terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Do Poema em Desordem

.




















Cruzo as mãos
Sobre as montanhas
Um rio esvai-se
Ao fogo do gesto
Que inflamo

In, Promessa de Uma Noite, Mia Couto


Para a Ana C. Quevedo

Em bom rigor, não me peçam
Para inventar mais uma árvore!
- Sabendo até, que na mão
Pode acontecer um rascunho
De vida, qualquer coisa de viva cor em tela,
Prefiro inventar uma estrela,
Um ou dois rios, uma pedra, ou quem sabe,
Apenas mais uma rosa de todo o mundo,
Uma montanha, só!

Em bom rigor, é inútil a invenção,
Da milonga, da mirácula poesia,
De súbito pela raiz, arrancada,
Até desistir da terra, da silhueta
Que haverá na minha mão…
Reiventar o mundo ou uma palavra?
Assim como assim, talvez, mas
- Árvores, não! Esta Oliveira,
Aquela Tamareira de Damasco
Que foi sombra de Omeya, é sombra em mim,
Dá-me fruto em luz, sombra em giz.
Árvore é meu santo em senha, a minha raiz,
Meu caule e seiva, quase mineral
Cedro de Amarelo, Cipreste animal,
Ébano de Brasil, das mil cores do Anis.
Árvore é meu Limão, Meio-irmão Limoeiro,
É Magnólia Palavra Macieira,
É a minha única ramada da terra inteira.
É inútil inventar, em bom rigor
A árvore derradeira!

Pode acontecer um rascunho,
Um afluente de fogo e fumo,
Ribeiro agreste em estrela adormecida.
Pode acontecer uma mão até, que se cruza
De letra em letra, de cinza em luz,
Um fogo sem história, no incêndio do fim
Do mundo.
Pode tudo acontecer de novo, mas não
Peçam da palavra, da árvore mais invenção!
- Esta escuridão não é suficiente, nem renovo
Novo poema da criação, me seduz.

Não me impeçam! Invento qualquer coisa,
Mas uma árvore não!

Luzelos, 9 de Fevereiro

[imagem: reprodução de Snakes and Earth, do livro Night Life of Trees]


domingo, 7 de Fevereiro de 2010

Do Boticário Ofício da Palavra

.




















Para Katyuscia Carvalho

E se de todos os meus rios
Nenhum se fizer mar? E se de
Frios os meus ventos,
Algum tema o derradeiro sopro,
A primeira de entre todas as palavras?

E se inúteis os arados,
[paramentos da letra vaga, estragados]
Se neste húmus breve, hirto rebento,
Vegetal página que termina na
Luz do primeiro dia da criação, alguma da luz
Que já não ilumina?

Fosse papiro e a letra aconteceria;
Fosse barro de onde a terra termina,
E a palavra, em mim, talvez sangrasse!
Mas se não é derme, nem chão
Porque haveria de acontecer a minha letra
Na eterna prisão, no livro sempre sagrado
Das instruções do mundo,
O que contém a poesia?
- Porque a letra, pedra rio borboleta sem casulo,
Acontece constrangida dentro do papel,
Magia de algodão, cânhamo e linho,
E não lhe pertence
- É sobra, sombra negra em demasia
No pálido vento papel.

E se de todas as minhas letras acidentais
Nenhuma se houver por testemunha
Da tinta em tinta, manchada de livro?
Nada de mais! - Pois
Continuarão a correr para o mar
Os rios,
Soprarão soltos os ventos, e a minhas
Mãos que constroem marés letras,
Dores de crescimento de todas as borboletas,
E do caminho em vago ribeiro, um cais.

Se não houver da tinta em tinta, negra
No pálido papel de arroz, de seda,
Não será mais nem menos que nada
- Não será
Nada de mais!

Bizarril, 7 de Fevereiro

|imagem retirada de Google Images, de livro que não consigo identificar|

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

O Aparente Exílio do Vento

.




















Do vento que se limita na noite,

Ático sal do ofício das matinas,
Bastam-me as cinzas!
Seja o pó ázimo, antigo de tinta enteia
Que usarei,
Em palavra de forma,
Forma
Marcada no chão, no dia da chuva.
- Nocturno fragmento,
Acidental momento absoluto,
Um pouco mais que nada!

