dezembro 29, 2009

O Espelho Vertebrado





















Procurem-me um passado,

Um pedaço de futuro retardado,
E não me perguntem porquê!

Pago adiantado, dou sinal,
Por uma casa grande onde não nasci,
Por um retrato retocado
Pelos grandes professores que não conheci;
- Com uma pequena montagem
Ali estarão, onde deveriam ter estado.

Procurem-me uma cidade
Onde não tenha que me envergonhar
Das minhas habilitações falsificadas,
Nem passar demasiado tempo a explicar
O porquê afinal, de não saber o
Nada desse distante tempo.
Procurem-me esse instante em todo o lado,
Que possa em qualquer momento ser alterado,
Por necessidade ou por urgência!

Pago em cheque ou numerário,
A biografia dum futuro presidente,
Dum banqueiro anarquista,
Astronauta de Leões Domador ou Trapezista!
- Qualquer coisa serve
Menos a vida dum Deus malogrado;
Pago bem, nem que seja em cheque
Careca em branco ou falsificado,
Por um melhor futuro, por um bem presente
Pelo mais florido dos passados,
Escondido numa escola elegante
Numa moldura de excepção,
Mas atenção:
Quero lá tudo, no meu passado,
Excepto confusão.

Procurem-me um novo passado,
Mas nada de muito complicado:
Basta-me um chá, um mar sem gente,
Um livro somente nessa grande biblioteca,
Uma manta, mil cigarros de verdade,
Daqueles, do tempo em que podia dizer,
Gosto de ser livre só por querer,
O que quero e o que não quero,
- Viver a tempo inteiro,
Sem pisar em quintal alheio.
Isso é que era ouro, um passado verdadeiro!

Procurem-me um futuro, um passado,
Pago bem, em dinheiro ou presentes;
Não me perguntem porquê;
Por ora digo apenas,
Que por muito que procure
Não consigo encontrar o que ainda agora
Trazia comigo!


Castelo Rodrigo, 29 de Dezembro

|imagem: reprodução de The Magic Hand, 1949, Charles Rain|


dezembro 20, 2009

Reflexos Duma Nota Só - I

Beatriz por Maria João e Mário Laginha



[este texto, que sinto saudades, deste voo da linguagem, foi inicialmente editado no Impressões Digitais, mas chamo-o por instantes, para cumprir saudade minha, aqui na Barca do Breve Poema...]

Breve Monólogo da Marreca Peba, Dona Beatriz – desculpa tomar um pouco do seu reduzido tempo diurno, mas me faz confusão Dona João e com uma pergunta se basta um milhão de falsas respostas, então, vou deixar só meia no ar, Dona João, que assim fica entre o desabafo e a verdadeira questão, e é assim Seu Laginha e Dona João

faz confusão porque o coração de homem tem uma só cor, e ali na tribo áerea de passarim passarão passadiço passadeira de passarinho, vizinho de Marreca Peba como eu, tem todas as cores demais azul rosa carmim olha papo preto branco branco negro cansado verde anil verde brasil verde seco verde molhado verde alface verde divino azul tinto azul laranja azul limão azul clementina cinza menina lilás rosa choque dourado prateado e amarelo de sol para além da meia dezena de milhar de pantone colorido e de todas as outras cores de coração da tribo dos passarins – ás vezes parece que coração de homem tem variz, desafinado e com chiadeira; não sabe abrir ao mundo a sua cor a sua voz

a sua voz , Dona João, não tem uma nota só; tem dez tem mil dezena de mil outras mais para espalhar por essa esfera aí, por essa auto-estrada de passarim – a sua tem tom de Tom e de bom Tom, tem Chico e é do Lobo, tem Milton e Cáitano, tem pássaro islandês na sua voz e uma espécie de raro português e até joni vendo por todas as partes e mais outras duas, tem trauteando waltzing matilda muito blue, tem passarinho preto muito para além do Lennon e do McCartney, tem fábula no chão da terra, tem sete facadas e saris e capulanas, Dona João, tem tudo na sua voz em preto e branco, em passadeira vermelha na noite de São Jorge, tem brilho terno de estrela cadente na voz que de Pássaro Grande do Sul lhe emprestou e

