janeiro 29, 2010

O Advento dos Inconformados





















“Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?”

In Falas de Civilização, Alberto Caeiro


Nossa mesa, raiz em fossa, meu chão,
Onde se abandona ao centro seca metade
Dum pão. Um pedaço de sangue sem Cristo,
Não é por assim te chamares, Portugal
Que existo!

Pedaço de mundo há tanto abandonado,
Por quem suas copas de árvores tomou,
E no chão nada no vazio, nada plantou.
Estou triste, como vago clamor que persiste, exausto e
Abatido. Nada do que se cumpriu
Foi o prometido!

Vagas as preces de quem teceu loas ao mar,
Às vagas, que todo o sangue dos meus tomou,
Toda a honra, toda a glória reclamada por vãos hinos,
Que se não lembram nem na hora do mais crente,
Daquele que se cumprira no destino,
E não fosse na vez de se cumprir Portugal,
Haveria quem quisesse parar.
Tropeça na carga o ladrão, que se inflama
Discursa com a mais bela chama, a negra palavra
Que engana não mil, mas um milhão.
Inflama os rudes com discurso de sério vigário,
Mas a mim não!

Nossa pedra, ruído castelo, terra oca meio sermão,
Onde se abandona a vazia mesa, justo repasto
De meio pão. Terra breve onde persiste
Meu corpo, meu sangue, minha sombra sinal;
Em nome de um falso crivo,
Há um país que jaz;
Mas tu ele, quem como nós,
Eu? Eu sobrevivo!


Colmeal Velho, 2 de Dezembro [2009]


|imagem: reprodução de The Football Players, 1908, Henri Rousseua, Solomon R. Guggenheim Museusm, N.Y.|



9 comentários:

Camilla para os menos íntimos... disse...

retribuindo a visita!
prazer sou Camilla.
seja bem vindo!
e volte sempre que desejar...

beijos no coração.

betina moraes disse...

barqueiro,


o poema é cruelmente lindo, lindo.

a crueldade se deve ao fato de ser eu uma brasileira que tem verdaderia adoração pela tua Portugal,

então é natural que eu veja a beleza de um poema que não exalta Portugal como dotado de bela crueldade.


mas é assim, reconheço que é a síndrome do estrangeiro. meu país não tem sido bem cantado e pode ser que pelos olhos de outro meu país mereça ainda os versos cor de anil de nossos antigos poetas.

há passagens extraordinárias como:

"nossa pedra, ruído castelo, terra oca, meio sermão,
onde se abandona a vazia mesa, justo repasto
de meio pão."


uma imagem forte, crua e muito bela!

Sonia Schmorantz disse...

Muito bonita sua forma de escrever, a construção do poema, a forma de demonstrar seus pensamentos.
Um abraço e ótimo fim de semana

Angélica Lins disse...

Torno-me repetitiva em dizer-te: É de tirar o fôlego ler-te!

Sinto-me honrada sempre com suas visitas.
Mais que isso...Sinto-me feliz! :)

Incontáveis abraços.

Wania disse...

Leonardo

Não basta viver num país para saber a sua realidade, é preciso senti-la no transcorrer dos dias! O Brasil tb não está sendo um bom tema para poesia, infelizmente!

Lindo desabafo, belas palavras!
Eu gosto muito da tua terra, assim como gosto da minha...apesar de tudo!


Bom final de semana para ti,
Bjão

Magna Vanuza disse...

Lindo poema!
constantes demonstrações de:
"como são belas as suas poesias!"

Ventanias de inspirações...

abraços. Magna vanuza

dade amorim disse...

Que bonito, seu poema!
Quero agradecer a presença lá no Inscrições, onde será sempre bem-vindo.

Abraço.

Kanauã Kaluanã disse...

Seu canto aqui é louvável.
Apelo por amor ao país...
O mar me traz o coro destes versos, e percebo-os tão bem... porque também da minha nação sou uma sobrevivente.

Um abraço comungado.
.
.
.
Katyuscia.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Leonardo, sua poesia tem o efeito d eum turbilhão, como se não tivesse pontuação. A gente vai num fôlego só. Que bonita e triste homenagem ao seu amado Portugal.....
E quanta emoção no reconhecimento do belo diante do injusto.