Da noite que adormece, breve
Neste espelho reflexo, de água
Que se enruga no rosto, na face, no corpo
Suturado,
Dista a palavra que não procura nem
Conhece longe distância. Onde, em que lugar?
Onde se exila o vento que podia e
Acontece em mim?
Onde, se o aceito como aos restos do mundo,
Que se abandonaram na ruína dos lugares?
- Nos mapas desenhados sem régua nem esquadro,
Nos carris enferrujados, nas estações de passagem,
E eu de mim, a minha própria margem,
Que aceito com agrado as letras,
Que há muito sangraram dos livros,
Abandonados. Livros são rituais de passagem,
Inútil parte do corpo exilado.
Inútil fragmento, desnecessário traço da margem.
Se minha a procura, de onde o vento
Que se limita nesse fragmento do dia,
Quase nocturno?

Onde, o vento, que amontoa a cinza,
O giz da noite de tormenta?
Onde, se absoluto, absoluto
É um pouco mais que nada?

Colmeal Velho, 5 de Fevereiro

|imagem: reprodução de Self-Portrait with Horn, 1940, Max Beckmann|


quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Onde está o teu piano vazio, Dooley Wilson?

.
















"You must remember this, a kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh; the fundamental things apply,
as time goes by.”

Onde se separam as ruas, para quem não as conhece ou já não se lembra que alguma vez por aqui passaram? O que nos separa do tempo, das memórias que nos foram confiadas, mesmo as que não encontramos nos mapas das cidades, nas geografias pequenas de quem se abandonou por ruas e ruas, sem que lhes tenha encontrado o principio ou o fim? Estará nessa placa desbotada pelo tempo, o início de todas as coisas que se condensam numa rua, nos passos, quase perdidos ou mesmo abandonados, pelos transeuntes anónimos de vida e vida, quase morte, e tudo o que lhe permeia? Estarão no nome das ruas que se fazem navegar, anonimamente, as respostas que se evitam, pela dor que provocam, as questões que se abandonaram há muito, quais livros que se encontram esquecidos pelo tempo, nos alfarrabistas, nos guardadores de rebanhos das memórias condensadas pelos livros do tempo?


São muitas questões, diria demasiadas, para quem se encarrega tão somente de cumprir uma promessa antiga, que uma estranha mão nos confia de cumprir. Talvez que não acredite, a quem tomar estas palavras por suas e tempo perdido, seu, que estou aqui apenas para dar um pouco de milho aos pombos que invadem essas ruas, que enxameiam de negro os tectos desta cidade, que muito dizem branca e de sete colinas, mas nesta precoce manhã de Novembro, toma das nuvens, as novenas das águas que entristecem estas ruas desertas… os pombos, diríamos que os únicos habitantes desta cidade, já há muito acordaram, e nos parapeitos das janelas esquecidas, aguardam com paciência as falhas de meteorologia, e estas duas mãos que temem o cumprimento das promessas, este sujeito cumpridor vago, no permanente silêncio incómodo, que se agasalha no zumbido distante dos cais, dos ruídos distantes do rio que hoje permanece mais envolto na outra margem, abscôndita margem que se recolhe na neblina, nevoeiro, húmus de ar e manhãs do mundo, todas de todas as manhãs vagas do mundo e nesta a promessa.


Onde se separam as ruas? Esta que parece nascer na Travessa dos Fiéis de Deus ou na Travessa da Espera, que serve de abrigo aos perdidos na manhã de chuva miúda, de abrigo a quem se desempoeira nos cafés encerrados para a vida há muito, mas de portas ainda e quase abertas, das tabernas que adiam para amanhã mesmo, o fim, o final do mundo num copo de três, uma ginja matinal, um bagaço que aquece os cigarros que ainda restam do mundo, uma beata que aguarda o fim final finado. Onde se separam estas ruas, não sei… que o digam os bombeiros e os homens da fé, quando esta cidade se enterrar noutro terramoto, esse eterno noivado que alguma vez se cumprirá…


- Procuras alguma coisa, rapaz? Perdido?… tem cuidado com essa malandragem…


Onde se separam e encontram estas ruas, para quem vem de longe e não sabe que distância percorreu até aqui, para cumprir uma promessa vaga e fácil de descumprir?


- Vá toma o raio do café, vai arrefecer… um cheirinho, para aquecer?...


O que nos separa das memórias e do tempo que nos foi confiado? O que me separa daquele piano que quatro rapazes sem idade, transportam para os cheiros ténues do mundo, para se desvanecer por completo? O que me separa daquele teclado em silêncio, daquele teclado em sólido silêncio, em acidente? O que me separa desse piano?


