agosto 16, 2010

Fernando Pessoa 2.0

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Ei! Tu aí… sim, tu!
Quem mais? Sim, quem senão tu,
Homem corvo encurvado
De negro, de asceta disfarçado

- Deves-me um poema, uma mentira, um cigarro,
Um travo amargo da tua Tabacaria.
Deves-me um país, uma margem
Com juros pagos ao dia!

Ah, quem diria? Por aqui contabilista de arcada…
Lamento o desabafo, mas o Tejo
Sem ti já não vale mesmo nada;
É um rio vulgar,
Que como qualquer outro:
Nasce sabe deus onde e
Desemboca no mar.
Quem diria? Ressuscita e vê,
Tira as lunetas e abre os olhos,
Vê!
- Aqui já não há passagem!
Dizem que ali, vês, havia uma ou outra margem.
Mas agora não! O rio até já finge
Que sabe ler. Vê!
Levanta-te daí… sim, tu, quem mais?
Por muito que não queiras,
Do raio dos sinos da tua aldeia
Já não há sinais.
Dos nevoeiros dos simples
Dos cais de mil colunas,
Da brisa onde estou, já não, jamais,
Já não habita por aqui: zarpou!

E da praça escanzelada,
Arco, anjo e coroa para um rei defunto
Na barriga astuta dum bronze obsoleto,
Uma mão cheia de brisa que dizem que restava,
Sumiu-se. Ou seja, o que era então
Agora, nada!
Tão gasta essa tua sombra encurvada e
Quem diria, por aqui…
Aqui neste lugar onde tudo muda tão devagar, que
Sem darmos conta ainda estamos no mesmo lugar.

Ah, quem diria, sombra bendita?
Deves-me um país, uma margem
Com juros pagos ao dia!


s/d, [Abril?] 2010


|há uns tempos, de volta duns livros que teria que devolver, resgatei meia dúzia de folhas, rabiscadas, rascunhadas… alguns meros traços, mas salvei este, que anteriormente partilhei no blog Mínimo Ajuste e como tinha deixado ressalvado, esta forma de original, transladaria para esta esplanada… e em tempo de “arrumações”, alinhando A Criança Inacabada e colocando o que souber e puder em ordem, aqui fica.|

|imagem: imagem da Google Images, a qual não encontrei os devidos créditos|
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agosto 12, 2010

Nuvem Principiante

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Se soubesse como se cantam as canções de amor,
Cantava-as.

Se imaginasse como se escrevem cartas de flores
Redigia-as, mesmo que em cúmplice segredo
E para todos os efeitos, desconhecido. Tudo como se
Fosse imaginado como a mais pequena das partes da matéria.

Olharia, por fim, as estrelas
E numa língua estranha (semelhante à que se escreve em poesia)
Alinharia as palavras segundo a regra das flores
Ou seja, renascia,
Nem que fosse por um curto dia.


Ricardo S.
(1991?)
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Born a Dragon Fly, Tony Curanaj|
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agosto 11, 2010

Tarde Não Nunca

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De acordo com as rotas do Sol
E das mais ínfimas respirações do vento
Do Sul,
Alguém nasce neste momento, alguém

Da cinza da terra da raiz
Da árvore, das águas que a alimentam, nasce
Alguém neste momento,
Interminável, na doce pedra de silêncio
Nem palavras nem sons

Inesgotável sede de compor os céus
Segundo as regras dos sentidos.
(Um sorriso permanece e), do que resta

tarde não nunca



O meu ser anónimo
Desfaz-se no pó tardio da multidão. Nunca
Apenas o silêncio.


