fevereiro 03, 2010

Onde está o teu piano vazio, Dooley Wilson?

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"You must remember this, a kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh; the fundamental things apply,
as time goes by.”

Onde se separam as ruas, para quem não as conhece ou já não se lembra que alguma vez por aqui passaram? O que nos separa do tempo, das memórias que nos foram confiadas, mesmo as que não encontramos nos mapas das cidades, nas geografias pequenas de quem se abandonou por ruas e ruas, sem que lhes tenha encontrado o principio ou o fim? Estará nessa placa desbotada pelo tempo, o início de todas as coisas que se condensam numa rua, nos passos, quase perdidos ou mesmo abandonados, pelos transeuntes anónimos de vida e vida, quase morte, e tudo o que lhe permeia? Estarão no nome das ruas que se fazem navegar, anonimamente, as respostas que se evitam, pela dor que provocam, as questões que se abandonaram há muito, quais livros que se encontram esquecidos pelo tempo, nos alfarrabistas, nos guardadores de rebanhos das memórias condensadas pelos livros do tempo?


São muitas questões, diria demasiadas, para quem se encarrega tão somente de cumprir uma promessa antiga, que uma estranha mão nos confia de cumprir. Talvez que não acredite, a quem tomar estas palavras por suas e tempo perdido, seu, que estou aqui apenas para dar um pouco de milho aos pombos que invadem essas ruas, que enxameiam de negro os tectos desta cidade, que muito dizem branca e de sete colinas, mas nesta precoce manhã de Novembro, toma das nuvens, as novenas das águas que entristecem estas ruas desertas… os pombos, diríamos que os únicos habitantes desta cidade, já há muito acordaram, e nos parapeitos das janelas esquecidas, aguardam com paciência as falhas de meteorologia, e estas duas mãos que temem o cumprimento das promessas, este sujeito cumpridor vago, no permanente silêncio incómodo, que se agasalha no zumbido distante dos cais, dos ruídos distantes do rio que hoje permanece mais envolto na outra margem, abscôndita margem que se recolhe na neblina, nevoeiro, húmus de ar e manhãs do mundo, todas de todas as manhãs vagas do mundo e nesta a promessa.


Onde se separam as ruas? Esta que parece nascer na Travessa dos Fiéis de Deus ou na Travessa da Espera, que serve de abrigo aos perdidos na manhã de chuva miúda, de abrigo a quem se desempoeira nos cafés encerrados para a vida há muito, mas de portas ainda e quase abertas, das tabernas que adiam para amanhã mesmo, o fim, o final do mundo num copo de três, uma ginja matinal, um bagaço que aquece os cigarros que ainda restam do mundo, uma beata que aguarda o fim final finado. Onde se separam estas ruas, não sei… que o digam os bombeiros e os homens da fé, quando esta cidade se enterrar noutro terramoto, esse eterno noivado que alguma vez se cumprirá…


- Procuras alguma coisa, rapaz? Perdido?… tem cuidado com essa malandragem…


Onde se separam e encontram estas ruas, para quem vem de longe e não sabe que distância percorreu até aqui, para cumprir uma promessa vaga e fácil de descumprir?


- Vá toma o raio do café, vai arrefecer… um cheirinho, para aquecer?...


O que nos separa das memórias e do tempo que nos foi confiado? O que me separa daquele piano que quatro rapazes sem idade, transportam para os cheiros ténues do mundo, para se desvanecer por completo? O que me separa daquele teclado em silêncio, daquele teclado em sólido silêncio, em acidente? O que me separa desse piano?


- Já não me serve para nada o piano… sucata! O rapaz que morava aqui no primeiro andar desapareceu do mapa há muito… deixou-me uma conta para pagar, mas isso é o menos. – Acordava todas as manhãs cedo e ia lá para baixo dar milho aos pombos, para o Camões… dizia-se… mais um café? Claro… sabe para que servem os pianos? Aquele é engraçado, mas está vazio por dentro…

