Do Poema em Desordem
Sobre as montanhas
Um rio esvai-se
Ao fogo do gesto
Que inflamo
In, Promessa de Uma Noite, Mia Couto
Para a Ana C. Quevedo
Em bom rigor, não me peçam
Para inventar mais uma árvore!
- Sabendo até, que na mão
Pode acontecer um rascunho
De vida, qualquer coisa de viva cor em tela,
Prefiro inventar uma estrela,
Um ou dois rios, uma pedra, ou quem sabe,
Apenas mais uma rosa de todo o mundo,
Uma montanha, só!
Em bom rigor, é inútil a invenção,
Da milonga, da mirácula poesia,
De súbito pela raiz, arrancada,
Até desistir da terra, da silhueta
Que haverá na minha mão…
Reiventar o mundo ou uma palavra?
Assim como assim, talvez, mas
- Árvores, não! Esta Oliveira,
Aquela Tamareira de Damasco
Que foi sombra de Omeya, é sombra em mim,
Dá-me fruto em luz, sombra em giz.
Árvore é meu santo em senha, a minha raiz,
Meu caule e seiva, quase mineral
Cedro de Amarelo, Cipreste animal,
Ébano de Brasil, das mil cores do Anis.
Árvore é meu Limão, Meio-irmão Limoeiro,
É Magnólia Palavra Macieira,
É a minha única ramada da terra inteira.
É inútil inventar, em bom rigor
A árvore derradeira!
Pode acontecer um rascunho,
Um afluente de fogo e fumo,
Ribeiro agreste em estrela adormecida.
Pode acontecer uma mão até, que se cruza
De letra em letra, de cinza em luz,
Um fogo sem história, no incêndio do fim
Do mundo.
Pode tudo acontecer de novo, mas não
Peçam da palavra, da árvore mais invenção!
- Esta escuridão não é suficiente, nem renovo
Novo poema da criação, me seduz.
Não me impeçam! Invento qualquer coisa,
Mas uma árvore não!
Luzelos, 9 de Fevereiro