e faz confusão porque homem e mulher, criança grande e pequena dá tantos nomes ao Grande Pássaro do todos os lugares do Sul, tantos nomes como hindu xingu cristão botão islão sertão ateu prometeu budista budão judeu julieta e romeu protestante constante pompeu taoista simples profissão de deus conhecido, não é Dona João, quando único nome para regular legião deve ser coração e sua reza a voz de passarinho fora da gaiola, de águia voando no penhasco, de rouxinol alegrando a noite onde o norte se perdeu no escuro, e a sua voz emprestada pelo Grande Pássaro do Sul, para alegrar ouvido surdo do homem que quer escutar, que o outro se cega para a vida por não querer ouvir, tal como não entendo, Dona João, porque coração de homem

o coração de homem tem que ter nação mesmo nação com bandeira hino e tudo, porque para passarim Espanha e Portugal é tudo igual, o mesmo céu o mesmo ar, igual no Uruguai ou em Anchorage, igual na Cidade do Cabo ou na Vladivostoque, na Sibéria no Japão japonês, na Irlanda ou na Conchichina, é tudo céu, sem fronteiras sem jogos de certezas e razões, tudo é voz de silêncio e campo para voar, para tocar piano harpa oboé flauta de vento flauta de água flauta de pan e shakuashi, mas não aí em baixo, onde tudo é confusão de língua, de bandeira de cifrão de coisa importante sem valor nenhum, não é Dona João? E piano

e piano e voz vem para quebrar isso tudo, um retrato a preto e branco, do Carlos Brasileiro ou do Man Ray, tanto dá… tem voz e uma voz tem que namorar piano, uma flor tem que namorar a sombra e piscar às escondidas ao sol, um pássaro tem que namorar com o vento e saber encantar a sua futura sogra linda tempestade, um peixe tem que namorar com a mar e a maré, siameses elementos do mundo, a terra tem que namorar com a chuva do céu e o céu com o trovão, a sua voz não

a sua, Dona João, tem que ter cor, tem que ter chorinho feliz, tem que ter fábula, tem que ter cábula de vida, ter coração de mil cores, de mil nomes, de mil vozes, de mil ossos e pedras, de mil emoções, todas numa junta só como Barnabé me ensinou – olha lá, toma cuidado Beatriz: ama e respira! - São a mesma coisa, mas não faz mal…


Colmeal dos Cabrais, 10 de Julho

[Aparte: Marreca Peba é, como todos saberão, a Dendrocygna bicolor, a Dona Beatriz de Leonardo B.]

dezembro 11, 2009

Na Cabeça Tenho Pincéis no Lugar dos Cabelos

















Não adormeças, sobre a tela

Mário, que há mais vida lá fora
Para compor.
Retratos dos simples, retratos
Dos barões, porque não?
A vida, qualquer das formas, é em vão!

Por mais místico seja este chão,
Que já deu uvas quase de ouro,
Em talha de prata de ladrão,
Aqui se adormece sobre a história
Do mais longínquo antepassado,
Do mais hediondo intrujão.

Não adormeças sobre a tela,
Foge! Ruma ao Reno,
Foge pelos jardins do Prado,
Apoquenta-te com coisa pouca,
Que muita, torna-se pequena.
Vai, foge, porque não?
Aqui o rio cheira a esgoto,
Aqui o veneno que se cospe até vale a pena,
A alma, a alma é de imenso pequena,
E morrer até custa,
Mas mais pelo preço do caixão.

Vai, Mário, mais além,
Mais valor terá de ti
Terá a tua gente,
Quanto mais longe estiveres, daqui.
Vai, é para teu bem!
[diz alguém ao ouvido, serenamente
De quem algum dia quis ser gente
Mas não foi.]

Não adormeças sobre a tela,
Eloy, teus tragos desejos;
“Terás na cabeça pincéis,
No lugar de cabelos”
E nas mãos desvelos,
Verbos conjugados em cor,
Novos limbos de tão velhos
- Mas nunca natureza morta!
E então? Não é a vida, o vão
E tudo o mais, quase secreto
Intimo torpor inquieto,
Mas a vida breve? Não!

Há qualquer coisa de antigo
Mário, que não vai adormecer
- Vais ver! A mão não se demora
A quem não adormece, antes da Brisa
Sol éter e mar em flor,
Antes da vida se compor.
Mas há um senão:
A vida, qualquer das formas, até é em vão!

