maio 13, 2010

Antes de Naufragares, Aproveita Para Nadar Calmamente













A alegria não ri como a amargura não chora – mas já falei tanto.
Agora definitivamente.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra

So easy to fall down
So easy to be crushed
As you fight to stand at all
In this never ending rush

Anne Clark, Alarm Call


Escuta.
Encosta o teu ouvido neste pedaço de terra húmida que te trago dum país distante, neste grão de terra, neste pedaço de alma como se fora a gota menos saliente da tua. Recolhe o teu espírito neste pedaço de barro do barros como se fora o grão que construiu o mundo, a amostra que Deus tomou entre as mãos, sabendo que daí tornaria possível construir esta terra de sangues e dores em seis dias, do barro ao espírito, das cinzas à alma, da terra.
Encosta suavemente nas minhas mãos os teus olhos, repara, escuta como gemem as dores dos vivos, os murmúrios serenos de quem desceu à terra para aí depositar o seu sangue, o seu corpo dorido dos dias agora repousando na imensidão do silêncio. Dos passos que se ouvem pisando a terra que não nos pertence, as lágrimas que descem suavemente como recados de clemência, perdão a quem pariu o mundo, não sem muito se arrepender.
Escuta este lugar onde as palavras não têm sombras, o tempo não separa nem significa nada, onde o tempo não planeja, não se move, não se entrega, onde o tempo não significa nada. É apenas um grão de terra, uma gota de água, uma réstia de ar, um castelo de memórias, uma montanha que se separou do tempo, uma gruta funda como o mundo onde se guardam os arquivos que teimam permanecer prisioneiros do passado, aqui e ali um sorriso, guardados nas toscas tábuas onde se guardam o que restará do teu corpo, do meu, engavetados nesta terra húmida que pertence a um país distante, a um plano sem ponto de fuga, a uma ardósia que o manto verde do musgo tapará a seu tempo, quando o tempo se separar do tempo e estes nossos corações, de coisa nenhuma.
Verte nas minhas mãos as lágrimas que um dia te faltarão, verte nos meus dedos os teus cabelos que se apagarão nas memórias, salva o que puderes enquanto esta terra não te rouba as linhas das tuas, das minhas mãos. Entrega o teu sorriso, a tua alma, todos os dias, deposita-o nos meus olhos, deposita-a em cada passo que dás, entrega-o à memória dos que te amam, entrega-a a quem não te soube amar, todos os dias. E esconde, olha para o interior deste pedaço de terra, escuta como bate em uníssono o coração de todos quantos a ocupam, em sinal de convite, a aprender a marcar o ritmo dos seus ao nosso que um dia, talvez ontem talvez amanhã, fará da nossa sua companhia; escuta-os, sente como batem, como suavemente apelam aos tremores das nossas terras, como são serenos semelhantes às águas que correm nas cascatas, em espírito, como nos apelam, como nos chamam sem pressas, como nos apelam suavemente de que antes de naufragarmos, aproveitemos para nadar calmamente, sem receio das correntes, longe da terra firme, escutando o céu, enquanto deslizamos o corpo na água sem fim, enquanto mergulhamos de olhos bem abertos nessa terra liquida, nesse ar que só afunda os que o temem, nesta terra que trago nas mãos e a depositarei num país ainda mais distante que a distância que parecemos conhecer.


Escuta.
Limpa as lágrimas que não te deixam ver as palavras, esconde nas mãos de quem te soube amar, o suor que escorre das tuas.
Recorda as travessias de quem parou o tempo, recorda os sorrisos que transgrediram as orações sufocantes de quem chora os seus mortos, recorda os sorrisos que levaremos nos lábios no nosso último suspiro, como se fora vingança intima do choro e o grito que nos traz ao mundo, ao primeiro ar depois de tantas luas nas águas, nessa placenta que nos trouxe ao mundo e nos leva de volta, dessa terra que nos haverá de resguardar, que um dia será violada por caminhos, estradas e vias rápidas, que atormentarão o sangue da nossa terra, do barro que nos moldará, das videiras que serão enxertadas de vez, como de vez será enxertada a palavra do filho desse criador, talvez desorientado, talvez rogando por nós, filhos das cinzas que se espalharão pelo ar, prisioneiros da carne que transporta o nosso corpo ansioso, revoltado, desorientado com o tempo, desorientado pelo tempo que nada significa, que nada transpõem, que nada devolve.

