abril 10, 2010

Presságio


















“Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlantica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.”

In A Ultima Nau, Mensagem, Fernando Pessoa



Aí, nesse sitio
Onde a terra teima em não acabar,
Onde as asas sobrevoam águas sacudidas,
Mas não por um qualquer mendicante capricho,
Poderia o mar recomeçar, e
Se pudesse acontecer,
Acontecia a tela que mão humana
Não soube como em tinta, revoltar.
Aí, onde começou o sonho
De mendigo aventureiro,
E o que se cumpriu
Foi a ordem do desiludido.

Aí, se ainda num pedaço de continente,
Houvesse uma praia, vago o lume da onda,
Uma fina brisa gelada em forma de fogueira,
E o mar inclinado, descaminho abrupto
De antigo globo terrestre,
Cru mistério, o todo acontecia
- Esquece, estranho eu, disfarçado de profeta;
Há muito que acabou o teu poema acidental,
Não passa aqui o teu rio,
Não é daqui, aquele teu Império,
Quinto ou Sexto, semelhante, quase igual!

Foi esquivo o teu dia definitivo,
Estranha a derrota do viajante, disfarçado de
Argonauta, onde se perde o primeiro dos
Esquiços, de remendados sete mares
Manifestos passos perdidos.
Atlântica a mortalha
Mensagem,
Presságio artificial
Anunciação,
Esculpiu-se o sonho,
Mas a tua gente, não!
Contrafeita a saudade, único testemunho
Mas do labirinto
Só uma vaga ideia,
Duma vaga em mar aberto,
Uma vaga mentira foi o que restou,
Do casulo das histórias, e pior
De todas
As que tínhamos por certo.

E não há cápsula do tempo que nos valha,
Para toda esta tralha velha;
- Dos livros de história, só constam
Os preparativos e as festas da vitória…
A quem, os restos de concreto?
De que vale um mapa secreto?
A quem, estes cacos e bibelots antigos?
Talvez a ninguém,
Mas já a memória me falha.
Estou longe, onde estive perto!

Colmeal Velho, 10 de Abril


|imagem: reprodução de Plaza After the Rain, Paul Cornoyer|


10 comentários:

Erica Ferro disse...

A nós este belo poema!
Obrigada.

Lou Alma disse...

A quem se já a memória me falha. Ao longo dos tempos percorridos por vezes já me é impossivel recontruir caminhos e a própria memória me falha... e assim esqueço todo o tempo perdido. Do labirinto uma vaga ideia e para trás já não se pode voltar...
Da simplicidade das minhas palavras te digo mais uma vez que me encanta todas as voltas que dás aos teus verbos e substântivos as quais muitas vezes perco os sentidos.
Boa noite Leonardo

angela disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
angela disse...

Fiz um erro feio no comentário anterior por isso o retirei.
Bonito e melancólico poema. Fico encantada e um pouco angustiada.
beijos

José Carlos Brandão disse...

Somos argonautas, sempre a partir, nunca a chegar.
Abraços.

Olívia Yale disse...

encantou-me profundamente seu jeito delicado de escrever.
parabens por isso.

Maria Bonfá disse...

OBRIGADA PELOS VOTOS DE MELHORAS.. ESTOU BEM AGORA GRAÇAS A DEUS.. AMEI SEU POEMA..DE UMA BELEZA E DELICADEZA QUE SÓ VC SABE ESCREVER.. BEIJÃO

Bípede Falante disse...

Leonardo, estou a cada dia mais apaixonada pela sua escrita!

Taty Cascada disse...

Estimado Leonardo:
Pero no me falla la memoria como
  Estoy Muy Lejos, donde estaba yo.

Poeta amigo, esta frase es Belleza es magistral, Intensidad y Pensamiento. Lehi tres Veces El escrito a poco y me Sabena, que insistíré Creo tiempo Con Una cuarta, para mi gusto Dejar satisfecho por estas letras.
Un beso Desde El Otro Lado de los mares.

Marcelino disse...

Esse sabor de mar e de continente, traz aos nossos olhos/ouvidos a voz de um jovem do Restelo, não pensado por Camões mas continuado na memória mítica da gente de Portugal.