O que nos separa das pequenas geografias pessoais, desses infinitos inalterados por lapsos de tempo? O que me separa daquele piano que Dooley Wilson, não sabia, nem nunca soube tocar? Esta taberna não é Rick’s Café, nem Lisboa, Casablanca… então que resta desse piano vazio que Dooley imitava a vida cantando "The fundamental things apply, as time goes by…”, raios, Mr. Dooley, que enganava o mundo, tocando o piano que nunca soube tocar, o piano vazio que ancorado na nostalgia se deixava enganar pelos dedos, pelo coração invisível de Sam, [sem saber tocar, no filme Casablanca, o piano estava vazio, sem cordas nem martelos, e a música era tocada por Elliot Carpenter, colocado atrás da câmara, para que Wilson Dooley pudesse seguir os movimentos], para uma invisível Lady Lund, que por aí, por esses tortuosos caminhos da cidade, andou por certo… e o que nos separa do tempo, se o tempo é o estado mais certo de coisa incerta, se o espaço é o mais amplo canal para quem se esconde da vida, tomando a rua deserta, agora, para desaguar na multidão matinal do mundo, da grande cidade que se concentra nas teclas naturais, sete oitavas mais uma terça menor, na certeza incompleta de quem procura nos pianos vazios a mais incómoda geografia da vida, na vida um efeito semelhante ao deslocar os martelos para uma posição de descanso, mais próxima das cordas, um sinal, una corda, que de inexistente, se conforma com a dúvida que nos separa do tempo e da memória que nos foi confiada. E se a vida prega mais partidas que chegadas, onde estará?


- Que tal vai isso, Sr. Wilson? Café?... e meio Jim Bean, claro!…


Colmeal dos Cabrais, 07 Dezembro 2009



|aparte breve: originalmente, este texto foi escrito exclusivamente para a Revista Cronópios, em jeito de agradecimento pelo seu primeiro e único acolhimento, até esta data; como nenhum vínculo nos une e a resposta de edição ou não, nunca chegou, sinto que este já pode ver a luz do dia… ou da noite, independentemente da “qualidade”! – 03.02.2010]

|imagem: reprodução de fotograma de Casablanca, com Dooley Wilson e Humphrey Bogart, em cpt por.8536720|

13 comentários:

Marisete Zanon disse...

Quase morro de rir com a idade da diabetes! Hahahah!!!
beijos querido

Lara Amaral disse...

Ainda bem que publicaste o texto. Incrível! Os laços poéticos entre as linhas são muito bem trançados. Gostei muito, Leo!

Beijos e uma ótima noite para ti!

Erica Ferro disse...

E eu me pergunto: O que nos separa de nós mesmos?

Texto profundo.

Um abraço.

Constance disse...

¿Qué nos separa? creo que nosotros mismos, de alguna forma somos nuestra propia consecuencia.
Gracias por dejarme leerte y descubrirte me ha encantado.

Besos de susurros

Ju Fuzetto disse...

Olá!!

Perfeito esse texto, impecável, profundo e avassalador!!

adorei!!!

abraço e boa Noite!!

cidda disse...

Quem tem, como tu, Leonardo, o dom de captar a alma das coisas e das pessoas escreve divinamente em verso ou em prosa. Parabéns!
Obrigada pelas palavras no meu blog. Sinto-me honrada pela visita. Tenho apreço por muitos poetas do teu Portugal.
abraços,
Cida

suellen nara disse...

existe sempre um espaço entre coisas e pessoas... entre sorrisos e sorvetes.
música.

texto perfeito.

Juliana. disse...

Oi Leo!

Que lindo texto, tão sensível e inspirador!

Adorei!

Bjos no teu coração!

Essência e Palavras disse...

As vezes meu coração é um piano... toca, toca toca... outras vezes silencia e não sei onde está... talvez nas ruas desertas.. não sei!

Por vezes não sei onde está o meu piano!

beeejos mil!

Manoel Victor disse...

Ahh, o tempo...
Parabéns pelo texto. :D
Abraço!

Regina d'Ávila disse...

Lindo Texto...Para onde vamos.. quando nos perdemos?
Vim agradecer seu carinho ...
Obrigada pela visita.
Volte..estarei esperando,
Super beijos,
Regina d´Ávila.

O Profeta disse...

Chove bem no meio do mar
São de fogo as manhãs na ilha
A seda púrpura é lençol de amantes
Os olhos roubam a virtude à maravilha

Enchi a taça com absinto
Ergui o braço, toquei uma nuvem carmim
Ensaiei um passo de dança 
Senti que os pássaros riam de mim

Senti o resto da geada em descalços pés
Calei minha viola de dois corações
Deixei entrar no peito o tamborilar de perdidas gotas
Senti o sabor sal das minhas emoções


Convido-te a partilhar a outra metade


Abraço

Ursula disse...

Leonardo B...

cuando nos perdemos de nosotros mismos.... debemos buscarnos en la mirada del otro... en su sonrisa... en el gesto de una mano tendida!!

precioso!!!

hermosos días amigo querido!!

beso!!!