Bizarril, 11 de Dezembro

|imagem: Reprodução de Auto Retrato, Mário Eloy|

dezembro 04, 2009

Outras Vozes, Fernando ou Dos Velhos Hóspedes


















Se existisse, era chão,

Tua margem seca e abrupta da chuva que cai.
Se existisse seria noite, ou não,
Apenas um fragmento disperso,
A mais frágil idade fértil,
Que se constrói no corpo que se esvai.
Se existisse, e porque sim
Eu, porque não, seria viva a palavra?

O que se disse, dos dias mais remotos
Era tudo o que Aquele quis que fosse vago.
Era palavra, era esboço, era o mundo dum só trago.
Era o verbo, era a sílaba, era o que era,
Mas nunca o que foi! E se eu existisse,
Pudera ser soalho, pudera ser chão
- Onde teu pé incerto fugisse,
Desse teu outro que caminha em vão!

Se existisse, onde aconteceria a tua palha
Cama breve onde teu corpo pudesse dormitar?
O céu esculpido, a palavra abandonada, o eterno regresso?
Se existisse, eu não!
Eu seria delito e a própria confissão,
Seria o luto e da chama a acendalha,
Eu seria secreto e poderia acordar,
O concreto mundo,
A palavra e o seu esboço,
Num único e discreto trago.

Se existisse, seria o mais intenso nada, o teu chão
Onde se completa a manta de retalhos do céu,
Que é quando ainda a noite se chama madrugada.
Se existisse, seria o mais remoto cais, aquele
Que se perdeu nos cabos do mundo e por penas de poeta,
É obra incompleta que se pensa não regressar mais.

Atenta nas pegadas do teu canto, chão,
No meu corpo
De velho hóspede do profeta
Que toda a tinta e tela e sal,
Quinto, o teu último dia desigual,
Império de todos os tempos
Onde o verbo não tem tempo condicional,
Pretéritos imperfeitos do cais distante,
Que lá atrás, lá longe, lá adiante,
Daqui de onde se vê a linha recta,
Tua geração Orfeu, teu rumo
Poeta, em ti
Toda a criação em si se completa.

E para lá das aparências,
Ressuscita a palavra, e com ela,
A profecia do Poeta!

Bizarril, 2 de Novembro

|imagem: reprodução The Card Players, de Cézanne, Metropolitan Museum(?)|


dezembro 02, 2009

Os velhos hóspedes ou a sombra de Santa-Rita Pintor





















Basta! Basta um cansaço

E o livro do mundo
Escrito na pedra.
Encerrem-se nas primeiras chuvas de Outono e
Basta um cansaço; nunca o sono!

Os rascunhos na pedra,
Dos traços e planos de Deus,
Escritos nas nascentes, mão corajosa
De todas as correntes,
Só existem, [como só existe mundo que se veja]
Porque os quero ver. Eu
Velho, dos velhos hóspedes, quase pintor
De todas as obras Dele, as inacabadas!

Nos meus olhos vãos, o tudo se completa
E basta um cansaço,
Um pé incompleto, uma mão sem braço,
E chamam-me asceta!
Ao velho hóspede que habita em mim, ao seu dono
Arado, picareta,
Basta um cansaço; nunca o sono!

Dos rascunhos guardados,
Dos traços e danos meus,
Queimem-se na chama e da vida danosa,
Dos amores ausentes, que no meu chão
Nos pés que o pisaram,
Dias acabaram, tudo se consumiu.

Não adivinho que Orfeus embaraço,
Mas bastaria um cansaço,
Para que o meu corpo imundo
Escrito sem dono,
Tivesse um sono eterno? Não! Isso é coisa
Para os que adormeceram no Inferno.
A mim, como aos meus,
Contabilistas propagandistas escritores,
Bastam-me uma chama, quando por quando apagada,
Uma brasa que aquece este meu quase nada,
Este dormitar de olho aberto,
Uma haste na vida, uma corda sem dono,
Mas nada de sono! Basta um cansaço.

Indómito?
Porque o diria com arrogância
Que é nos meus olhos que a Criação
Se completa? Um cansaço basta!
Porque se dirá que é ganância
O deve e o haver,
E que o mundo só existe
Porque o quero ver, a Ele
E à sua obra inacabada?
É blasfémia, uma seta? Um cansaço basta,
Ao sono, nada! Nada,
Ao velho hóspede que abrigo em mim,
Ao doido incerto a quem se diz haver fim,
Ao dia encoberto pela mão que se esconde;
Que seja! Nada!
O meu corpo é a minha última morada,
Do qual o ar e o fogo, e até a terra se afasta,
Em todo o regato fresco de nuvem que se torna baço.
Não por mim, mas aos Deuses embaraço!

