fevereiro 12, 2010

Dom Sebastião da Brazileira do Chiado

(1914, mais coisa, menos coisa)















 


O Costa, por acidente da história,
Nasceu Afonso e morreu Sebastião,
Membro anónimo da Ordem do Orfeu,
Coração de manteiga, Coração Portuguez
Demasiado para um só cão.

Para o transeunte atarefado,
De Jornal amarrotado e Charuto no beiço,
Passava despercebido, nas contas de andarilho,
O pulguento canino dos salvados de Noé,
Tanto tinha de milhares, as carraças das Africas
Como tratados piolhentos da rota de Magalhães.
É dado como certo que
Havia, então, um acordo secreto entre os cães,
Pelo menos desde que há memória,
Que por cada momento da História
Haveria um rafeiro, escutando no escuro
Dos dias cinza feito breu,
As conversas que abalaram
Os rasgos e os vácuos, de vez em quando:
Escuta: é Mário é Almada é Fernando,
[ali vem o Amadeo e o Santa-Rita]
Que se juntam nas redondezas do mundo, nas mesas
Nas Arcadas,
[ao Martinho, o Pessoa só lá ia porque era fiado!]
Nas Brazileiras do Chiado.
- Sebastião, piolhento rafeiro,
Não armes sarilho e paga a despesa.

O Sebastião, com dons de vidência
Para a mais douta ciência, sabia da noite
O que o sábio adivinhava no dia.
Haviam pintores que na volta de volta,
Queriam reaver a ditosa Monarchia;
Haviam escritores, sem papel nem pena,
Assim como entravam,
Saíam de cena, sem decoro ou cortesia;
Haviam escultores, mas esses não contam!
Sebastião, não é hora de catar a pulga
Sem a menor decência.
- Não aqui pelo menos, onde se passeiam as senhoras.

Para o poeta, sem mecenas
[dois livros apenas: um de dúvidas
Outro de dividas]
Que se tivera discurso de memória,
Uma mão afagando o focinho de Dom Sebastião,
Um poema de jeito que fosse seu,
Coração de Leão, uma quadra em três,
E de sortes, tocaria um desajeitado coração.
Fosse poema em angústia ou discurso
Ignorado, apenas,
Um pedaço tosco de toda a nossa história,
A invenção do mundo no dia claro como breu,
E o resultado é o que agora vês
Maltrapilho, matraquilho, filho varão
- Não ladres agora, Sebastião,
Que se aproximam os senhores de autoridade,
Que já não aturam os amuos dum cão.

Sem coleira, mas atento
Sebastião, espectador certo, ao frio, ao calor
Ao relento, dos quintos a quinta parte
De sonho, sincero se não fora pura vaidade,
Estes malandros que fossem Gregos
Eram de Salónica, mas portugueses,
Sofrem de vaidade crónica; poetas que
Se fingem fingidores, artistas sem bisnagas
Mas de telas cheias de cores,
E músicos cheios de artrites e melancolias,
Manifestos futuristas
Do mistério único para os artistas;
Onde a luz, onde a glória,
Onde o elevador da história?
- Sem coleira, mas atento,
Sebastião, mais incomodado com as pulgas
Que com as tristezas que estes mandriões cantam,
E esbracejam e saltam, dançando as saudades
Do futuro, dos impérios inventados por padres,
Muito para além dos autos da inquisição,
Sebastião tem dom
- Escuta com atenção o que não percebe,
Mouca estátua, se desconfia,
Mas nada de grande monta, até porque
Amanhã, é bem possível que seja outro dia,
Mais uma página esquecida pelo deus do céu;
É que Sebastião, rafeiro cão da Brazileira do
Chiado, era o sexto, o mais esquecido elemento,
Das magias toscas,
Do clube dos mandriões do Orfeu!


[advertência breve e única: qualquer semelhança com a realidade só pode ser tida como delírio de autor; aliás, a Geração do Orfeu, pensa-se, também tinha dificuldades de relacionamento com “esses mesmos delírios”… ontem, maldito absinto, hoje, maldita cafeína]

Estrada da Excomungada, 12 de Fevereiro
|imagem: os créditos são inteiros para o artista que fez um post no www.tiffanycho91.wordpress.com... Agora, quem?|

17 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

O Fazes-me falta eu li na semana passada. Foi assim que descobri a Inês Pedrosa.
Tem vários trechinhos dela no blog, deste livro. Os 3 da foto chegaram hoje.
Beijo.

