fevereiro 28, 2010

Desmaiada Ofélia, era tanto o calor…

.

















Ai de quem
Maldiga um poema de amor:
- Não se apercebem que para além
De tamanha dor, o raio do poema
É fita-cola para qualquer coração?

Ai de quem, mesmo que por bem,
Desdenhe dum mísero, dum
Elevado, quase altíssimo,
Punhado de letras que substitui
O melhor de que há em medicina,
Nestas questões em que o errado
Arquitecto [ah, coração incorrecto!],
Não sabe onde, em que lado, o telhado
Haverá de colocar… no chão, no tecto?
Raio de coração quase objecto,
Bicho feio, sem tirar nem pôr.
Nem alternativas medicinas, nem cimentos,
Nem barros directamente nascidos da terra,
Sabem os disparos, os tiros que sobejam
Das guerras de alecrim coração e sal
Das lágrimas que já não têm sabor.
Emprestem-lhe uma bala de prata,

Deixem em paz o poeta,
E o maldito coração que necessita
Com urgência, dum verso em reverso
Dum poema, duma centena de rascunhos
Doridos [nem que sejam fingidos!],
Qualquer coisa que rápido cure
Esta dor maldita
- Que seja um poema de amor,
Qualquer coisa que forte e breve,
Que não há mal que sempre dure
Nem toda a palavra a que se diz
Corresponde à que se escreve.

Deixem ao poeta, essa cura, essa brisa:
- É que nem de física nem química, precisa,
Para curar a mais ornada, mais simples ferida.
Medicina convencional, nestes casos,
É treta! Dói o coração
Ou outra coisa qualquer?
Chamem o Poeta!
- Que patética a figura, mas cura males
Maiores, e coisas muito para além
De todas e vulgares dores.
Depressa,
Chamem o Poeta em Pessoa!

Colmeal Velho, 26 de Fevereiro


|imagem: reprodução de La promenade 1917-18, Marc Chagall, State Russian Museum, St.Petersburg|



|aparte breve: ainda que o tome por desnecessário, transcrevo, ou seja como se diz hoje copio & colo, uma das cartas a Ofélia, escrita, presumivelmente por Fernando Pessoa, de forma a enquadrar, na medida que for possível, o texto que compus e editei hoje…

"às 4 da madrugada

Meu amorzinho, meu Bébé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apezar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha trez noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horriveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estupida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o somno. É que, sem ter febre, eu tinha delirio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil cousas disparatadas. E tudo isto não só por influencia directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de hontem arreliado com cousas, que se estão atrazando, relativas á vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermedio de meu primo, que aqui veio ás 7 1/2, uma serie de noticias desagradaveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.
Depois, estar doente exactamente numa occasião em que tenho tanta cousa urgente a fazer, tanta cousa que não posso delegar em outras pessoas.
Vês, meu Bébé adorado, qual o estado de espirito em que tenho vivido estes dias, estes dois ultimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausencia, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais hão havia eu de sentir o não te ver, meu amor, ha quasi três dias!
Diz-me uma cousa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta - a que mandaste hontem pelo Osorio? Comprehendo que estivesses tambem com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tães, que me doeu immenso ler a tua cartinha e ver o que soffrias. O que te aconteceu, amôr, além de estarmos separados? Houve qualquer cousa peor que te acontecesse? Porque fallas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando d'elle, quando não tens para isso razão nenhuma?
Estou inteiramente só - pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimonia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remedio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sêde e não tenho quem me dê qualquer cousa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.
Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma cousa.
Ai, meu amor, meu Bébé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando
19/02/1920"

18 comentários:

Nívea disse...

Quanta sensibilidade e ternura nesses versos meu querido...
Gostei muito dessas palavras. Sim, não vamos maldizer os poemas, deixemos em paz os poetas. Qua saibamos aproveitar esse bálsamo que é o poema de amor para o nosso coração.



Beijo grande,
Nii

manuel marques disse...

A palavra de um poeta é a essência do seu ser .