Apenas o silêncio nasce casto, ou
Assim parece. Tardia a saudade, tardia
a memória que permanece, tarde,
Assim as pedras da memória,
Como ordem da matéria,
Alguém nasce neste momento alguém, e
Do meu ser anónimo, o que resta

tarde não nunca

Ricardo S.
1992
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Dad "Selfportrait As My Father, Ron Francis|
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agosto 09, 2010

A Identificação das Açucenas

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Teorizar a paixão no verso final
Segundo uma tradução escrita em sangue, espiral.
Abraço a água

E solto os meus lírios roxos purificados em lama
Imitação da vida breve,
As formas estranhas dum livro pousado na cama.
Abraço a água

E engulo os vinhos que se tragam na concluída nuvem
Ensino aos sonhos a calma, os teus ensinamentos e nascente
Fico inquieto nesta alma.
Abraço a água

Eternizados pela mais breve desordem poesia, e perdidos
No único crepúsculo que se observa deste dia
Salto num repente, superfície da exagerada nudez fugidia
Abraço a água
Enquanto fujo de mim.


Ricardo S.
Abril, 1991
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Sanctuary 2, Kim Cogan|
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Azul, Navegar o Azul

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Tu no meu céu que arde em flor
Tu um riso incógnito igual ao meu, e
Nós, como grito rouco, erva daninha
Em céu azul,

Azul só o teu silêncio
Azul o ar e a palavra
Azul só o meu céu branco
Teu.

Tu o meu mar de riso puro, indelicado
Tu a estrela que conto devagar, no dia de que se fazem
As noites, as palavras cadentes sem fim
Os alegres silêncios que existem em mim

Azul só o teu riso e sorriso, sem
A azul tristeza em mim, sem
O azul reino que navego, em
Desalinho, o comando e ordeno,
Desajeitado o céu
Pelo mais pálido e azul silêncio
Teu.


Ricardo S.
1993
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de [?], Michael Borremans|

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agosto 07, 2010

Do Tempo

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O tempo
Que separa o tempo

Um plano que a mão me falha
Uma letra quase fuga, pequeno o sinal.
Há quem diga que a luz
Navega
O tempo. O plano
O absoluto, um calmo deserto
Uma gota de silêncio de árvore
Na terra, o tempo
Separa-me do que não penso
Digo ou escuto. A tua voz
Uma fuga serena. Uma ciência
Sem nome
Que acalma o meu sangue
Segundo.

Que separa do tempo
O coração de coisa nenhuma
Da minha voz
Navegável
E sem nome.

Ricardo S.
Silves, 1994
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Maleri (?), Poul Anker Bech|
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agosto 06, 2010

Abertura Para Um Poema Terminável

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Caminho em silêncio entre o silêncio que escuto.
Mudo, entre as paisagens das cores que passam
Ou navegam, simplesmente. E

Anunciado o vazio,
Soletro o Universo num chão diferente
Enquanto a Lua em quarto minguante
Atormenta as últimas palavras. As últimas árvores
Serão executadas antes que a estrela matinal faça
A sua primeira aparição.

Anunciado o Universo
Caminho em silêncio entre
O silêncio que escuto e abraço, perfeito
Caminho feito composto
Pela minha espontânea presença.

Ricardo S.
[Quarteira, 1991]
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Edward Minoff (?)|
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agosto 04, 2010

(Parte da) Alma

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I

Alma,
Possível a consequência deste novo amanhecer, se

Colocar as minhas mãos na terra,
O sereno partilhar liquido, do feitio do céu
Como num mergulhar vago e sentido,
Flutuar na raiz.

Enxutas as nascentes serenas, estas brancas angústias
Do que trago na alma, desde o inicio de todos
Os meus mundos
Na alma, parte ínfima da manhã cinzenta dos fins do Maio,
Feito agora, fio transparente das árvores selvagens.

E se me for permitido
Quebro o rumo do infinito
Só porque te quero abraçar, de manhã alma e

II

Quebro o rumo do infinito só porque te quero abraçar
Apago no quadro de xisto as palavras que traduzem
Por sinais invisíveis, invertidos

Sob olhar atento dos deuses (essas figuras insanas)
Redijo uma carta quase aberta às estrelas e ao sol
Em diversas línguas,
Como se os sentidos fossem a pedra que nos alimenta,
Manhã alma.

E com convicção, os meus dedos cobertos de silvas
E sulcos arados nas más terras
Subo aos montes para recompor as ordens
Dos dias ditos beijos dizíveis
E na ordem das tábuas de que se diz o mundo
Apago a palavra e sinto, a manhã
A alma.