Mário, olha esta cabeça sem corpo sem nada…
E longe de mim de dizer o que não faço,
Mas nunca um chão,
Nunca um livro de pedra, fétido abandono,
Nunca um eterno sono: por mim
Um cansaço basta!

Bizarril, 2 de Dezembro

|aparte breve: breve monte de letras não revisto…|

|imagem: reprodução de Sun, Tower, Airplane, 1913, Robert Delaunay, A. Conger Goodyear Fund|


dezembro 01, 2009

Poema Sonâmbulo em Pessoa

















À Flávia Diniz

Palavra de Pessoa
Foi, será nave da terra
Que em poema, em bruma
Infindável tudo encerra;
E o mais é nada,
E o mais é tudo
O que a nossa mão possa tragar,
Da página livro traçado,
Da paciência da aranha
Em clandestino tablado,
Franca franqueza incerta a
Palavra de Pessoa.

Fora o Tejo Atlântico lugar
E a névoa anjo da serra,
Pisaria Caeiro a tenra caruma
Da primeira manhã da terra.
E além é estrada
E além é tudo
O que resta de remoto lugar,
Um triste monstro caiado,
Um débil som que arranha
O fado incerto, o mar errado
Onde toda a manhã desperta.
Aí, onde toda a palavra ressoa,
Juro, essa a palavra, palavra estrita
Verbo encarnado em poesia escrita
Palavra de Pessoa.

Houvera na natureza ciência
Que soubesse onde explicar
Da composição límpida da névoa,
Da estranha Mensagem alinhada,
Onde na origem da hora o encontrar,
O enigma que ainda hoje ressoa
Da sua palavra, semente aparente do nada,
Escrita fantasia, clara clarividência,
Palavra de Fernando. Juro,
Palavra de Pessoa.

Castelo Rodrigo, 30 de Novembro

|este que se quer aqui, entre os amontoados de palavras nesta esplanada, foi “parto acidental”, que nasceu a meio caminho entre um comentário na esplanada da Flávia Diniz e a urgência de se afirmar palavra… como tal, só pode pertencer a quem de direito, lá no outro lado do ribeiro atlântico. Com um imenso abraço!|

|imagem: reprodução de Nord-Sud, Gino Severini|

novembro 29, 2009

Cidade nossa, imperfeita imitação da aldeia distante





















Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro de minh'alma

Fernando Pessoa

1. Ah, intrépido poeta na cidade
Que cantas com vigor
Os sinos da tua aldeia distante
Que não conheceste alguma vez,
Senão naquela livraria da Almirante Reis,
Onde pousavam tristes, os livros devidos
De poetas antigos e desconhecidos.

Ah, guardadores nossos, de rebanhos e perícias,
Tão calmas e urbanas pastorícias,
Que se aprendiam dos imitadores da vida
No Cafés do velho Chiado,
E de voltas ao Século, versejando
Quais cantadores de almas, corpos
Incompletos, mil almas e mil olhos.
Guardadores de rebanhos e de piolhos,
Que se vingavam irados, nos fumos
Dos cigarros velhos, agora proibidos.

E se gaivotas houvessem neste estreito horizonte,
Tanto o vigor da palavra que teima no cheiro da terra,
Tão vasto o tamanho da palavra que erra,
Ignorada a diferença entre o ribeiro e o oceano.
Torna-se simples, o verso;
Para o poema urbano, afinal,
Toda a água do mundo, vem do mesmo sitio,
Ou seja, do cano.


2. Ah, bravos poetas que na cidade, hoje
E com que vigor, a plenos pulmões
Ditam compostos, os três cantos
Dos cânticos da terra,
Que em si, e por si só, têm um senão:
Cheiram demasiado a alcatrão!

Cantem-se os sinos na aldeia ancorada
No meio dum mapa que se escreveu em vão,
Esculpam-se os cânticos verdes da serra,
Que estes tons desmaiados são tantos,
Anéis e montanhas de cristal,
Quantos os teus versos em forma de furacões,
Este horizonte é todo, quase animal,
Um fruto maduro de que se traga o aroma
À porta do centro comercial.