- Já não me serve para nada o piano… sucata! O rapaz que morava aqui no primeiro andar desapareceu do mapa há muito… deixou-me uma conta para pagar, mas isso é o menos. – Acordava todas as manhãs cedo e ia lá para baixo dar milho aos pombos, para o Camões… dizia-se… mais um café? Claro… sabe para que servem os pianos? Aquele é engraçado, mas está vazio por dentro…

O que nos separa das pequenas geografias pessoais, desses infinitos inalterados por lapsos de tempo? O que me separa daquele piano que Dooley Wilson, não sabia, nem nunca soube tocar? Esta taberna não é Rick’s Café, nem Lisboa, Casablanca… então que resta desse piano vazio que Dooley imitava a vida cantando "The fundamental things apply, as time goes by…”, raios, Mr. Dooley, que enganava o mundo, tocando o piano que nunca soube tocar, o piano vazio que ancorado na nostalgia se deixava enganar pelos dedos, pelo coração invisível de Sam, [sem saber tocar, no filme Casablanca, o piano estava vazio, sem cordas nem martelos, e a música era tocada por Elliot Carpenter, colocado atrás da câmara, para que Wilson Dooley pudesse seguir os movimentos], para uma invisível Lady Lund, que por aí, por esses tortuosos caminhos da cidade, andou por certo… e o que nos separa do tempo, se o tempo é o estado mais certo de coisa incerta, se o espaço é o mais amplo canal para quem se esconde da vida, tomando a rua deserta, agora, para desaguar na multidão matinal do mundo, da grande cidade que se concentra nas teclas naturais, sete oitavas mais uma terça menor, na certeza incompleta de quem procura nos pianos vazios a mais incómoda geografia da vida, na vida um efeito semelhante ao deslocar os martelos para uma posição de descanso, mais próxima das cordas, um sinal, una corda, que de inexistente, se conforma com a dúvida que nos separa do tempo e da memória que nos foi confiada. E se a vida prega mais partidas que chegadas, onde estará?


- Que tal vai isso, Sr. Wilson? Café?... e meio Jim Bean, claro!…


Colmeal dos Cabrais, 07 Dezembro 2009



|aparte breve: originalmente, este texto foi escrito exclusivamente para a Revista Cronópios, em jeito de agradecimento pelo seu primeiro e único acolhimento, até esta data; como nenhum vínculo nos une e a resposta de edição ou não, nunca chegou, sinto que este já pode ver a luz do dia… ou da noite, independentemente da “qualidade”! – 03.02.2010]

|imagem: reprodução de fotograma de Casablanca, com Dooley Wilson e Humphrey Bogart, em cpt por.8536720|

terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

O Dezembro em Cinzas

Ode Breve a Chet Baker





















Em vão me demoro a soletrar
O alfabeto do mundo


Antes que o Improvisador possa recolher os ornamentos,
As cinzas que restam do estaleiro,
Do retábulo do tempo, escondido Dezembro,
Haverá um sábio quase devoto
Na arqueologia do sublime,
E um matemático que se alimenta em segredo
De nuvens falsas, molde noroeste
De bom presságio, molde e esquadro,
E cansados do mundo inteiro,
Repousarão a noite longa e fria
Da geada Janeiro, algures dentro
Dum detalhe perdido no vento,
No mundo ao invés, no mar,
No ouvido e martelo, no mar adentro.

Preciso de escrever cingindo-me a um risco
Sobre o livro do horizonte.
Desenhar o milagre desses dias

Até no mais quedo instante.
As cinzas que restam dum calendário errante,
Que por vezes rege o cosmos, é ar
É traço, é chave, é nota demorada
É pedaço de eixo de mundo, quase em harmonia,
No discurso complexo, frágil
Equilíbrio da antiga palavra do mundo,
Impossível mosaico em labirinto
Sem contorno, tardio jardim devagar.
A Tabacaria há muito encerrada
[alguma vez chegaria o seu dia!],
É milagre alquimista de tão fácil,
Conquistado o segredo do profundo,
O que se guarda na aba do casaco coçado
De um anjo de asa partida
- Dentro do piano há voz tardia,
Há um pedaço de criação, já sem ventre,
Há explicação de pedra, na passagem
Do tempo. Há vento sibilo e água torta
Dentro dum canto triste. “Desta vez, apenas,
O sonho está dentro de mim”, piano e voz,
Árvore inicial, perfume de mastro
Que ilumina por dentro da terra,
Todos os astros, segundos,
Alma, minério composto da sublime casa.
[Ancorada no barro, onde se esconde
A tua restante asa?]