Ricardo S.
s/d [1995?]
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Mikulas Medek (?)|
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julho 31, 2010

Este dia, bem como a sua majorante

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Este dia, bem como a sua majorante
Acaba na linha do mar, no meu horizonte,
Na recordação da lua em quarto crescente.

Eu e o meu coração anarquista, neste dia,
(supostamente feito de ar), dançam na chama decadente
Que se acendeu faz muito, na minh’alma errante.

A frenética ansiedade, que tudo possui
O mais, não saber o que vagamente transmite
(interroga)
De que é feito o ar, o nocturno onde flutuavas’

Quebrada a esperança, a tua palavra que tudo dilui,
(diz-se que o sol é uma sombra e a chama, o zénite!)
O que é o agora,
Se o antes era aqui mesmo
Onde estavas?


Ricardo S.
30 de Abril/ 03 de Maio (1992?)
(composição para A Criança Inacabada)

|imagem: reprodução de Thirty Moon (Months), Lam Tung-pang|
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julho 29, 2010

Uma Pedra em Desordem, Quase

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à minha “petite margueritte”


este corpo poeta e tudo
construído na fragilidade diurna do papel
arquivado enquanto castidade e folha das árvore
consumido pela eternidade, rupestre figura do tempo,
por ora
pede descanso, sonho e sono

esta alma que segue cega pela poesia das cores
não vive – inútil leviandade querer
a mais vaga das pequenas pétalas do mar
a menos possível fragmento de vento segundo o tempo

este corpo
não pede nem ouros nem tábuas de prata
não pede nem campos nem eras ou searas
de universos. não!
nada mais peço, por ora.
só preciso de ar , em grão átomo
e do sorriso que em mim guardei
enquanto inacabada criança.


Ricardo S.
Abril 1993
[composição para A Criança Inacabada]


|imagem: reprodução de The Blue Scarf, Edward Minoff|
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julho 28, 2010

Um Silêncio Tatuado Dentro

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Só no silêncio se movem todas as coisas, finitas e infinitas.
Só assim os desígnios do meu corpo revelam o Ocaso e o Nascente,
A Terra firme e a Areia, as Nascentes, o Oceano mais profundo.

Disperso é a medida de que se faz o meu olhar único
Que só no mais profundo sulco terreno se dilui e brilha.
Dispersas as Árvores levemente tatuadas de sombras intemporais,
Sombras crescentes dos Dias, filhas recentes do longe demais,

No longe onde se equilibra a mais vazia distância,
O descobrir na minha, a tua mão de dedos desiguais.

Porém, se a Luz e a Névoa não são pertença do meu corpo dormente
É como se nada existisse. Nem Fogo, nem esta Cruz, nem o Mundo.

E se ao vazar da maré na praia mais distante, o meu ainda coração fizer sentido,
Esse limite da minha voz jacente, encontrará no silêncio o seu início e fim

Então dormitará quase perdida,
o que sobra de toda a minha memória insuficiente.


Ricardo S.
s/d [1995?]
[composição para A Criança Inacabada]


|imagem: reprodução de My Father Never got a Driving Licence II, Asa Stjerna|
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julho 26, 2010

Murmúrio Luz

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Curiosa a escrita do Sol
Onda de fogo, sombra de estrelas
Murmúrio enquanto luz
Esta a presença inscrita entre Deus e os homens.

Límpido o rumor aéreo
Enquanto luz que brilha na essência intacta
Dos tempos, dos seus princípios serena a solidez
Da pedra que permanece no ventre terreno.
Feliz o ar que morre na raiz,
Calmo o calor que a alimenta.
Dizem ser este o plano do meu Deus
Que não está ferido nem cansado.


Ricardo S.
s/d [1995?]
[composição para A Criança Inacabada]

[imagem: reprodução de Untitled (sparrow), Gerard Prent]
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julho 23, 2010

Pássaro Quase

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Parto do princípio que a neve verde das serras envenena os corações
E a chuva horizontal dos ribeiros coloca na terra uma haste.

