dezembro 02, 2009

Os velhos hóspedes ou a sombra de Santa-Rita Pintor





















Basta! Basta um cansaço

E o livro do mundo
Escrito na pedra.
Encerrem-se nas primeiras chuvas de Outono e
Basta um cansaço; nunca o sono!

Os rascunhos na pedra,
Dos traços e planos de Deus,
Escritos nas nascentes, mão corajosa
De todas as correntes,
Só existem, [como só existe mundo que se veja]
Porque os quero ver. Eu
Velho, dos velhos hóspedes, quase pintor
De todas as obras Dele, as inacabadas!

Nos meus olhos vãos, o tudo se completa
E basta um cansaço,
Um pé incompleto, uma mão sem braço,
E chamam-me asceta!
Ao velho hóspede que habita em mim, ao seu dono
Arado, picareta,
Basta um cansaço; nunca o sono!

Dos rascunhos guardados,
Dos traços e danos meus,
Queimem-se na chama e da vida danosa,
Dos amores ausentes, que no meu chão
Nos pés que o pisaram,
Dias acabaram, tudo se consumiu.

Não adivinho que Orfeus embaraço,
Mas bastaria um cansaço,
Para que o meu corpo imundo
Escrito sem dono,
Tivesse um sono eterno? Não! Isso é coisa
Para os que adormeceram no Inferno.
A mim, como aos meus,
Contabilistas propagandistas escritores,
Bastam-me uma chama, quando por quando apagada,
Uma brasa que aquece este meu quase nada,
Este dormitar de olho aberto,
Uma haste na vida, uma corda sem dono,
Mas nada de sono! Basta um cansaço.

Indómito?
Porque o diria com arrogância
Que é nos meus olhos que a Criação
Se completa? Um cansaço basta!
Porque se dirá que é ganância
O deve e o haver,
E que o mundo só existe
Porque o quero ver, a Ele
E à sua obra inacabada?
É blasfémia, uma seta? Um cansaço basta,
Ao sono, nada! Nada,
Ao velho hóspede que abrigo em mim,
Ao doido incerto a quem se diz haver fim,
Ao dia encoberto pela mão que se esconde;
Que seja! Nada!
O meu corpo é a minha última morada,
Do qual o ar e o fogo, e até a terra se afasta,
Em todo o regato fresco de nuvem que se torna baço.
Não por mim, mas aos Deuses embaraço!

Mário, olha esta cabeça sem corpo sem nada…
E longe de mim de dizer o que não faço,
Mas nunca um chão,
Nunca um livro de pedra, fétido abandono,
Nunca um eterno sono: por mim
Um cansaço basta!

Bizarril, 2 de Dezembro

|aparte breve: breve monte de letras não revisto…|

|imagem: reprodução de Sun, Tower, Airplane, 1913, Robert Delaunay, A. Conger Goodyear Fund|


3 comentários:

Mai disse...

Essa tua poesia me lembrou Dante Alighieri e a memória do absurdo. Poesia pura mas, estranhamente concreta se eu pensar que em certo sentido ela retrata os tempos modernos.

Abraços.

Paula Figueiredo disse...

"Um cansaço basta"... E como! Antes isso que o sono eterno. Obrigada pelo comentário!
Abraços,
Paula

alice disse...

gostei especialmente do verso em diz que abriga um velho em si. identifico-me com essa imagem.