Desenhar o milagre desses dias (…)
São só signos que nunca li bem,
Que ainda não consigo anotar em meu caderno.

Chegada aos tempos em tempos de desordem,
Pode a melodia das cinzas, já sem rubor
Compor, como antigamente, uma nota, um traço
Uma constelação, um pedaço de madeira,
Um breve trecho da história mais remota,
De qualquer ínfimo que seja, do
Resto, do que sobeja duma velha canção de amor?
De todos os astros dos astros, do ano,
Pode algum mais breve, acontecer na tecla do
Piano, mesmo que desafinado e gasto de cor?

Quanto eu queria ao menos um instante

Que guiados pela luz mais constante
Pudessem arqueólogos e matemáticos, com ares
E dons de sapiência, recuperar à autópsia do tempo
Apenas mais um momento, uma breve nota, só
Fosse ela qual fosse, um sol embalsamado, talvez…
- Um jarro e copo de vento, um cigarro suave quente,
Um sono na mesa, um segredo só por cinza, cinzento,
Deixado num espaldar de cadeira, derradeiro,
Um livro com palavras em raiz, quase rebento,
Um metrónomo sem concerto, urgente,
De uma só vez, uma nota só, contratempo
Contraforte e fortes mares de guarda,
Em jusante.
Ao menos por um instante, como quem diz,
Fistores sábios ou génios ignorantes,
Possam nesse exame de mar dissecado,
Dizer como quem diz. “Em que nota, em que sinal
A nota humana se condiz?"

Colmeal Velho, 1 de Fevereiro



|aparte breve: versos interiores, de Eugénio Montejo, de Alfabeto do Mundo|


|imagem: foto de Chet Baker, de Google Images, trabalhada em cpt por.8536720|


sábado, 30 de Janeiro de 2010

E a palavra é densa e nos fere.


















A Orides Fontela, Singela Homenagem
In Memoriam,


Estranhas armas, essas,
Pedaço poeta de gente:
Uma caneta, pedaço de tinta
Permanente,
Meia folha de papel
Pardo ou alvo,
Uma janela ou grinalda,
Um anjo sem asas, no espaço.
Estranhas armas, estas;
Não me as peças,
Não tenho mais!

Estranha tinta, essa,
Que se compõe do corpo
Da gente:
Sangue ou seiva de rio,
Tanto faz,
Dedos, cinco, uma mão
Água mole, aguardente
Pedra seca no meio da casa;
De onde, de quem esta asa?
[anjo perdido, abrigado
No meu mar salgado?]
Estranho ritmo, este, esta tinta,
Que esmorece, cresce
E grita! É corpo que tanto morre
Como ressuscita. E depois?
Não é assim a canção aflita
De quem dum verso
Compõe todo o universo
Compacto espaço?
Não sei, não escutei conselhos
De quem não sabe o que faço.
Sei que é estranha esta linha,
Este traço que me resta,
Estranha arma que não me traga,
Que não me amedronta,
Nem me repele! É esta, a ilusão
De quem flutua na escuridão
Do dia? Não sei!

Se existem facas canetas
Palavras em forma de armas
Estranhas, não deponho;
Não tenho mais palavras,
Por ora
- Para qualquer dúvida,
É favor entrar em contacto
Com o Poeta Permanente!

Senhora de Monte Forte, 30 de Janeiro


|aparte breve: o titulo deste texto, é verso de poema de Orides Fontela, Fala|


|imagem: reprodução de Baile na Colômbia, 1980, Fernando Botero|


sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

O Advento dos Inconformados





















“Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?”

In Falas de Civilização, Alberto Caeiro


Nossa mesa, raiz em fossa, meu chão,
Onde se abandona ao centro seca metade
Dum pão. Um pedaço de sangue sem Cristo,
Não é por assim te chamares, Portugal
Que existo!

Pedaço de mundo há tanto abandonado,
Por quem suas copas de árvores tomou,
E no chão nada no vazio, nada plantou.
Estou triste, como vago clamor que persiste, exausto e
Abatido. Nada do que se cumpriu
Foi o prometido!