Vanessa Souza Moraes disse...

Dois livros apenas: dúvidas e dívidas :)
Adorei.

Batom e poesias disse...

Delícias de delírios e abençoada cafeína!!!!

Adorei cada frase.
Tens a caneta iluminada, Leonardo.
bjs

Rossana

Erica Ferro disse...

Ah, a parte do poeta foi a melhor, ao meu ver. :D

Um abraço.

ALİ EKBER ÇELİK disse...

agradável
a
Comentário

Taty Cascada disse...

Damn absenta Ayer, hoy fucking cafeína. En todos los tiempos y los tiempos se requiere de un estimulante para que viajen las letras, eso dicen ...
Un abrazo.

Sonhadora disse...

Lindissimo.Poeta
Adorei cada palavra.

Beijos

Flávia Diniz. disse...

Olááááá, querido!
nunca mais vim aqui...

Um grande abraço e um ótimo feriado

mil beijos.

Juliana. disse...

Leonardo acho que tomo duas palavras e expressões que me tocaram, foi quando se referiu ao dia e a noite, suas cores nos marcam e marcam cada detalhe deste mundo, nos mostrando segredos, imensidão, como tuas palavras!
Que belo texto!
Beijos e um ótimo fds!

Viva. disse...

Lindíssimos texto. Tão intenso e vivo. Sorvo cada palavra como se fosse a minha última; Como consegues fazer isto?? Ensina-me?

Bons dias.

Kenia Chan disse...

Poeta é tudo igual sendo cad um diferente.
Poeta entra em contradição dizendo somente a verdade.
A verdade é contraditória.
O poeta é uma dádiva.

serpai disse...

Siempre me es gratificante recorrer el mundo de los blogs… y encontrar algunos como el tuyo. También tengo la esperanza que alguna vez pueda verte por el mío, sería como compartir esta pasión por escribir que une a tantas personas y en tantos lugares...

Sergio

JMV disse...

Muito obrigado pela visita e palavras.
Tem aqui coisas bem interessantes.
um abraço

evandro mezadri disse...

Bela poesia, muito criativa, gostei demais.
Grande abraço e sucesso!

Se7e/5 disse...

Foda-se!!!!!!!!! Aqui o se7e/5 até que tem um forte desejo de foder este blog. Mas está sem saber como deve fazer. Vou ter de encontrar uma maneirinha de o foder. Mas não está nada fácil. Muito bom, muito bom. Onde já vi esta carinha? Há por aí mais dois blogues com este rostinho tão liiiiiiiiiiiindo. Lindo, lindo, lindo.
Aqui o se7e/5 quere você. Se você não quer o se7e, vai ser guerra bruta. Você vai querer, né? Vai sim.
senão vai ser uma foda dos diabos.

Kanauã Kaluanã disse...

Leonardo,

Acredito no poeta quando assume olhos incomuns. Quando foca olhares que extrapolam o cenário da normalidade padrão.
Aqui, captar o cão, protagonizar o Dom Sebastião entre os Orfeus, tirando-o do anonimato com os detalhes da tua íris, foi de uma lucidez que nem o ópio, nem o absinto nem a cafeína conseguiriam desfocar.

Adorei a naturalidade com que quebrava convenções e conveniências, e admiro os poetas que por vezes, aprendem com eles.

Junto-me a ti nesta homenagem às testemunhas da Histórias; e digo-te: assim que voltar à Brazileira do Chiado para um café com o Pessoa, vou olhar atentamente... Posso não mais visualizar os "mandriões do Orfeu", mas sei que sempre haverá por lá um olhar "sem coleira, mas atento".

Um beijo.
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Katyuscia

Paulo Assim disse...

O cão é uma colagem da americana michel keck. E tem mais.
michelkeck.blogspot.com

Como sempre, boa poesia por aqui!
:)