Desfeitos os equívocos dos dias e das nuvens
Corta-se das folhas das árvores o produto da esperança
O todo
Como se o temor fosse feito de papel e argila.

Húmidos os cabelos de terra,
Dedos de rosmaninho e alecrim
E ventre fecundo da pedra.

Se o teu beijo for o sinal, o poema começa assim


Ricardo S.
Quarteira, 12 de Junho de 1992

|imagem: reprodução de Tryptich, 1966, Mark Rothko|


[Por estranho que possa parecer, aos poucos, irei editar nos próximos tempos na Barca dos Amantes, os textos definitivos que pretendo compilar de entre todos os que assinei como Ricardo S. e foram editados na Última Estação, entretanto encerrada com este intuito. Ainda sem uma definição da forma como pretendo apresentar este projecto de compilação, aos poucos e entremeados com os textos que regulares que vão sendo editados na Barca. Para já só poderei adiantar que o conjunto terá como titulo definitivo para o projecto, A Criança Inacabada.

Assim, não seja de estranhar que o Ricardo S. partilhe a Barca de quando em vez, até porque afinal são ambos um e o mesmo, apenas distantes no tempo… e as impressões, ou postais, muito em especial nestas edições serão sempre bem vindas, até porque a partilha na organização deste conjunto, é algo que gostaria de tornar possível]


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julho 20, 2010

A Sombra de Santa-Rita Pintor (reeditado)

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Basta! Basta um cansaço
E o livro do mundo
Escrito na pedra.
Encerrem-se nas primeiras chuvas de Outono e
Basta um cansaço; nunca o sono!

Os rascunhos na pedra,
Dos traços e planos de Deus,
Escritos nas nascentes, mão corajosa
De todas as correntes,
Só existem, [como só existe mundo que se veja]
Porque os quero ver. Eu
Velho, dos velhos hóspedes, quase pintor
De todas as obras Dele, as inacabadas!

Nos meus olhos vãos, o tudo se completa
E basta um cansaço,
Um pé incompleto, uma mão sem braço,
E chamam-me asceta!
Ao velho hóspede que habita em mim, ao seu dono
Arado, picareta,
Basta um cansaço; nunca o sono!

Dos rascunhos guardados,
Dos traços e danos meus,
Queimem-se na chama e da vida danosa,
Dos amores ausentes, que no meu chão
Nos pés que o pisaram,
Dias acabaram, tudo se consumiu.

Não adivinho que Orfeus embaraço,
Mas bastaria um cansaço,
Para que o meu corpo imundo
Escrito sem dono,
Tivesse um sono eterno? Não! Isso é coisa
Para os que adormeceram no Inferno.
A mim, como aos meus,
Contabilistas propagandistas escritores,
Bastam-me uma chama, quando por quando apagada,
Uma brasa que aquece este meu quase nada,
Este dormitar de olho aberto,
Uma haste na vida, uma corda sem dono,
Mas nada de sono! Basta um cansaço.

Indómito?
Porque o diria com arrogância
Que é nos meus olhos que a Criação
Se completa? Um cansaço basta!
Porque se dirá que é ganância
O deve e o haver,
E que o mundo só existe
Porque o quero ver, a Ele
E à sua obra inacabada?
É blasfémia, uma seta? Um cansaço basta,
Ao sono, nada! Nada,
Ao velho hóspede que abrigo em mim,
Ao doido incerto a quem se diz haver fim,
Ao dia encoberto pela mão que se esconde;
Que seja! Nada!
O meu corpo é a minha última morada,
Do qual o ar e o fogo, e até a terra se afasta,
Em todo o regato fresco de nuvem que se torna baço.
Não por mim, mas aos Deuses embaraço!

Mário, olha esta cabeça sem corpo sem nada…
E longe de mim de dizer o que não faço,
Mas nunca um chão,
Nunca um livro de pedra, fétido abandono,
Nunca um eterno sono: por mim
Um cansaço basta!