Vagas as preces de quem teceu loas ao mar,
Às vagas, que todo o sangue dos meus tomou,
Toda a honra, toda a glória reclamada por vãos hinos,
Que se não lembram nem na hora do mais crente,
Daquele que se cumprira no destino,
E não fosse na vez de se cumprir Portugal,
Haveria quem quisesse parar.
Tropeça na carga o ladrão, que se inflama
Discursa com a mais bela chama, a negra palavra
Que engana não mil, mas um milhão.
Inflama os rudes com discurso de sério vigário,
Mas a mim não!

Nossa pedra, ruído castelo, terra oca meio sermão,
Onde se abandona a vazia mesa, justo repasto
De meio pão. Terra breve onde persiste
Meu corpo, meu sangue, minha sombra sinal;
Em nome de um falso crivo,
Há um país que jaz;
Mas tu ele, quem como nós,
Eu? Eu sobrevivo!


Colmeal Velho, 2 de Dezembro [2009]


|imagem: reprodução de The Football Players, 1908, Henri Rousseua, Solomon R. Guggenheim Museusm, N.Y.|



terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Anemografia Simples





















“É difícil não amar a vida
Mesmo explorado pelos outros homens
É absurdo achar mais realidade na lei que nas estrelas
Sou poeta irrevogavelmente.”

In Manhã, Murilo Mendes

Peço ao meu vento austro
Que não tome ou torne, esta mão
Este osso que a sustenta,
Em ferro velho;
É-me distante, fundamental!
Não é só movimento, tinta e sangue
- É casco de navio em estaleiro abandonado,
É pormenorizada narração dos ventos,
Uma espécie de conjuntos de nadas, formados
Na forma dos simples ventos,
Singular tapeçaria em movimento.

Peço ao meu guarda-vento, vento contrário,
Bordado de papel aéreo,
Que não me diste das letras de molde,
Das letras de mão, de mãos minhas quase impuras
- Entendo que no mundo o poema primeiro
É a sagrada escritura, mas mais haverão,
Determinados pela incerteza do que consta no livro
Da narrativa em branco, o oitavo dia da criação.

Peço ao meu humano sangue em tinta, austero,
Que não tome ou torne, esta mão
Incapaz de entender mais além, ainda, a ortografia do mundo.
No meu principio, também há um verbo,
Um tempo, um instante, uma metáfora geografia.
- Não peças, insensível coração apartado,
Que esta a minha mão abandone, por tua solitária vontade.

Há mais mundo dentro do meu! Não me impeças,
A descrição simples dos ventos que me atravessam:
Eles, a existirem, existem!
Eles, a atapetarem o que em mim insiste,
São ventos abinícios, o meu espírito,
Ou se melhor vos aprouver, a minha verdade!

Não me impeças, basta!
Se for esta palavra terra em terra infértil,
Paciência! Tentei o que nunca imaginaste…


Colmeal Velho, 26 de Janeiro



|imagem: reprodução de Guardian Spirit of the Waters,1878, Odilon Redon, The Art Institute of Chicago|

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Inútil Invenção





















À Alice M. Campos


Uma bicicleta não basta;
É necessária a precisão do arquitecto
Para balança-la no firmamento. E mais:
Uma bicicleta não presta,
Se ninguém houver para navega-la.

Se de dois raios faço um sol,
Quantos os que posso dispensar deste arco?
- Se para navegar só preciso dum barco de papel,
Uma tela de prata, três pedras de sal, e morna a água,
Para ir ao fim do mundo e voltar, o que basta?
Talvez uma bicicleta, um ou dois pneus furados
E da correia, necessito apenas uma volta.

Preciso duma balança de precisão de mola solta,
Um mapa em traços de coração, dois telhados,
Um pão seco para viagem, e comigo incluído, é tudo. Basta!

Preciso, para chegar ao fim da rua, dum papagaio
De papel. Um guiador que pelas rédeas tome este barco,
E comigo, basta! Não sou fantasma, nem lençol, aviso,

Mas uma sucateira bicicleta, não basta,
Para todo este caminho redondo ou recto;
[Para levar comigo os sete mares da terra,
E os dois céus do dia: o um de claro, o outro escuro]
Basta-me um momento!

Um quase segundo;
Todavia, nunca uma bicicleta!


