julho 23, 2010

Pássaro Quase

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Parto do princípio que a neve verde das serras envenena os corações
E a chuva horizontal dos ribeiros coloca na terra uma haste.

Desfeitos os equívocos dos dias e das nuvens
Corta-se das folhas das árvores o produto da esperança
O todo
Como se o temor fosse feito de papel e argila.

Húmidos os cabelos de terra,
Dedos de rosmaninho e alecrim
E ventre fecundo da pedra.

Se o teu beijo for o sinal, o poema começa assim


Ricardo S.
Quarteira, 12 de Junho de 1992

|imagem: reprodução de Tryptich, 1966, Mark Rothko|


[Por estranho que possa parecer, aos poucos, irei editar nos próximos tempos na Barca dos Amantes, os textos definitivos que pretendo compilar de entre todos os que assinei como Ricardo S. e foram editados na Última Estação, entretanto encerrada com este intuito. Ainda sem uma definição da forma como pretendo apresentar este projecto de compilação, aos poucos e entremeados com os textos que regulares que vão sendo editados na Barca. Para já só poderei adiantar que o conjunto terá como titulo definitivo para o projecto, A Criança Inacabada.

Assim, não seja de estranhar que o Ricardo S. partilhe a Barca de quando em vez, até porque afinal são ambos um e o mesmo, apenas distantes no tempo… e as impressões, ou postais, muito em especial nestas edições serão sempre bem vindas, até porque a partilha na organização deste conjunto, é algo que gostaria de tornar possível]


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19 comentários:

Mar Arável disse...

Para um beijo

até as palavras estateladas

se levantam

Casa de Mariah disse...

também estou em tempo de reeditar antigos textos. a cada texto antigo que leio percebo o quanto podem ser diferentes, em tempos diferentes, o significado de cada palavra.

Marcantonio disse...

"... a neve verde das serras..." Imagem admirável! Fosse só o "prolegômenos" dos dois primeiros versos e já seria um poema e tanto!

Admiro muito o Mark Rothko. Em lições de como campos de cor podem ser terraços do espírito (santo ou não).

Abraço

Lou Alma disse...

Sabes Leonardo, adoro a forma como escreves, a forma como me prendes ao papel na tentativa de imaginar todos os sentidos que posso dar às imagens nem sempre simples que transmites, gosto mesmo.

Neuzza Pinhero disse...

Leonardo querido

trago meus dedos de manjericão e hortelã
e um carinho grande suave

abraço de afeto e admiração

José Carlos Brandão disse...

Que belo resgate!

No naufrágio - também do tempo - sempre há joias preciosas.

Um grande abraço.

nydia bonetti disse...

E o poema recomeça no último verso... Há poemas que me fazem lembrar canções. O teu me lembrou João Bosco / Aldir Blanc: (não me pergunte porque:)

"Ah, recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah, recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah, recomeçar como a paixão e o fogo e o fogo"

Beijo!

Jorge Sader Filho disse...

Um mistério! Onde começam e terminam as coisas?
Muito boa reflexão, meu caro amigo.

Grande abraço,
Jorge

Ianê Mello disse...

Querido amigo Leo, saudades suas, de sua visitas. Apareça.

Belom poema do Ricardo. Parabéns à ele.

Imenso Abraço.

Lalo Arias disse...

Certas belezas doem na alma, amigo Leonardo - como essas suas palavras, por exemplo.
Um abraço ultramarino.

manuel marques disse...

O livro é um pássaro com mais de cem asas para voar ...

Abraço

angela disse...

O poeta recria o mundo, mas sua humanidade pede o beijo de consentimento.
Perturbador e bonito
beijos

Lara Amaral disse...

Que maravilhoso um poema "antigo" seu republicado, gostei muito da sua ideia, adorarei ver seus escritos mais remotos que ainda não conheço. O poema é belíssimo, Leonardo, deixou-me boquiaberta.

Jairo Cerqueira disse...

Parabéns pelo belo texto, poeta.
O beijo, que por várias vezes, em ações cinematográficas foi o finalizador, em tuas retinas poéticas foi o prefixo.
Um abraço.

Carol Timm disse...

Adoraria escrever por uma outra que ainda não encontrei...

Muito bonito esse seu outro "tu" também.

Beijos,
Carol

Sandrio cândido. disse...

cada vez mais admiravel torna se o navegar nesta barca.

Srtª Bêêh disse...

Incrível como estas poesias nos trazem abruptamente para este sutil navegar.

Flávia disse...

Leonardo ou Ricardo, aceite o beijo como sinal da minha admiração.

Parabéns. E sucesso nas reedições.

Nica Gomes disse...

Leonardo

Lendo seus poemas
sinto uma busca continua com brilho
de infância!
Um grande abraço
Nica