Bizarril, 2 de Dezembro 2009

|imagem: reprodução de Bodiaki, Jan Stanislawsli|

julho 18, 2010

[este texto, há dias editado no Inscrições, de Dade Amorim, junto com um outro texto meu, de imediato senti-o como diálogo e parte que não podia deixar de se apresentar, aqui, em forma de homenagem à visão do mundo e da casa, ao projecto e construção do poeta. Aguardei uns dias, efectivamente, de forma a criar uma unidade, aparentemente invisível, mas intencional conforme à minha última abordagem às Variações Vilhelm… Da Casa, e agora Habitare. Até sempre, permita o coração, Amiga Minha e Irmã de Letras]




















habitare

e tantas coisas
roçando nossas vidas sob o desgaste do teto que reflete
a luz da manhã no jardim

há quanto tempo nos protegemos de sol e chuva e dos ventos do estio
por trás das mesmas janelas de cortinas claras
que nos defendem da rua
a resguardar a sala cor de sépia

há tanto contornamos a curva das escadas
sabendo cores e penumbras e paisagens do quarto mais acima
e conversamos sobre coisas sem lugar ou utilidade
que vez ou outra esquecemos como corpos mortos numa prateleira
até que se tornem de novo uma pequena surpresa e toquem nossos lábios
com uma espécie branda de sorriso

e o que são os anos para nós
que a cada dia lemos os jornais na rede da varanda
e ainda reconhecemos os lugares das coisas
que há muito se extinguiram?


Dade Amorim
Rio de Janeiro

maio 16, 2010

Da Vida, Meu Frágil Exílio Perpétuo (reeditado)

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Estaba en la penumbra y tú me has hecho
luz. No era más que un árbol sin abril,
abrojo en campo estéril, y tu nombre,
Amor, me ha dado el agua y las acequias,
ha vestido de arriates mi destierro.

Acequias, de Francisco José Martínez Morán



Tão frágeis os contornos do mundo
Tão suave a neblina que o encerra –
Hábeis as mãos que o souberam
Contornar,
Do magma intemporal moldar
Um sopro, um sono, somente um
Pedaço de ínfimo enigma.

Tão breve o corpo que se anima,
Actor incerto no teatro das rotações do mundo,
Pele, espírito, osso
Movidos pelo sopro descontinuo
De quem
Das suas sete terras e seus sete mares
Tomou o barro frágil da eternidade
E qual palavra em movimento perpétuo

[tão frágil a intemporalidade que]
Tomou da forma
Finita, e ínfima
A eternidade da minha, tua
Presença
Inscrita no tempo –
Breve o cálice de vida;
Tomai e bebei!

Tão discreto o momento
Que respirando do mundo os seus contornos,
Aspiramos dos tempos que mais longe
Longínquos, uma ínfima parcela –
Se escondem.

Vivamos discretamente este molde
Contorno, o sopro de vida
Sul e norte de todas as fragilidades
Que se conserva na hábil mão
Que tanto nos guia, que tanto nos desorienta
Na nossa fragilidade
Do elemento. Único
E tão pouco perpétuo.

Tão provisório, o momento meu.


Castelo Rodrigo, 30 de Outubro de 2009


|enquanto olhava para as pedras, que ladeiam as estradas, esses estéreis caminhos de vida, pensava na sua força… a pedra tão imóvel, tão eterna! - Se a nossa vida é propriedade do eterno, então os momentos “que respiramos”, são apenas uma intima fracção… que assim seja!|


|imagem: reprodução de O Tempo Passa, Manabu Mabe|

maio 14, 2010

Oficinas de Escrita... e não só!


Por mais que um motivo, e por mais que se poderiam encontrar, não só a escrita, como a gestão de todas as dezenas ou mil coisas aparte das edições em blog, absorvem de tal modo, que muitos dos que experimentam, por vezes chegado um certo cansaço, abandonam…
Não é esse o caso; necessitando mais que uma paragem, um certo distanciamento da pressão inevitável e o discernimento em certos “assuntos” alheios à escrita, conto nos próximos tempos, dedicar-me, antes que esse “cansaço” surja, dedicar-me em definitivo a um projecto antigo, que aliás era o inicial, quando me aventurei neste mundo dos blogs: transportar o conceito de fanzine, tal como o conheci, para o mundo digital: Já tem nome, já está disponível para as primeiras impressões e já pode rolar à vontade, ainda que seja só um inicio… onde vai, o que fará, o que apresentará? - Ao longo dos próximos tempos, irei anunciando, ainda que não vá desistir de todos os outros blogs, sobretudo da poesia da Barca dos Amantes e da prosa do Na Linha das Fonteiras, já que e cada um à sua maneira, conseguiu encontrar a sua identidade… o método é que necessita de mudança, e não a essência!…