Colmeal Velho, 23 de Janeiro


|imagem: reprodução de A descoberta da terra, 1941. Cândido Portinari no edifício da Biblioteca do Congresso, Washington, DC.|

sexta-feira, 22 de Janeiro de 2010

Da Canção do Corvo Branco da Terra Azul (II)





















(parte segunda - a Mário de Sá-Carneiro)


A Jacque,
Em tão próximo Atlântico Lugar
E pela sua homenagem a Sá-Carneiro



“Não adorei chagas nem relíquias
Ou pentes de oiro
Nem corpos carbonizados envoltos em pergaminhos.
Durante dez mil anos nunca fui um desgraçado
Rio de dia e de noite durmo”

in Não me entretive nos Mosteiros Europeus, Leonard Cohen


III.

Fosse minha, como se de mim em mim,
Essa a cabeça que haveria
De repousar no colo de Salomé, e Eu
Seu hóspede, seu náufrago em mar incerto,
Mais impossível que toda a finitude da pedra,
E Eu, parte finita em pedaço de vagabundo
Sem sair de teu colo, Salomé,
Seria esfera cabo armilar, quem sabe, o fémur mundo!
Eu outro, Eu tudo ou nada, Eu estranho
Dentro da sombra estranha, ventre infuso em flor.

Fosse carmim, de mim em mim,
E a cor do teu tronco em seiva, em sangue
Puro, da composição do impossível de tudo o que é,
Geometria mais radical, emergia!

Fosse Eu, o teu hóspede efémero, em ti naufragado,
Salomé, e sem sair do teu colo,
Atravessaria todos os astros, todos os mastros
De navios aprumados para o dia do quebranto final
- Seria a bússola desorientada para o mais vasto fogo,
Bem como toda a água do vaso do céu, para o apagar.
Seria canoa de ar, navio de guerra, e continente
Em continente, e o canal, que o haveria de atravessar.
Seria terra em barro quase por moldar, semente
De estanho. Eu, outro, Eu estranho, Eu dor
De todos os trapos em álcool que nunca juntei,
Quem sabe, Eu abjecto, Eu toda a vida,
Eu, o outro hóspede de Salomé,
Náufrago de erva daninha e da renunciada cabeça
Que a sua mão embala.
Fosse pedaço de intersecção a minha cabeça, e hesitaria
- Eu, Mário, me confessaria;
Minto! Mas daí mal ao mundo virá?
Trocar as voltas e as chagas, pequenos pecados em nada,
Pragas dos aflitos, só para fingir em aflição,
Da inutilidade da luz deste dia?

Minto! E então?



“Eu não sou eu nem sou outro
sou qualquer coisa de intermédio.”
Mário de Sá-Carneiro

IV.

Se não sou Eu, então quem? Esse que me olha

Desse lado do espelho, esbracejando como um louco,
Futilidades sem lustro, ignominias?
Esse Eu, Eu não sou! E se não sou, então quem?
Será o vagabundo do além, será sombra, será céu?
Tudo de mim parece, mas esse não sou! – Garanto;
Então quem?

Podem partir esse outro lado do espelho,
Espalhem os cacos, por prazer
- O mesmo experimentei em sete anos de azar!
Podem chamar gatos negros, bruxas e de hábeis, as fadas.
Podem comer pedaços de pão mole em dia de chuva e sol,
Chamem os encantadores de serpentes, dos limbos e das trovoadas;
Mas procurem bem nesses nadas, vasculhem no pó
Da casa; Se no telhado, nas portas sem chave, nas escadas,
Uma sombra que seja, que responda, mesmo que hesitante
- Eu estranho, Eu distante, Eu observo e duvido:
Se esse não sou eu, então quem de intermédio?

Eu distante? Eu errante? Eu amável?
Nunca! Este tédio faz de mim um projéctil!
Eu Mário, de fato e gravata, composto em chapéu de feltro
Molhado, bem como a própria chuva.
Não pensem, por isso, que serei
Menos vagabundo ou miserável!
Sou além! Será que não entendem?
E se esse no espelho nada sou,
Então a sombra, então quem
Me responde em línguas várias, das várias partes do mundo,
Para as outras partes que eu mando?

Faz-se tarde. Mário! Vou andando…

Colmeal Velho, 21 de Janeiro

|imagem: reprodução de Den ensamma giftsvampen, 1893 - August Strindberg|

Selo Sem Imposto!

Selo Sem Imposto!
Pela Amiga Angélica Lins

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