novembro 29, 2009

Cidade nossa, imperfeita imitação da aldeia distante





















Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro de minh'alma

Fernando Pessoa

1. Ah, intrépido poeta na cidade
Que cantas com vigor
Os sinos da tua aldeia distante
Que não conheceste alguma vez,
Senão naquela livraria da Almirante Reis,
Onde pousavam tristes, os livros devidos
De poetas antigos e desconhecidos.

Ah, guardadores nossos, de rebanhos e perícias,
Tão calmas e urbanas pastorícias,
Que se aprendiam dos imitadores da vida
No Cafés do velho Chiado,
E de voltas ao Século, versejando
Quais cantadores de almas, corpos
Incompletos, mil almas e mil olhos.
Guardadores de rebanhos e de piolhos,
Que se vingavam irados, nos fumos
Dos cigarros velhos, agora proibidos.

E se gaivotas houvessem neste estreito horizonte,
Tanto o vigor da palavra que teima no cheiro da terra,
Tão vasto o tamanho da palavra que erra,
Ignorada a diferença entre o ribeiro e o oceano.
Torna-se simples, o verso;
Para o poema urbano, afinal,
Toda a água do mundo, vem do mesmo sitio,
Ou seja, do cano.


2. Ah, bravos poetas que na cidade, hoje
E com que vigor, a plenos pulmões
Ditam compostos, os três cantos
Dos cânticos da terra,
Que em si, e por si só, têm um senão:
Cheiram demasiado a alcatrão!

Cantem-se os sinos na aldeia ancorada
No meio dum mapa que se escreveu em vão,
Esculpam-se os cânticos verdes da serra,
Que estes tons desmaiados são tantos,
Anéis e montanhas de cristal,
Quantos os teus versos em forma de furacões,
Este horizonte é todo, quase animal,
Um fruto maduro de que se traga o aroma
À porta do centro comercial.

E não escondas esse velho livro, que
De novo, cheira a mofo:
- Esse livro que te fala da origem das espécies,
Da vida, de todas as cantigas do tempo,
De janelas antigas viradas para o mundo,
Que em versos, poemas arrumas a norte,
Sem nunca teres saído da cidade mais capital.

Ah, nobre poeta copista,
Que cantas as celestes estrelas,
Breves portas de anjo, aspergidas de claridade,
Mas não são estrelas, irmão:
São postes de electricidade!

Quão sublime o teu dom artista,
Que sabe de cor os tons da terra,
Negro perfume da semente do barro,
Conheces o mundo inteiro, poeta,
Sem saíres da paragem do eléctrico,
Do metro, e para rimar - quem sabe?
Poder-se-ia afirmar que conheces o mundo inteiro,
Da parte interior dum autocarro!

Esbracejas, irmão, num verso contido
As maravilhas criadas num velho labirinto,
E calo-me já, agora, se minto,
Que o único verso que não se engana,
Que não estraga a poesia,
É o que pretendes ler alto, para uma imensa plateia,
E por entre abraços e elogios, passam
Os teus transeuntes versos, numa vasta livraria.

Ah, poeta, herdeiro da nação inteira
Que com a tua mão esteta,
Absorves o estaleiro do mundo,
E revolves num abrupto de todo o céu, os cadeados;
Invejo-te! Conheces o mundo inteiro, a sul,
Sem nunca teres havido por mais longe senão os Aliados!

3. Ah, intrépido poeta na cidade
Que cantas com propriedade,
Os sinos da tua distante aldeia
Que conheces como o livro na tua mão,
Aquele que dita o teu conhecimento do vago horizonte,
Quando o poeta, poeta mesmo,
Não existe; anda a monte!

E se dos poetas antigos e conhecidos,
Se te aprouver,
Compra o original, o mais obscuro de todos eles,
Não se vá dar o caso de trasladares da vida,
A sua mais finita poesia,
Pelas cópias dum livro reles.

E se das coisas incertas quiseres o rumo,
Da original palavra, como se diz por aí,
E do poema tomar o seu bem e o seu mal,
Tão puro veneno, tão calmamente bebido,
Vai, parte desse sítio, que te asfixia
Onde e por muito que se não queira, é cidade,
[mortalha de corpo que não sabe idade],
E na cidade, diz-se, encontra-se a última morada da poesia:
Morre para a vida,
Quando entra na livraria.


Colmeal, 29 de Novembro

|advertência breve: este montinho de letras, que nasce por “brincadeira”, não foi revisto, senão no essencial, e na eventualidade pode ganhar uma outra forma… até porque o conceito entre urbano e rural, muito divide e como que partindo desse pressuposto, a divisão, é das operações matemáticas aquela que menos proveitos traz: assim na matemática como na vida!|

|imagem: reprodução de Casamento na aldeia,1937, Sarah Afonso|


novembro 16, 2009

Onde está o teu piano vazio, Dooley Wilson?



"You must remember this, a kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh; the fundamental things apply, as time goes by.”