Assim, a minha morada mais constante nos próximos tempos será na Oficina.Casulo, que espera contar com uma empatia ainda maior, de todos os que vêem seguindo este curto percurso; e para que se solidifique ainda mais, a lavoro!

Um imenso abraço, incondicional

Bizarril, 14 de Maio

maio 13, 2010

Antes de Naufragares, Aproveita Para Nadar Calmamente













A alegria não ri como a amargura não chora – mas já falei tanto.
Agora definitivamente.
Vergílio Ferreira, Em Nome da Terra

So easy to fall down
So easy to be crushed
As you fight to stand at all
In this never ending rush

Anne Clark, Alarm Call


Escuta.
Encosta o teu ouvido neste pedaço de terra húmida que te trago dum país distante, neste grão de terra, neste pedaço de alma como se fora a gota menos saliente da tua. Recolhe o teu espírito neste pedaço de barro do barros como se fora o grão que construiu o mundo, a amostra que Deus tomou entre as mãos, sabendo que daí tornaria possível construir esta terra de sangues e dores em seis dias, do barro ao espírito, das cinzas à alma, da terra.
Encosta suavemente nas minhas mãos os teus olhos, repara, escuta como gemem as dores dos vivos, os murmúrios serenos de quem desceu à terra para aí depositar o seu sangue, o seu corpo dorido dos dias agora repousando na imensidão do silêncio. Dos passos que se ouvem pisando a terra que não nos pertence, as lágrimas que descem suavemente como recados de clemência, perdão a quem pariu o mundo, não sem muito se arrepender.
Escuta este lugar onde as palavras não têm sombras, o tempo não separa nem significa nada, onde o tempo não planeja, não se move, não se entrega, onde o tempo não significa nada. É apenas um grão de terra, uma gota de água, uma réstia de ar, um castelo de memórias, uma montanha que se separou do tempo, uma gruta funda como o mundo onde se guardam os arquivos que teimam permanecer prisioneiros do passado, aqui e ali um sorriso, guardados nas toscas tábuas onde se guardam o que restará do teu corpo, do meu, engavetados nesta terra húmida que pertence a um país distante, a um plano sem ponto de fuga, a uma ardósia que o manto verde do musgo tapará a seu tempo, quando o tempo se separar do tempo e estes nossos corações, de coisa nenhuma.
Verte nas minhas mãos as lágrimas que um dia te faltarão, verte nos meus dedos os teus cabelos que se apagarão nas memórias, salva o que puderes enquanto esta terra não te rouba as linhas das tuas, das minhas mãos. Entrega o teu sorriso, a tua alma, todos os dias, deposita-o nos meus olhos, deposita-a em cada passo que dás, entrega-o à memória dos que te amam, entrega-a a quem não te soube amar, todos os dias. E esconde, olha para o interior deste pedaço de terra, escuta como bate em uníssono o coração de todos quantos a ocupam, em sinal de convite, a aprender a marcar o ritmo dos seus ao nosso que um dia, talvez ontem talvez amanhã, fará da nossa sua companhia; escuta-os, sente como batem, como suavemente apelam aos tremores das nossas terras, como são serenos semelhantes às águas que correm nas cascatas, em espírito, como nos apelam, como nos chamam sem pressas, como nos apelam suavemente de que antes de naufragarmos, aproveitemos para nadar calmamente, sem receio das correntes, longe da terra firme, escutando o céu, enquanto deslizamos o corpo na água sem fim, enquanto mergulhamos de olhos bem abertos nessa terra liquida, nesse ar que só afunda os que o temem, nesta terra que trago nas mãos e a depositarei num país ainda mais distante que a distância que parecemos conhecer.