E não escondas esse velho livro, que
De novo, cheira a mofo:
- Esse livro que te fala da origem das espécies,
Da vida, de todas as cantigas do tempo,
De janelas antigas viradas para o mundo,
Que em versos, poemas arrumas a norte,
Sem nunca teres saído da cidade mais capital.

Ah, nobre poeta copista,
Que cantas as celestes estrelas,
Breves portas de anjo, aspergidas de claridade,
Mas não são estrelas, irmão:
São postes de electricidade!

Quão sublime o teu dom artista,
Que sabe de cor os tons da terra,
Negro perfume da semente do barro,
Conheces o mundo inteiro, poeta,
Sem saíres da paragem do eléctrico,
Do metro, e para rimar - quem sabe?
Poder-se-ia afirmar que conheces o mundo inteiro,
Da parte interior dum autocarro!

Esbracejas, irmão, num verso contido
As maravilhas criadas num velho labirinto,
E calo-me já, agora, se minto,
Que o único verso que não se engana,
Que não estraga a poesia,
É o que pretendes ler alto, para uma imensa plateia,
E por entre abraços e elogios, passam
Os teus transeuntes versos, numa vasta livraria.

Ah, poeta, herdeiro da nação inteira
Que com a tua mão esteta,
Absorves o estaleiro do mundo,
E revolves num abrupto de todo o céu, os cadeados;
Invejo-te! Conheces o mundo inteiro, a sul,
Sem nunca teres havido por mais longe senão os Aliados!

3. Ah, intrépido poeta na cidade
Que cantas com propriedade,
Os sinos da tua distante aldeia
Que conheces como o livro na tua mão,
Aquele que dita o teu conhecimento do vago horizonte,
Quando o poeta, poeta mesmo,
Não existe; anda a monte!

E se dos poetas antigos e conhecidos,
Se te aprouver,
Compra o original, o mais obscuro de todos eles,
Não se vá dar o caso de trasladares da vida,
A sua mais finita poesia,
Pelas cópias dum livro reles.

E se das coisas incertas quiseres o rumo,
Da original palavra, como se diz por aí,
E do poema tomar o seu bem e o seu mal,
Tão puro veneno, tão calmamente bebido,
Vai, parte desse sítio, que te asfixia
Onde e por muito que se não queira, é cidade,
[mortalha de corpo que não sabe idade],
E na cidade, diz-se, encontra-se a última morada da poesia:
Morre para a vida,
Quando entra na livraria.


Colmeal, 29 de Novembro

|advertência breve: este montinho de letras, que nasce por “brincadeira”, não foi revisto, senão no essencial, e na eventualidade pode ganhar uma outra forma… até porque o conceito entre urbano e rural, muito divide e como que partindo desse pressuposto, a divisão, é das operações matemáticas aquela que menos proveitos traz: assim na matemática como na vida!|

|imagem: reprodução de Casamento na aldeia,1937, Sarah Afonso|


novembro 16, 2009

Onde está o teu piano vazio, Dooley Wilson?



"You must remember this, a kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh; the fundamental things apply, as time goes by.”


Onde se separam as ruas, para quem não as conhece ou já não se lembra que alguma vez por aqui passaram? O que nos separa do tempo, das memórias que nos foram confiadas, mesmo as que não encontramos nos mapas das cidades, nas geografias pequenas de quem se abandonou por ruas e ruas, sem que lhes tenha encontrado o principio ou o fim? Estará nessa placa desbotada pelo tempo, o início de todas as coisas que se condensam numa rua, nos passos, quase perdidos ou mesmo abandonados, pelos transeuntes anónimos de vida e vida, quase morte, e tudo o que lhe permeia? Estarão no nome das ruas que se fazem navegar, anonimamente, as respostas que se evitam, pela dor que provocam, as questões que se abandonaram há muito, quais livros que se encontram esquecidos pelo tempo, nos alfarrabistas, nos guardadores de rebanhos das memórias condensadas pelos livros do tempo?
São muitas questões, diria demasiadas, para quem se encarrega tão somente de cumprir uma promessa antiga, que uma estranha mão nos confia de cumprir. Talvez que não acredite, a quem tomar estas palavras por suas e tempo perdido, seu, que estou aqui apenas para dar um pouco de milho aos pombos que invadem essas ruas, que enxameiam de negro os tectos desta cidade, que muito dizem branca e de sete colinas, mas nesta precoce manhã de Novembro, toma das nuvens, as novenas das águas que entristecem estas ruas desertas… os pombos, diríamos que os únicos habitantes desta cidade, já há muito acordaram, e nos parapeitos das janelas esquecidas, aguardam com paciência as falhas de meteorologia, e estas duas mãos que temem o cumprimento das promessas, este sujeito cumpridor vago, no permanente silêncio incómodo, que se agasalha no zumbido distante dos cais, dos ruídos distantes do rio que hoje permanece mais envolto na outra margem, abscôndita margem que se recolhe na neblina, nevoeiro, húmus de ar e manhãs do mundo, todas de todas as manhãs vagas do mundo e nesta a promessa.

