janeiro 22, 2010

Da Canção do Corvo Branco da Terra Azul (II)





















(parte segunda - a Mário de Sá-Carneiro)


A Jacque,
Em tão próximo Atlântico Lugar
E pela sua homenagem a Sá-Carneiro



“Não adorei chagas nem relíquias
Ou pentes de oiro
Nem corpos carbonizados envoltos em pergaminhos.
Durante dez mil anos nunca fui um desgraçado
Rio de dia e de noite durmo”

in Não me entretive nos Mosteiros Europeus, Leonard Cohen


III.

Fosse minha, como se de mim em mim,
Essa a cabeça que haveria
De repousar no colo de Salomé, e Eu
Seu hóspede, seu náufrago em mar incerto,
Mais impossível que toda a finitude da pedra,
E Eu, parte finita em pedaço de vagabundo
Sem sair de teu colo, Salomé,
Seria esfera cabo armilar, quem sabe, o fémur mundo!
Eu outro, Eu tudo ou nada, Eu estranho
Dentro da sombra estranha, ventre infuso em flor.

Fosse carmim, de mim em mim,
E a cor do teu tronco em seiva, em sangue
Puro, da composição do impossível de tudo o que é,
Geometria mais radical, emergia!

Fosse Eu, o teu hóspede efémero, em ti naufragado,
Salomé, e sem sair do teu colo,
Atravessaria todos os astros, todos os mastros
De navios aprumados para o dia do quebranto final
- Seria a bússola desorientada para o mais vasto fogo,
Bem como toda a água do vaso do céu, para o apagar.
Seria canoa de ar, navio de guerra, e continente
Em continente, e o canal, que o haveria de atravessar.
Seria terra em barro quase por moldar, semente
De estanho. Eu, outro, Eu estranho, Eu dor
De todos os trapos em álcool que nunca juntei,
Quem sabe, Eu abjecto, Eu toda a vida,
Eu, o outro hóspede de Salomé,
Náufrago de erva daninha e da renunciada cabeça
Que a sua mão embala.
Fosse pedaço de intersecção a minha cabeça, e hesitaria
- Eu, Mário, me confessaria;
Minto! Mas daí mal ao mundo virá?
Trocar as voltas e as chagas, pequenos pecados em nada,
Pragas dos aflitos, só para fingir em aflição,
Da inutilidade da luz deste dia?

Minto! E então?



“Eu não sou eu nem sou outro
sou qualquer coisa de intermédio.”
Mário de Sá-Carneiro

IV.

Se não sou Eu, então quem? Esse que me olha

Desse lado do espelho, esbracejando como um louco,
Futilidades sem lustro, ignominias?
Esse Eu, Eu não sou! E se não sou, então quem?
Será o vagabundo do além, será sombra, será céu?
Tudo de mim parece, mas esse não sou! – Garanto;
Então quem?

Podem partir esse outro lado do espelho,
Espalhem os cacos, por prazer
- O mesmo experimentei em sete anos de azar!
Podem chamar gatos negros, bruxas e de hábeis, as fadas.
Podem comer pedaços de pão mole em dia de chuva e sol,
Chamem os encantadores de serpentes, dos limbos e das trovoadas;
Mas procurem bem nesses nadas, vasculhem no pó
Da casa; Se no telhado, nas portas sem chave, nas escadas,
Uma sombra que seja, que responda, mesmo que hesitante
- Eu estranho, Eu distante, Eu observo e duvido:
Se esse não sou eu, então quem de intermédio?

Eu distante? Eu errante? Eu amável?
Nunca! Este tédio faz de mim um projéctil!
Eu Mário, de fato e gravata, composto em chapéu de feltro
Molhado, bem como a própria chuva.
Não pensem, por isso, que serei
Menos vagabundo ou miserável!
Sou além! Será que não entendem?
E se esse no espelho nada sou,
Então a sombra, então quem
Me responde em línguas várias, das várias partes do mundo,
Para as outras partes que eu mando?

Faz-se tarde. Mário! Vou andando…

Colmeal Velho, 21 de Janeiro

|imagem: reprodução de Den ensamma giftsvampen, 1893 - August Strindberg|

9 comentários:

Iara na Janela disse...

a poesia que aqui se faz é de mel, de cana, de luz!

lindos versos!

beijos...

Angela Ladeiro disse...

muito bonitos...gostei de os ler, não o tinha feito ainda. Um abraço

Lara Amaral disse...

Belíssimo, Leonardo!

Vc entende bem o que cada um transforma em sua poesia.

Beijos, ótimo fim de semana!

angela disse...

Muito bonito o poema, reflexivo, com ritmo, gostei bastante,
abraços

Luciana disse...

Achei lindo Leonardo.
Muito profundo seu poema.


beijo

C. disse...

Uau! Mas que beleza, hein?!
Gostei mesmo do teu jeito de fazer poesia.
E sabe, Leonardo, acho que eu posso adiar mais uns dias sim.rs

Obrigada por visitar meu espacinho, apareça sempre que quiser. Farei mais visitas aqui.

Outro imenso abraço. :)

Kanauã Kaluanã disse...

Leonardo,

Conheci a poesia do Mário de Sá, a princípio, através de uma cantora brasileira de que gosto muito, a Adriana Calcanhotto, que musicou alguns de seus poemas - dentre os quais o que apresenta o trecho que deixaste aqui:

"Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio".

Mais tarde estudei o poeta na faculdade, mas percebê-lo longe das teorias literárias é o exercício mais delicioso.

"Um pouco mais de sol - eu era brasa." - meu verso preferido dele!

Teu diálogo aqui com o poeta só me causa uma impressão: a de como se percebem bem.

O meu abraço e admiração.

Katyuscia.

Nine disse...

Uau...
ainda sem fôlego...
lindíssimo...
Percebi-me entoando-o como verdade itrinseca a mim mesma...
Ser o outro do espelho, e não sê-lo ao mesmo tempo...Angústia que dá vontade de espatifar o outro 'eu' em milhões de pedaços, sem se importar com as premissas de azar...
Lembro-me do Augusto, e seus sete anos de má sorte...Lembro-me de Los Hermanos, e o "...Dispenso a previsão..."
Queremos mais é nos livrar do que nos incomoda...
Eu quero...

Ameiiiiiiiiii...
abraço.

Juliana Carla disse...

Olá Leonardo

Obrigada por estar no Braille. Vou seguir seu cantinho também. Sempre que puder passarei aqui para deixar o meu carinho.

Abraço