janeiro 05, 2010

Da Canção do Corvo Branco em Terra Azul




















(parte primeira - a Mário de Sá-Carneiro)

figuração morta dum sonho enevoado
Lá longe no tempo escuro
Em que ainda havia gestos belos
Mãos e braços altos num protesto
Ânsias a pedir(em) sonhos desmedidos
Fomes sem descanso e sedes sem esperança…

À memória de Mário de Sá-Carneiro, 1934, por Adolfo Casais Monteiro,


I.

Um pouco mais de asas
E era pássaro branco, quase corvo negativo,
Corpo em fato injusto, azul
Como um pouco mais de céu
No meu verbo passado presente passivo.
Um pouco mais de véu,
Era vento, era corpo vivo.

Se um pouco mais de céu, invento
Não é por mal;
É que o céu é todo igual
Sem arame voador sem nuvem sem calor.
Ser vento, vento cativo
É tudo o que poema precisa
Na palavra da margem da tinta.
E se escrevo nesta margem, por certo
Invento
- Um pouco mais de casas
Um pouco mais cativo, destas
Ruas que me servem de casulo.
E tudo é finito e finita
Fica toda a escrita suspensa
Neste beco sem fim
Azul terra para corvo branco
- Sublinha Leonardo
A letra lastro carmim.

Na ínfima e mínima impressão,
No pouco mais que o mais,
No pouco mais que o mínimo,
Um pouco mais de fim, por certo
Não é prejudicial. Mas,
Cuidado, atenção:
Um pouco mais de desejo, sim
É nevoeiro,
É diabo em cornos de carneiro,
- Mal morto quase animal.
Um pouco mais de saudade
Era Sebastião, o Dom
Pestilento, exsudado mau cheiro
Suor de saudade que nos foi fatal,
Aémero rei, oco santo, portanto,
Fernando:
- Este Império deveria caminhar;
Fingiu que foi andando!

Cuidado, mais atenção:
Aos dois corvos do escritor
Negros são, tão grosseiros
São diabos! Não reparaste, Negreiros?
- Essa barca que nos transporta
Passou tão devagar pela porta ruída
Do fundo do nosso quintal.
Um pouco mais de saudade
Era Manuel, mais estilo que decretório,
Primordial Europeu,
Viril esbanjador de ouro pimenta
Canela do aroma dinheiro,
Circense riqueza virtual,
De quem navegando a imensidade,
Afinal, não saiu do mesmo lugar;
Não foi no mar, mas em terra firme
Que o Império todo incumprido
Se foi naufragando!
Ah, Fernando
O sonho que perverte,
Só pertence aquela que o pariu!

II.

Segue o ritmo da procissão apressada,
Corvo Branco na Terra Azul!
- Era pedra em trigo mal debulhado,
O grito que se desfez do arado.
Era eco, a primeira canção de alerta
Aquela em que o sono do mundo desperta!
Corvo Branco, em sentido!
- Mesmo que não se cumpra a vida,
Pelo menos o dia quer-se cumprido!

A Lavoro!

Colmeal dos Cabrais, [de 11 Dezembro a 3 Janeiro]

|aparte breve: texto incompleto e não revisto! Ainda estou a trabalhar na segunda parte, mas não resisto e tirar esta dos ficheiros do computador|

|imagem: reprodução de Senhora Vestida de Negro, 1882, de Henrique Pousão – Museu Nacional Soares dos Reis|



12 comentários:

BAR DO BARDO disse...

Há vários achados aqui, neles me perco feliz. Gostei do corvo branco em terra azul. Bom mesmo!

alice disse...

além da poesia, escreve também um pouco de história, o que faz com que os seus poemas sejam duplamente interessantes. um abraço.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

um pouco mais de véu....e teu silêncio atento.
bpnito, forte e denso....tô na viagem

angela disse...

Apaixonei-me pelo poema, nem sei bem porque, sei que pensei em muitos outros por fazer.
Inspirador, intenso.
beijo

Essência e Palavras disse...

Belisssimo Poema.
Expressa de inúmeras formas os sentires...


Belo!Belo!


beejo

ABES - Associação Boqueirãoense de Escritores disse...

Caro Leo,

Poesia é pra sentir.
Neste seu poema as palavras quase que me saltam a tela.
Uma verdadeira quimera...

Bjs recitados,
Mirtes Waleska

José disse...

Senhor Leonarde B.
que seguia este blog
eu fico sem saber porquê
o senhor desapareceu logo

abraço,
José

Zélia disse...

Bem, tô chegando de mansinho... Letícia, do Afeto Literário, já tinha me dito há tempos para eu vir aqui. Só apareci hoje mas não direi que perdi o tempo em que aqui não estive. A poesia nos tem hora certa para chegar. Chego aqui em boa hora. Em hora e tempo de apreciar o que é bom. Voltarei outras vezes.

Parabéns pelo seu belo trabalho!
Zélia


"Se um pouco mais de céu, invento
Não é por mal;
É que o céu é todo igual"

:)

José disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
jose disse...

Obrigado Lionardo, pela rapidez com que respondeu ao meu comentário.
Que tenha um bom dia e um bem haja para si também
um abraço,
José

real republica disse...

...as filhas do Mondego a morte escura...

Anónimo disse...

adoro seu blog.
adoro sua poesia.
bjos.