Escuta.
Limpa as lágrimas que não te deixam ver as palavras, esconde nas mãos de quem te soube amar, o suor que escorre das tuas.
Recorda as travessias de quem parou o tempo, recorda os sorrisos que transgrediram as orações sufocantes de quem chora os seus mortos, recorda os sorrisos que levaremos nos lábios no nosso último suspiro, como se fora vingança intima do choro e o grito que nos traz ao mundo, ao primeiro ar depois de tantas luas nas águas, nessa placenta que nos trouxe ao mundo e nos leva de volta, dessa terra que nos haverá de resguardar, que um dia será violada por caminhos, estradas e vias rápidas, que atormentarão o sangue da nossa terra, do barro que nos moldará, das videiras que serão enxertadas de vez, como de vez será enxertada a palavra do filho desse criador, talvez desorientado, talvez rogando por nós, filhos das cinzas que se espalharão pelo ar, prisioneiros da carne que transporta o nosso corpo ansioso, revoltado, desorientado com o tempo, desorientado pelo tempo que nada significa, que nada transpõem, que nada devolve.

Responde-me.
Seremos perdoados pelo bem e pelo mal, que omitimos ou pura e simplesmente esquecemos numa qualquer confissão, numa qualquer esquina dos dias, num qualquer lugar que supúnhamos vazio? Seremos viajantes serenos dum tempo que recusa o coração da terra, que chora os seus mortos para logo mais os esquecer? Seremos donos da nossa carne, dos nossos nervos, das nossas linhas e traços na pele, dos nossos sinais furtados, como símbolos, como traços da vida e da morte, que nos reclama pacientemente? Responde-me, responderás ao final de todos os juízos, se tanto nos angustiam os presentes?

Atormenta-me.
Segue os meus passos, ilumina a minha luminosa escuridão, aproveita para nadar calmamente, cerra os olhos, coloca-os nas minhas mãos vazias, nas minhas mãos que trazem e levam no tempo a terra que revolveremos à procura dum sinal, dum carreiro que nos leve ao interior da terra, dos regatos interiores que arrefecem a lava dos mundos de cada vez que um corpo se sepulta. Escuta os meus lábios, olha as minhas mãos em concha aguardando uma hóstia invisível, escuta-os, não temo a morte, amo a vida, pois enquanto não naufraga o meu corpo, aproveito para nadar calmamente no tempo que nada significa.
No tempo que nada escuta, por quanto o escutaremos como as marcas que trazem os nossos passos na terra desse país distante, agora definitivamente?

Castelo Rodrigo, 22 de Março de 2004


|imagem: reprodução de Ex-voto dédié à sainte Rita de Cascia, 1961, Yves Klein|

maio 08, 2010

.
Há muito que tinha dado como “perdido”, este texto, que com alegria o reencontrei num improvável ficheiro, e se não o devolvo à luz do dia, pelo menos reclamo um sorriso da minha memória, já distante, por me encontrar de novo, comigo!
O texto poético, de 1993, deixo-o no Diálogos Poéticos… por acontecer, tão somente por acontecer!

Abraçimenso, Ianê!

.

abril 25, 2010

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ficava meses e meses
sem escrever palavra.

Então estralava

dedos em bálsamo
estralava, estralava
meus ossos de libélula.

Asas de nébula
abertas
eu ululava
ululava

|texto de Neuzza Pinheiro, com autorização da autora; imagem L.B. em CPT|



abril 21, 2010

.














pedra
princípio
poema
precipício
pena
pauta
pássaro
ponte
pérola

pedra/água/fogo
ovário que fecunda o tempo


|texto de Maré, transcrito com autorização da autora; imagem de L.B., com CPT|

abril 10, 2010

Presságio


















“Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlantica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.”