Onde se separam as ruas? Esta que parece nascer na Travessa dos Fiéis de Deus ou na Travessa da Espera, que serve de abrigo aos perdidos na manhã de chuva miúda, de abrigo a quem se desempoeira nos cafés encerrados para a vida há muito, mas de portas ainda e quase abertas, das tabernas que adiam para amanhã mesmo, o fim, o final do mundo num copo de três, uma ginja matinal, um bagaço que aquece os cigarros que ainda restam do mundo, uma beata que aguarda o fim final finado. Onde se separam estas ruas, não sei… que o digam os bombeiros e os homens da fé, quando esta cidade se enterrar noutro terramoto, esse eterno noivado que alguma vez se cumprirá…

- Procuras alguma coisa, rapaz? Perdido?… tem cuidado com essa malandragem…

Onde se separam e encontram estas ruas, para quem vem de longe e não sabe que distância percorreu até aqui, para cumprir uma promessa vaga e fácil de descumprir?

- Vá toma o raio do café, vai arrefecer… um cheirinho, para aquecer?...

O que nos separa das memórias e do tempo que nos foi confiado? O que me separa daquele piano que quatro rapazes sem idade, transportam para os cheiros ténues do mundo, para se desvanecer por completo? O que me separa daquele teclado em silêncio, daquele teclado em sólido silêncio, em acidente? O que me separa desse piano?

- Já não me serve para nada o piano… sucata! O rapaz que morava aqui no primeiro andar desapareceu do mapa há muito… deixou-me uma conta para pagar, mas isso é o menos. – Acordava todas as manhãs cedo e ia lá para baixo dar milho aos pombos, para o Camões… dizia-se… mais um café? Claro… sabe para que servem os pianos? Aquele é engraçado, mas está vazio por dentro…

O que nos separa das pequenas geografias pessoais, desses infinitos inalterados por lapsos de tempo? O que me separa daquele piano que Dooley Wilson, não sabia, nem nunca soube tocar? Esta taberna não é Rick’s Café, nem Lisboa, Casablanca… então que resta desse piano vazio que Dooley imitava a vida cantando "The fundamental things apply, as time goes by…”, raios, Mr. Dooley, que enganava o mundo, tocando o piano que nunca soube tocar, o piano vazio que ancorado na nostalgia se deixava enganar pelos dedos, pelo coração invisível de Sam, [sem saber tocar, no filme Casablanca, o piano estava vazio, sem cordas nem martelos, e a música era tocada por Elliot Carpenter, colocado atrás da câmara, para que Wilson Dooley pudesse seguir os movimentos], para uma invisível Lady Lund, que por aí, por esses tortuosos caminhos da cidade, andou por certo… e o que nos separa do tempo, se o tempo é o estado mais certo de coisa incerta, se o espaço é o mais amplo canal para quem se esconde da vida, tomando a rua deserta, agora, para desaguar na multidão matinal do mundo, da grande cidade que se concentra nas teclas naturais, sete oitavas mais uma terça menor, na certeza incompleta de quem procura nos pianos vazios a mais incómoda geografia da vida, na vida um efeito semelhante ao deslocar os martelos para uma posição de descanso, mais próxima das cordas, um sinal, una corda, que de inexistente, se conforma com a dúvida que nos separa do tempo e da memória que nos foi confiada. E se a vida prega mais partidas que chegadas, onde estará?