Responde-me.
Seremos perdoados pelo bem e pelo mal, que omitimos ou pura e simplesmente esquecemos numa qualquer confissão, numa qualquer esquina dos dias, num qualquer lugar que supúnhamos vazio? Seremos viajantes serenos dum tempo que recusa o coração da terra, que chora os seus mortos para logo mais os esquecer? Seremos donos da nossa carne, dos nossos nervos, das nossas linhas e traços na pele, dos nossos sinais furtados, como símbolos, como traços da vida e da morte, que nos reclama pacientemente? Responde-me, responderás ao final de todos os juízos, se tanto nos angustiam os presentes?

Atormenta-me.
Segue os meus passos, ilumina a minha luminosa escuridão, aproveita para nadar calmamente, cerra os olhos, coloca-os nas minhas mãos vazias, nas minhas mãos que trazem e levam no tempo a terra que revolveremos à procura dum sinal, dum carreiro que nos leve ao interior da terra, dos regatos interiores que arrefecem a lava dos mundos de cada vez que um corpo se sepulta. Escuta os meus lábios, olha as minhas mãos em concha aguardando uma hóstia invisível, escuta-os, não temo a morte, amo a vida, pois enquanto não naufraga o meu corpo, aproveito para nadar calmamente no tempo que nada significa.
No tempo que nada escuta, por quanto o escutaremos como as marcas que trazem os nossos passos na terra desse país distante, agora definitivamente?

Castelo Rodrigo, 22 de Março de 2004


|imagem: reprodução de Ex-voto dédié à sainte Rita de Cascia, 1961, Yves Klein|

15 comentários:

Deia disse...

BRAVO! Sem palavras dessa vez... acho que fugiram todas para o mar, banhando-se uma última vez antes de morrerem em meus lábios... Sua admiradora, Deia

Ana Lucia Franco disse...

Leo, para não naufragar devemos nadar com força e não calmamente. E não havemos de temer as águas, mas a fogueira das vaidades constantemente alimentada pela necessidade de elogios, mimos, agrados, vãos. Que isso não comprometa nossa literatura,

abrs!

Insana disse...

me afogando em suas palavras.

Bjs
Insana

manuel marques disse...

Antes de naufragar li,reli,aproveitei calmamente para me deleitar, com o que lia,depois naufraguei na doçura destas palavras.

Abraço.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Como sempre intenso sem perder a sensibilidade poética...

abraço

Angélica Lins disse...

Não mande o resgate... Porque mesmo que meu corpo esteja a naufragar , meu espírito o levará pela correnteza de tuas palavras.

Abraço imenso Leonardo :D

Mila disse...

Lindo texto como sempre, você nos prende na leitura de uma forma encantadora...
Bjs da Mila

Tânia regina Contreiras disse...

Nossa, Leonardo, lido num só gole o texto, vontade de responder a cada apelo, palavras que me faltam, e a simples vontade de, sim, nadar calmamente, antes de tudo, antes que...

Abraço profundo,
Tânia

Marcelo Novaes disse...

Leonardo,




Esta prosa poética é nado de costas que sustenta nas mãos quatro lamparinas.





Um abraço.

Mariana disse...

Que lindo este texto"...escuta os meus lábios,olha as minhas mãos...'
Divino, adorei.

angela disse...

Nadei calmamente em suas palavras.
beijos

Naty Araújo disse...

Poxa... ficou incrível... Acabei por escutar inteiramente como se tivesse falando mesmo.

Beijos

Eu Reflexo d'Alma e Meus Reflexos disse...

Leonardo...
saudades tantas
e esse emocionante post
me deixa em
lagrimas.
Nem sabes.
Vou ficar meditando sobre ele
ate que me acalme de vez o espirito.
Abraço em ti e nos teus.

Bjins entre sonhos e delírios

Despudorada-Mente Eu
Hoje
na verdade
queria despir-me.(...)Reflexo d'Alma

Batom e poesias disse...

De nada adianta nadar se não se tem para onde ir.
Relaxar e deixar-se boiar nas águas, por vezes nos salva a vida.
Bonito texto.

bj
Rossana

Lídia Borges disse...

Um misto de tranquilidade e receio, de ternura e indiferença que nos inquieta e encanta.

Um beijo meu