In A Ultima Nau, Mensagem, Fernando Pessoa



Aí, nesse sitio
Onde a terra teima em não acabar,
Onde as asas sobrevoam águas sacudidas,
Mas não por um qualquer mendicante capricho,
Poderia o mar recomeçar, e
Se pudesse acontecer,
Acontecia a tela que mão humana
Não soube como em tinta, revoltar.
Aí, onde começou o sonho
De mendigo aventureiro,
E o que se cumpriu
Foi a ordem do desiludido.

Aí, se ainda num pedaço de continente,
Houvesse uma praia, vago o lume da onda,
Uma fina brisa gelada em forma de fogueira,
E o mar inclinado, descaminho abrupto
De antigo globo terrestre,
Cru mistério, o todo acontecia
- Esquece, estranho eu, disfarçado de profeta;
Há muito que acabou o teu poema acidental,
Não passa aqui o teu rio,
Não é daqui, aquele teu Império,
Quinto ou Sexto, semelhante, quase igual!

Foi esquivo o teu dia definitivo,
Estranha a derrota do viajante, disfarçado de
Argonauta, onde se perde o primeiro dos
Esquiços, de remendados sete mares
Manifestos passos perdidos.
Atlântica a mortalha
Mensagem,
Presságio artificial
Anunciação,
Esculpiu-se o sonho,
Mas a tua gente, não!
Contrafeita a saudade, único testemunho
Mas do labirinto
Só uma vaga ideia,
Duma vaga em mar aberto,
Uma vaga mentira foi o que restou,
Do casulo das histórias, e pior
De todas
As que tínhamos por certo.

E não há cápsula do tempo que nos valha,
Para toda esta tralha velha;
- Dos livros de história, só constam
Os preparativos e as festas da vitória…
A quem, os restos de concreto?
De que vale um mapa secreto?
A quem, estes cacos e bibelots antigos?
Talvez a ninguém,
Mas já a memória me falha.
Estou longe, onde estive perto!

Colmeal Velho, 10 de Abril


|imagem: reprodução de Plaza After the Rain, Paul Cornoyer|


abril 07, 2010

Compromissos...

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"Se a palavra que vais dizer não é mais bela do que o silêncio,
não a digas!"

Provérbio Sufi

A Barca pelo Sérgio e pelo Milton

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De tempos em tempos, antes que se tome por bagagem mais teres e haveres, devem-se deixar para trás as boas partes que ela nos trouxe e desfrutámos… e depois, vamos em frente!
Há muito que deveria ter colocado o texto poético que inspirou o nome deste espaço, palavra de letras, sobretudo para os que desconhecem essa obra maior de dois músicos de ambos os lados do atlântico, que num só texto, melodia e mundo, “fabricaram” o que tomo por concepção da poesia: e se por estas bandas se fala pouco de “amor”, é só para que mais intensamente se viva!… e como este texto, A Barca dos Amantes, é para este humilde, nada mais ou nada menos que uma metáfora das grandes, que nos remete para o autêntico significado da poesia… metamorfose perfeita entre palavra e palavra de vida!

Obrigado, pelo muito que dizem e dirão, Caros Sérgio e Milton

Colmeal Velho, 7 de Abril


A Barca dos Amantes

Ah, quanto eu queria navegar
P'ra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria conseguir
Trazer a Barca à madrugada
E desfraldar o pano branco
Na que for terra mais amada

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no céu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
P'ra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu vi me fez vogar
De rumos meus, a cais errantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia

E que em toda a parte o teu corpo
Seja o meu porta-estandarte
Plantado no seu mais fundo
Possa agitar-me no vento
E mostrar a cor ao mundo

Ah, quanto eu queria navegar
Pra sempre a Barca dos Amantes
Onde o que eu sei deixei de ser
Onde ao que eu vou não ia dantes

Ah, quanto eu queria me espraiar
Fazer a trança à calmaria
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia

(Sérgio Godinho/Milton Nascimento)

|imagem: Leonardo B.trabalha no CPT, com imagens Google|

março 30, 2010

Anotações para uma Verdade Apócrifa

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No hay mejor definicion de la poesia que esta: 
“poesia es algo de lo que hacen los poetas”


Juan de Mairena, cit. Por Jorge Fazenda Lourenço


|manipulação de fotografia por 8536720.2010|