dezembro 20, 2009

Reflexos Duma Nota Só - I

Beatriz por Maria João e Mário Laginha



[este texto, que sinto saudades, deste voo da linguagem, foi inicialmente editado no Impressões Digitais, mas chamo-o por instantes, para cumprir saudade minha, aqui na Barca do Breve Poema...]

Breve Monólogo da Marreca Peba, Dona Beatriz – desculpa tomar um pouco do seu reduzido tempo diurno, mas me faz confusão Dona João e com uma pergunta se basta um milhão de falsas respostas, então, vou deixar só meia no ar, Dona João, que assim fica entre o desabafo e a verdadeira questão, e é assim Seu Laginha e Dona João

faz confusão porque o coração de homem tem uma só cor, e ali na tribo áerea de passarim passarão passadiço passadeira de passarinho, vizinho de Marreca Peba como eu, tem todas as cores demais azul rosa carmim olha papo preto branco branco negro cansado verde anil verde brasil verde seco verde molhado verde alface verde divino azul tinto azul laranja azul limão azul clementina cinza menina lilás rosa choque dourado prateado e amarelo de sol para além da meia dezena de milhar de pantone colorido e de todas as outras cores de coração da tribo dos passarins – ás vezes parece que coração de homem tem variz, desafinado e com chiadeira; não sabe abrir ao mundo a sua cor a sua voz

a sua voz , Dona João, não tem uma nota só; tem dez tem mil dezena de mil outras mais para espalhar por essa esfera aí, por essa auto-estrada de passarim – a sua tem tom de Tom e de bom Tom, tem Chico e é do Lobo, tem Milton e Cáitano, tem pássaro islandês na sua voz e uma espécie de raro português e até joni vendo por todas as partes e mais outras duas, tem trauteando waltzing matilda muito blue, tem passarinho preto muito para além do Lennon e do McCartney, tem fábula no chão da terra, tem sete facadas e saris e capulanas, Dona João, tem tudo na sua voz em preto e branco, em passadeira vermelha na noite de São Jorge, tem brilho terno de estrela cadente na voz que de Pássaro Grande do Sul lhe emprestou e

e faz confusão porque homem e mulher, criança grande e pequena dá tantos nomes ao Grande Pássaro do todos os lugares do Sul, tantos nomes como hindu xingu cristão botão islão sertão ateu prometeu budista budão judeu julieta e romeu protestante constante pompeu taoista simples profissão de deus conhecido, não é Dona João, quando único nome para regular legião deve ser coração e sua reza a voz de passarinho fora da gaiola, de águia voando no penhasco, de rouxinol alegrando a noite onde o norte se perdeu no escuro, e a sua voz emprestada pelo Grande Pássaro do Sul, para alegrar ouvido surdo do homem que quer escutar, que o outro se cega para a vida por não querer ouvir, tal como não entendo, Dona João, porque coração de homem

o coração de homem tem que ter nação mesmo nação com bandeira hino e tudo, porque para passarim Espanha e Portugal é tudo igual, o mesmo céu o mesmo ar, igual no Uruguai ou em Anchorage, igual na Cidade do Cabo ou na Vladivostoque, na Sibéria no Japão japonês, na Irlanda ou na Conchichina, é tudo céu, sem fronteiras sem jogos de certezas e razões, tudo é voz de silêncio e campo para voar, para tocar piano harpa oboé flauta de vento flauta de água flauta de pan e shakuashi, mas não aí em baixo, onde tudo é confusão de língua, de bandeira de cifrão de coisa importante sem valor nenhum, não é Dona João? E piano

e piano e voz vem para quebrar isso tudo, um retrato a preto e branco, do Carlos Brasileiro ou do Man Ray, tanto dá… tem voz e uma voz tem que namorar piano, uma flor tem que namorar a sombra e piscar às escondidas ao sol, um pássaro tem que namorar com o vento e saber encantar a sua futura sogra linda tempestade, um peixe tem que namorar com a mar e a maré, siameses elementos do mundo, a terra tem que namorar com a chuva do céu e o céu com o trovão, a sua voz não

a sua, Dona João, tem que ter cor, tem que ter chorinho feliz, tem que ter fábula, tem que ter cábula de vida, ter coração de mil cores, de mil nomes, de mil vozes, de mil ossos e pedras, de mil emoções, todas numa junta só como Barnabé me ensinou – olha lá, toma cuidado Beatriz: ama e respira! - São a mesma coisa, mas não faz mal…


Colmeal dos Cabrais, 10 de Julho

[Aparte: Marreca Peba é, como todos saberão, a Dendrocygna bicolor, a Dona Beatriz de Leonardo B.]

6 comentários:

Be Lins disse...

Neste postal
deixo-te novamente
meu queixo caído no chão,
penso na grandeza dessa Beatriz
cantada, e paralelamente,
sufoca-me a minha vulnerável
pequenez.

Que siga sua barca,
que leva palavras, amantes
e provoca suspiros por onde passa.

Beatriz

Viva . disse...

Provocador irregenerável de suspiros

Beijo em sua alma.

giramundo disse...

Esse teu monólogo possui tantas vozes, tem tanta riqueza linguística, tantos personagens, que até sentí-me fazendo parte do cenário também...!
Belíssimo texto.
Aproveito a oportunidade para desejar-te um Feliz Natal com os teus e um 2010 cheio de monólogos com esta mesma qualidade!
Um abraço

Marina-Emer disse...

gracias por hacerte seguidor de mi blog ...yo acabo de hacerme al tuyo y ahora te deseo felices fiestas navideñas y buena entrada al nuevo año 2010
mis saludos
Marina

Kanauã Kaluanã disse...

En.can.ta.da!

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Maria João, com essa performance, deixou a "Beatriz" imensamente vaidosa, tenho a certeza.

Afora o texto mais que prosa na poética da linguagem, só me cabe uma vontade a vibrar, quieta, no meu cantinho... a de que o mestre Chico, o meu Buarque de eleição, fizesse a confissão de que não ouvira algo mais bonito do que essa interpretação.

Poeta, saio daqui inebriada.

Katyuscia.

Andrea de Godoy Neto disse...

num monólogo de tantos voos, tudo é céu sem fronteira na alma da gente, onde a impressão dessa poesia alada reina absoluta.

imenso abraço, Leonardo, com as asas que ruflaram deste lado do oceano