Abraço.

Mari disse...

Pois é Poeta,

Neste assunto do coração
ainda ninguém inventou
um analgésico que diminua a dor,
ou uma aspirina que
diminua a febre que lateja
quando o assunto é amor!

Lindo poema.
Bom domingo!
Abraços e cumplicidade,
Mari

BAR DO BARDO disse...

Há no texto um rigor evanescente. Sim, os poemas de amor, as cartas de amor, as falas e os silêncios do amor... Ai, o amor...

maré disse...

" o Poeta é um fingidor
finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente

e os que lêem o que escreve
na dor lida sentem bem
não as dores que ele teve
mas só a que eles não têm

e assim, nas calhas da roda
gira a entreter a razão
esse comboio de corda
que se chama coração"

Pessoa para, aos meus olhos, trocar a sensibilidade uma rosa
e um beijo Leonardo

Lou a esquizoffrenica disse...

Gosto especialmente do nome do blog, a Barca dos amantes, lembra-me os autos de Gil Vicente que tanto gostei de estudar. Gostei do poema de hoje mas não consegui perceber, é teu? de qualquer das formas não há melhor cura para um coração doente ou partido do que as palavras de um poeta, até para a nostalgia que nos assalta em certos dias o poeta é bom.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Rsrsrs, gente ingênua....não pensam que o poeta é um sofredor, mas também um gozador...

Mas pelo amor, para colar um coração despedaçado, vamos, chamem o poeta!

Ju Fuzetto disse...

Ah como adoro passar por aqui e me embriagar com seus lindos versos!!!

Encantador!!!!

boa semana!!!

beijos

Cynthia Kremer disse...

Leonardo, estou em falta com você e com muitos outros amigos que visitam meu blog. Lembra que tive aquele "ataque" anti-social e quis até deletar meu blog? pois é...eu sou meio de fases mesmo, nem eu me entendo!
Mas gostaria de que você soubesse de como eu gosto de ler um comentário seu no meu blog. Você é muito observador e sensível. Além de super talentoso!!
Um beijo!!

Vanessa Souza Moraes disse...

Chamem o Poeta Pessoa :)

Lindo.

Cildemer disse...

A minha estrela trouxe-me por aqui e gostei muito do que vi!

Obrigada pela partilha, alma bela e sensível;)

*** Um mar de estrelas (de plásico, é que não!)radiantes a acompahar seus passos*******

Adrielle disse...

OH Dai-nos Sensibilidade e não nos deixe ficar desdenhando tanta emoção e afetO em palavras.
BeijO!

Nydia Bonetti disse...

Fita-cola de colar coração. E ainda dizem que os poemas são inúteis... :) Beijo, Leonardo.

Adriana Godoy disse...

Como diz o Bardo: ai, o amor...lindo poema! bj

Essência e Palavras disse...

Um Poeta em Pessoa. Que lindo isso, Leo.

Seus poemas encantam!

Um beeejo , boa semana.

;)

Marcelino disse...

Lindo texto, poeta; gostaria de dizer-te em Pessoa da emoção que é ler poemas desse quilate em teu blog.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) disse...

Leonardo,
Há dias vem ensaiando visitar-te, hoje criei asas à coragem para vir-me. E quão dou-me de cara com poema em Pessoa tão alto, salto de mil pés sem para-quedas!
Cá de baixo, confiro convidar-te a conhecer o CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos), especialmente quando por lá canta-se agora um canto em intenção de Lisboa visitada a proa invisível, por isso não!

Abraço luso-mineiro,
Pedro Ramúcio.

Sil.. disse...

Maravilhosamente lindooooooooo.
O poeta tbm pode ser um sofredor...mas sem ele, como decifrar o amor?

Leonardo...eu não sinto vontade de sair do seu blog.
Eu gosto de pessoas que tem a alma que canta como a sua.
Um abraço giganteeeeeee!
Passo sempre por aqui pra sorver um pouco dessa energia linda que tem aqui!