Onde se separam as ruas, para quem não as conhece ou já não se lembra que alguma vez por aqui passaram? O que nos separa do tempo, das memórias que nos foram confiadas, mesmo as que não encontramos nos mapas das cidades, nas geografias pequenas de quem se abandonou por ruas e ruas, sem que lhes tenha encontrado o principio ou o fim? Estará nessa placa desbotada pelo tempo, o início de todas as coisas que se condensam numa rua, nos passos, quase perdidos ou mesmo abandonados, pelos transeuntes anónimos de vida e vida, quase morte, e tudo o que lhe permeia? Estarão no nome das ruas que se fazem navegar, anonimamente, as respostas que se evitam, pela dor que provocam, as questões que se abandonaram há muito, quais livros que se encontram esquecidos pelo tempo, nos alfarrabistas, nos guardadores de rebanhos das memórias condensadas pelos livros do tempo?
São muitas questões, diria demasiadas, para quem se encarrega tão somente de cumprir uma promessa antiga, que uma estranha mão nos confia de cumprir. Talvez que não acredite, a quem tomar estas palavras por suas e tempo perdido, seu, que estou aqui apenas para dar um pouco de milho aos pombos que invadem essas ruas, que enxameiam de negro os tectos desta cidade, que muito dizem branca e de sete colinas, mas nesta precoce manhã de Novembro, toma das nuvens, as novenas das águas que entristecem estas ruas desertas… os pombos, diríamos que os únicos habitantes desta cidade, já há muito acordaram, e nos parapeitos das janelas esquecidas, aguardam com paciência as falhas de meteorologia, e estas duas mãos que temem o cumprimento das promessas, este sujeito cumpridor vago, no permanente silêncio incómodo, que se agasalha no zumbido distante dos cais, dos ruídos distantes do rio que hoje permanece mais envolto na outra margem, abscôndita margem que se recolhe na neblina, nevoeiro, húmus de ar e manhãs do mundo, todas de todas as manhãs vagas do mundo e nesta a promessa.

Onde se separam as ruas? Esta que parece nascer na Travessa dos Fiéis de Deus ou na Travessa da Espera, que serve de abrigo aos perdidos na manhã de chuva miúda, de abrigo a quem se desempoeira nos cafés encerrados para a vida há muito, mas de portas ainda e quase abertas, das tabernas que adiam para amanhã mesmo, o fim, o final do mundo num copo de três, uma ginja matinal, um bagaço que aquece os cigarros que ainda restam do mundo, uma beata que aguarda o fim final finado. Onde se separam estas ruas, não sei… que o digam os bombeiros e os homens da fé, quando esta cidade se enterrar noutro terramoto, esse eterno noivado que alguma vez se cumprirá…

- Procuras alguma coisa, rapaz? Perdido?… tem cuidado com essa malandragem…

Onde se separam e encontram estas ruas, para quem vem de longe e não sabe que distância percorreu até aqui, para cumprir uma promessa vaga e fácil de descumprir?

- Vá toma o raio do café, vai arrefecer… um cheirinho, para aquecer?...

O que nos separa das memórias e do tempo que nos foi confiado? O que me separa daquele piano que quatro rapazes sem idade, transportam para os cheiros ténues do mundo, para se desvanecer por completo? O que me separa daquele teclado em silêncio, daquele teclado em sólido silêncio, em acidente? O que me separa desse piano?

- Já não me serve para nada o piano… sucata! O rapaz que morava aqui no primeiro andar desapareceu do mapa há muito… deixou-me uma conta para pagar, mas isso é o menos. – Acordava todas as manhãs cedo e ia lá para baixo dar milho aos pombos, para o Camões… dizia-se… mais um café? Claro… sabe para que servem os pianos? Aquele é engraçado, mas está vazio por dentro…

O que nos separa das pequenas geografias pessoais, desses infinitos inalterados por lapsos de tempo? O que me separa daquele piano que Dooley Wilson, não sabia, nem nunca soube tocar? Esta taberna não é Rick’s Café, nem Lisboa, Casablanca… então que resta desse piano vazio que Dooley imitava a vida cantando "The fundamental things apply, as time goes by…”, raios, Mr. Dooley, que enganava o mundo, tocando o piano que nunca soube tocar, o piano vazio que ancorado na nostalgia se deixava enganar pelos dedos, pelo coração invisível de Sam, [sem saber tocar, no filme Casablanca, o piano estava vazio, sem cordas nem martelos, e a música era tocada por Elliot Carpenter, colocado atrás da câmara, para que Wilson Dooley pudesse seguir os movimentos], para uma invisível Lady Lund, que por aí, por esses tortuosos caminhos da cidade, andou por certo… e o que nos separa do tempo, se o tempo é o estado mais certo de coisa incerta, se o espaço é o mais amplo canal para quem se esconde da vida, tomando a rua deserta, agora, para desaguar na multidão matinal do mundo, da grande cidade que se concentra nas teclas naturais, sete oitavas mais uma terça menor, na certeza incompleta de quem procura nos pianos vazios a mais incómoda geografia da vida, na vida um efeito semelhante ao deslocar os martelos para uma posição de descanso, mais próxima das cordas, um sinal, una corda, que de inexistente, se conforma com a dúvida que nos separa do tempo e da memória que nos foi confiada. E se a vida prega mais partidas que chegadas, onde estará?

- Que tal vai isso, Sr. Wilson? Café?... e meio Jim Bean, claro…

Colmeal dos Cabrais, 07 Dezembro 2009

|fotograma de Casablanca em cpt por.8536720|


novembro 07, 2009

Breve


É a incerteza com que concebemos a visão do mundo
que tornam os seus contornos intoleráveis,
quase impossíveis.






|Sanvean (I am your shadow) por Lisa Gerrard,The Mirror Pool|
.