dezembro 04, 2009

Outras Vozes, Fernando ou Dos Velhos Hóspedes


















Se existisse, era chão,

Tua margem seca e abrupta da chuva que cai.
Se existisse seria noite, ou não,
Apenas um fragmento disperso,
A mais frágil idade fértil,
Que se constrói no corpo que se esvai.
Se existisse, e porque sim
Eu, porque não, seria viva a palavra?

O que se disse, dos dias mais remotos
Era tudo o que Aquele quis que fosse vago.
Era palavra, era esboço, era o mundo dum só trago.
Era o verbo, era a sílaba, era o que era,
Mas nunca o que foi! E se eu existisse,
Pudera ser soalho, pudera ser chão
- Onde teu pé incerto fugisse,
Desse teu outro que caminha em vão!

Se existisse, onde aconteceria a tua palha
Cama breve onde teu corpo pudesse dormitar?
O céu esculpido, a palavra abandonada, o eterno regresso?
Se existisse, eu não!
Eu seria delito e a própria confissão,
Seria o luto e da chama a acendalha,
Eu seria secreto e poderia acordar,
O concreto mundo,
A palavra e o seu esboço,
Num único e discreto trago.

Se existisse, seria o mais intenso nada, o teu chão
Onde se completa a manta de retalhos do céu,
Que é quando ainda a noite se chama madrugada.
Se existisse, seria o mais remoto cais, aquele
Que se perdeu nos cabos do mundo e por penas de poeta,
É obra incompleta que se pensa não regressar mais.

Atenta nas pegadas do teu canto, chão,
No meu corpo
De velho hóspede do profeta
Que toda a tinta e tela e sal,
Quinto, o teu último dia desigual,
Império de todos os tempos
Onde o verbo não tem tempo condicional,
Pretéritos imperfeitos do cais distante,
Que lá atrás, lá longe, lá adiante,
Daqui de onde se vê a linha recta,
Tua geração Orfeu, teu rumo
Poeta, em ti
Toda a criação em si se completa.

E para lá das aparências,
Ressuscita a palavra, e com ela,
A profecia do Poeta!

Bizarril, 2 de Novembro

|imagem: reprodução The Card Players, de Cézanne, Metropolitan Museum(?)|


7 comentários:

Kim Sousa disse...

Olá meu amigo...adorei o seu blog...as fotos são linda...abração

Liene disse...

Leonardo,
em ti toda a criação se completa!
É o que digo e ponto.

Um grande abraço!

Mirtes Waleska Sulpino disse...

Leo, gracioso encontro vc me proporcionou.
Escreves com a alma...

Bjs, Mirtes Waleska Sulpino

angela disse...

Lindo poema, tão bem construido e muito inspirado.
beijos

Reflexo d Alma disse...

Ei!
Que blog lindo!
Hj vim pra conhecer,
volto pra comentar...
Vai ser uma delícia se passar no
meu espaço.
Bjins entre sonhos e delírios

Grupo Cero VersoB disse...

Lindo blog!

Ressuscita a palavra!!!

conversa com outro verso:
"Quanto tudo está destruído
a única possibilidade é poética."
de Miguel Oscar Menassa

um abraço, na poesia,

manuel marques disse...

Simplesmente divinal.

Abraço.