me uma chama, quando por quando apagada,
Uma brasa que aquece este meu quase nada,
Este dormitar de olho aberto,
Uma haste na vida, uma corda sem dono,
Mas nada de sono! Basta um cansaço.

Indómito?
Porque o diria com arrogância
Que é nos meus olhos que a Criação
Se completa? Um cansaço basta!
Porque se dirá que é ganância
O deve e o haver,
E que o mundo só existe
Porque o quero ver, a Ele
E à sua obra inacabada?
É blasfémia, uma seta? Um cansaço basta,
Ao sono, nada! Nada,
Ao velho hóspede que abrigo em mim,
Ao doido incerto a quem se diz haver fim,
Ao dia encoberto pela mão que se esconde;
Que seja! Nada!
O meu corpo é a minha última morada,
Do qual o ar e o fogo, e até a terra se afasta,
Em todo o regato fresco de nuvem que se torna baço.
Não por mim, mas aos Deuses embaraço!

Mário, olha esta cabeça sem corpo sem nada…
E longe de mim de dizer o que não faço,
Mas nunca um chão,
Nunca um livro de pedra, fétido abandono,
Nunca um eterno sono: por mim
Um cansaço basta!

Bizarril, 2 de Dezembro 2009

|imagem: reprodução de Bodiaki, Jan Stanislawsli|

11 comentários:

Ju Fuzetto disse...

Belissimo querido amigo!!

Tú encantas com tua poesia soprada ao vento!!!

beijos, boa semana!!!

Mari disse...

Leonardo querido...

Saudade de navegar por estas águas...então vim deixar meu carinho!

Lídia Borges disse...

Inebriante, este poema!

"Basta um cansaço; nunca o sono"

Um beijo

« Katyuscia Carvalho » disse...

Traceja na pedra os sulcos do rosto pelo caminho.
O que for réstia, aresta de sono,
a pedra descalça.

Abraço, em estima.
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Katyuscia

Neuzza Pinhero disse...

um tigre...

um tigre
quando caminha pelas pedras
vai
como pisando pétalas...

(são as pedras descalças de Katyuscia, virando pétals à sua passagem, barqueiro)

abraço de grande afeto

Cgurgel disse...

Leonardo,
febril e inebriante texto poético, o seu!
e:
dê-me o prazer da sua visita no meu mais novo blog:
http://vocabulariodaraca.wordpress.com/

abç
Cgurgel

manuel marques disse...

"O cansaço dorme em cima de uma pedra."


Abraço.

lucidreira disse...

Iremos ler com atenção e depois faremos um comentário a respeito do texto.
Com a passagem do dia 20 de julho de 1969, dia em que o homem pisou no solo lunar, ficou instituido o dia do amigo ou amizade.
Que parabenizar pelo dia e dizer, amigo e coisa pra se guardar e também disfrutar.
Abraço

Tania regina Contreiras disse...

Algo da Criação se completa, sempre, pelas tuas mãos...que escrevem. Eu contemplo. E gosto tanto.
Abraços,
Tânia

De Louca e Santa disse...

Bom dia, Leonardo, tudo bem?
Gosto muito de poesia e parece que esse seu espaço está repleto dela.
Um abraço,
Taci

dade amorim disse...

Esse texto é um pouco pintura, um pouco meditação.
Acredito mesmo que seja parte de um estilo seu. O resultado é sempre um belo poema.

Abraço amigo.