- Que tal vai isso, Sr. Wilson? Café?... e meio Jim Bean, claro…

Colmeal dos Cabrais, 07 Dezembro 2009

|fotograma de Casablanca em cpt por.8536720|


novembro 07, 2009

Breve


É a incerteza com que concebemos a visão do mundo
que tornam os seus contornos intoleráveis,
quase impossíveis.






|Sanvean (I am your shadow) por Lisa Gerrard,The Mirror Pool|
.

outubro 30, 2009

Da vida, meu frágil exílio perpétuo

















Estaba en la penumbra y tú me has hecho
luz. No era más que un árbol sin abril,
abrojo en campo estéril, y tu nombre,
Amor, me ha dado el agua y las acequias,
ha vestido de arriates mi destierro.

Acequias, de Francisco José Martínez Morán



Tão frágeis os contornos do mundo
Tão suave a neblina que o encerra –
Hábeis as mãos que o souberam
Contornar,
Do magma intemporal moldar
Um sopro, um sono, somente um
Pedaço de ínfimo enigma.

Tão breve o corpo que se anima,
Actor incerto no teatro das rotações do mundo,
Pele, espírito, osso
Movidos pelo sopro descontinuo
De quem
Das suas sete terras e seus sete mares
Tomou o barro frágil da eternidade
E qual palavra em movimento perpétuo

[tão frágil a intemporalidade que]
Tomou da forma
Finita, e ínfima
A eternidade da minha, tua
Presença
Inscrita no tempo –
Breve o cálice de vida;
Tomai e bebei!

Tão discreto o momento
Que respirando do mundo os seus contornos,
Aspiramos dos tempos que mais longe
Longínquos, uma ínfima parcela –
Se escondem.

Vivamos discretamente este molde
Contorno, o sopro de vida
Sul e norte de todas as fragilidades
Que se conserva na hábil mão
Que tanto nos guia, que tanto nos desorienta
Na nossa fragilidade
Do elemento. Único
E tão pouco perpétuo.

Tão provisório, o momento meu.


Castelo Rodrigo, 30 de Outubro


|enquanto olhava para as pedras, que ladeiam as estradas, esses estéreis caminhos de vida, pensava na sua força… a pedra tão imóvel, tão eterna! - Se a nossa vida é propriedade do eterno, então os momentos “que respiramos”, são apenas uma intima fracção… que assim seja!|

|Fotograma de As Asas do Desejo, Wim Wenders|

outubro 23, 2009

Advertências de Salomé às sombras - A Segunda Letra





















Há um livro das horas escondido
no mais fundo da tua alma.

Das páginas que se deixaram acordar
Pelos ventos e sombras,
Esses filhos nítidos de Salomé,
Guiam-se os sentidos inacabados
De quem na palavra procuram o conforto
Que retomam o caminho,
O tempo, a cristalização do ser
Que se amotina e todavia, descansa
Em si.

Dirá então Salomé:
O que dorme, acordará;
O que acordar, zelará prudentemente
Pelo sono do que padece;
O que padece, sonhará o pesadelo
Que precede o sonho
E o sonho precederá
A letra inicial, única, de principio e fim.

A letra inicial, esse
Espelho nítido,
Reflexo do livro das horas
Que adormecidas,
Nas sombras de poesia, ressuscitam,
Todavia
No mais fundo da tua alma

Colmeal Velho, 23 de Outubro

|Marlon Brando em cpt por.8536720|


outubro 20, 2009

Advertências de Salomé às sombras - A Primeira Letra

















Sê prudente.


Ao caminho, sem que o percebam
Sem que o entendam as pegadas,
A um pé antecede sempre o outro;
Recorre ao minuto que se completa, sempre,
Como se fora o último segundo.
No dia, a sombra escolhe a tarde e a manhã
Envolvendo o teu corpo, mas nunca por nunca
Nunca o teu meio-dia;

Mas nem sempre foi assim.
Alguma vez a tua prudência mostrará
O que nem sempre assim foi.
Nalgum traço do tempo,
O caminho confundirá a sombra, a tua sombra
Como a ampulheta que se cobre de grinaldas.
A sombra, de distintos
Mares e beijos verdes, virá a caminho
Se que percebam das pegadas,
Os sulcos terrenos. Aí tu estarás
Aguardando as instruções
Da luminosa obscuridade
Das sombras, enxertias do teu caminho.

Colmeal Velho, 20 de Outubro

|Barbara Stanwyck, Baby Face em cpt, por.8536720|